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As pessoas que sabem muito acerca do sistema financeiro mundial estão cada vez mais preocupadas, e por boas razões. Advertências sombrias estão a surgir das fontes mais "respeitáveis". A realidade tornou-se descontrolada. Os demónios da ganância estão à solta.
O que é esta realidade? Ela inclui um certo número de factores. Tomados isoladamente seriam excessivamente sérios; combinados, muito provavelmente serão letais.
Em primeiro lugar, o Fundo Monetário Internacional (FMI) tem estado a experimentar uma crise tanto estrutural como intelectual. Estruturalmente, seus créditos e empréstimos em curso declinaram dramaticamente desde 2003, de mais de US$ 70 mil milhões para pouco mais de US$ 20 mil milhões hoje, deixando-o com muito menos alavancagem sobre as políticas económicas de países em desenvolvimento – e também menos rendimento do que o exigido pelas suas dispendiosas operações. Ele agora está em défice. [1]
Grande parte dos problemas do FMI devem-se à duplicação dos preços mundiais de todas as commodities desde 2003 – especialmente petróleo, cobre, prata, zinco, níquel e outras – exportadas tradicionalmente pelos países em desenvolvimento. Se bem que haja flutuações nestes aumentos, há também razões para pensar que eles podem prolongar-se porque o
rápido crescimento económico na China, Índia criou uma procura florescente que não existia antes, quando as balanças comerciais sistematicamente favoreciam os países ricos.
Os Estados Unidos viram a sua posição activa externa líquida cair quando o Japão, a Ásia emergente e países exportadores de petróleo tornaram-se mais poderosos ao longo da última década, e tornaram-se cada vez mais credores dos EUA. [2] Como os défices dos EUA crescem, com importações muito maiores do que exportações, o valor do dólar tem estado a declinar – 28 por cento contra o euro, só entre 2001 e 2005.
Igualmente importante, o FMI e o Banco Mundial foram severamente castigados pelos colapsos (meltdowns) no Extremo Oriente, Rússia e alhures, e muitos dos líderes chave das duas instituições perderam a fé nas premissas anárquicas, descendentes pensamento económico
clássico do laisser-faire, que até então orientavam seu aconselhamento de políticas. "Nosso conhecimento do crescimento económico é extremamente incompleto", admite agora muita gente no FMI, e "mais humildade" da sua parte está agora garantido. [3]
Pior ainda, toda a natureza do sistema financeiro global mudou radicalmente de formas que nada têm a ver com as "virtuosas" políticas económicas nacionais que se seguiam aos conselhos do FMI. São formas que o FMI não pode controlar. Os administradores de investimentos de fundos de acções (equity funds) privados e os grandes bancos (majors) deslocaram bancos nacionais e corpos internacionais tais como o FMI, movendo-se bem além das estruturas regulatórias existentes e eles "reintermediaram-se" entre os tomadores de empréstimos tradicionais, tanto nacionais como individuais, e os mercados.
Eles desregularam a estrutura do mundo financeiro, tornando-a muito mais imprevisível e sujeita a crises. Eles procuram gerar altos retornos de investimento, os quais são um factor chave para a sua compensação e tomam riscos acrescidos para alcançar esse fim.
Um "admirável mundo novo" emergiu na estrutura financeira global, um mundo que é de longe menos transparente porque há menos exigências de relatórios impostas àqueles que nele operam. Aventureiros financeiros estão constantemente a criar novos "produtos" que desafiam tanto os estados como os bancos internacionais. O administrador do FMI, Rodrigo Rato, no fim de Maio de 2005, deplorou estes novos riscos – riscos que a fraqueza do dólar dos EUA e os seus crescentes défice comerciais ampliaram grandemente. [4]
Em Março deste ano o FMI divulgou o livro de Garry J. Schinasi, Safeguarding
Financial Stability, dando-lhe extraordinária na altura e posteriormente. Na essência, o livro de Schinasi é alarmista e tanto revela como documenta em grande e perturbador pormenor as profundas ansiedades do FMI. Essencialmente, "desregulação e liberalização", que o FMI e os proponentes do "Consenso de Washington" advogaram durante décadas, tornaram-se um pesadelo, criando "tremendos benefícios privados e sociais" mas também possuindo "o potencial (embora não necessariamente com uma alta probabilidade) para fragilidade, instabilidade, risco sistémico, e consequências económicas adversas".
Qualquer pessoa que leia os dados no livro soberbamente documentado de Schinasi partilhará sua conclusão real de que o desenvolvimento irracional das finanças globais, combinadas com a desregulação e liberalização, "criou espaço para a inovação financeira e potenciou a mobilidade dos riscos". Schinasi e o FMI advogam uma estrutura nova e radical para monitorar e impedir os
problemas que agora podem emergir, mas o êxito "pode ter a ver demasiado com a boa sorte" assim como com a concepção política e a vigilância do mercado. [5] Deixar o futuro à sorte não é o que a ciência económica prometera originalmente. O FMI está desesperado, e não está sozinho.
Como provou o colapso financeiro da Argentina, países que não sucumbem às pressões do FMI e de banqueiros podem jogar com as divisões internas do FMI, particularmente os EUA, compreendendo banqueiros e outros, para evitar muitos, embora dificilmente todas, as exigências estrangeiras. Cerca de US$ 149 mil milhões em títulos soberanos para com credores e o FMI estavam em causa, que terminaram no fim de 2001 no maior incumprimento (default) nacional da história. Na década de 1990 os bancos estavam ansiosos por emprestar dinheiro à Argentina e eles finalmente pagaram por
isso. Desde então, contudo, os preços das commodity subiram e a taxa de crescimento dos países em desenvolvimento em 2004 e 2005 foram mais do que o dobro daquelas dos países de altos rendimentos, um padrão que se prevê continuar até 2008.
Já em 2003 os países em desenvolvimento eram a fonte de 37 por cento do investimento directo estrangeiro em outros países em desenvolvimento. A China representa uma grande parte deste crescimento, mas isto também significa que o FMI e o banqueiros ricos de Nova York, Tóquio e Londres têm muito menos influência do que antes. O crescimento da complexidade é a ordem da economia mundial que emergiu na última década, e com isto vem o potencial para muito maior instabilidade, e perigos para os ricos.
ALTA VELOCIDADE DA CIÊNCIA ECONÓMICA GLOBAL
O problema financeiro global que agora emerge está entremeado com os défices fiscal e comercial americanos em crescimento rápido. Desde a entrada de Bush no gabinete, em
2001, ele somou mais US$ 3 milhões de milhões (trillion) aos limites federais de empréstimos, os quais são agora de quase US$ 9 milhões de milhões. Enquanto houver uma desvalorização contínua do dólar americano, os bancos e financeiros procurarão proteger seu dinheiro e aventuras financeiras arriscadas parecerão cada vez mais valer a pena. Este é o contexto, mas Washington advogou maior liberalização financeira bem antes do enfraquecimento do dólar. O mundo tem agora uma conjunção de factores que criaram um risco muito maior do que os proponentes do "Consenso de Washington" alguma vez acreditaram possível.
Agora há muitos fundos de acções (hedge funds), com os quais já somos familiares. Mas eles agora negociam em créditos derivativos (credit derivatives) e numerosos outros instrumentos financeiros. Mercados para créditos derivativos futuros estão iminentes. O mercado de créditos derivativos era quase inexistente em 2001, cresceu razoavelmente
devagar até 2004 e entrou então na estratosfera, atingindo US$ 17,3 milhões de milhões no fim de 2005.
O que são créditos derivativos? A redactora chefe de mercados de capitais do Financial Times, Gillian Tett, tentou descobrir. Ela fracassou. Cerca de dez anos atrás alguns banqueiros do J. P. Morgan estavam em Boca Raton, Florida, a beber, a arremessarem-se uns aos outros dentro da piscina, etc, e eles pensaram na ideia de um novo instrumento financeiro que era demasiado complexo para ser facilmente copiado (as ideias financeiras não têm copyright) e que certamente lhes daria dinheiro. Mas ela foi altamente crítica quanto aos seu potencial para provocar uma reacção em cadeia de perdas que engolfariam os fundos de acções que saltaram para dentro deste mercado. [6] É por razões como estas, bem como outras, ainda mais opacas, tais como cisões em
capital trusts, obrigações de dívidas colaterizadas e mercado de permutas de incumprimentos (market credit default swaps) que o FMI e as autoridades financeiras estão tão preocupadas.
O bancos simplesmente não entendem a cadeia de exposição e quem possui o que. Reguladores financeiros de topo e banqueiros agora admitem isto. O colapso do fundo de acções Long-Term Capital Management em 1998, que envolveu apenas cerca de US$ 5 mil milhões de acções, revelou isto. A estrutura financeira é agora infinitamente mais complexa e muito mais vasta. Só os dez principais hedge funds em Março de 2006 tinham US$ 157 mil milhões de activos. Os hedge funds afirmam serem honestos mas aqueles que os dirigem são compensados pelos lucros que conseguem, o que significa assumir riscos. Mas há milhares de hedge funds e muitos recebem informação privilegiada, o que é tecnicamente ilegal mas acontece de qualquer forma. O sistema está repleto de perigos, a
começar pela estrutura de compensação, mas também assume um mercado de acções em ascensão constante e muito, muito mais. Muitos administradores de fundos são incompetentes. Mas em 2005 cada um dos 26 principais administradores de hedge funds ganhou uma média de US$ 363 milhões; James Simons, da Renaissance Technologies, ganhou US$ 1,5 mil milhões.
Agora há consenso em que tudo isto, e muito mais, criou perigos crescentes. Podemos por de lado a persistência de desequilíbrios orçamentais baseados em aumentos de despesas ou cortes fiscais para os ricos, assim como a volatilidade dos mercados de acções e commodities do mundo que em Maio levaram os hedge funds a apresentarem retornos muito mais baixos do que haviam feito no ano passado. É o que qualquer um imagina que pode acontecer nos mercados, alguns ganharão enquanto outros perderão. Os hedge funds ainda fazem um bocado de lucro, e na primavera de 2006 eles valiam cerca de US$ 1,2 milhões
de milhões (trillion), mas são cada vez mais perigosos.
Foi bastante dinheiro de investidores em países ricos para mercados emergentes de acções, os quais foram duramente golpeados nas últimas semanas, e se eles os deixarem o choque financeiro será grande. Os perigos de um colapso também estão ali.
Os problemas são estruturais, tais como o rácio em grande crescimento entre encargos de dívida corporativa e rendimentos das operações principais (core earnings), os quais cresceram substancialmente de quatro a seis vezes ao longo do ano passado porque há menos cláusulas legais para proteger investidores de perdas, e para impedir companhias de irem à bancarrota quando deveriam. Enquanto as taxas de juro estiveram baixas, os empréstimos alavancados (leveraged loans) foram a solução. Com os hedge funds e outros instrumentos financeiros, há agora um mercado para firmas incompetentes, pejadas de dívidas. As regras que outrora alguns
associavam erradamente com o capitalismo – probidade e afins – não mais vigoram, mesmo no papel.
Os problemas também são inerentes à velocidade e complexidade, e estes são muito diversos e quase surrealistas. Os créditos derivativos são bastante precários, mas no fim de Maio a International Swaps and Derivatives Association revelou que um em cada cinco negócios, muitos deles envolvendo milhares de milhões de dólares, envolviam grandes erros. Na medida em que aumentou o volume de comércio assim aumentaram os erros. Eles duplicaram no período pós 2004. Muitos negócios foram garatujados sobre pedaços de papel e não registados adequadamente. "Inescrupuloso" ("unconscionable") foi a descrição do ex-presidente do Fed, Alan Greenspan. Ele declarou-se "francamente chocado". Outras transacções, no entanto, são determinadas por algoritmos matemáticos ("preço médio ponderado pelo volume", assim se chamam) para os quais são contratados PhDs treinados em métodos
quantitativos. [7] Os esforços para remediar esta confusão só começaram em Junho deste ano e estão muito longe de resolver um problema grande e acumulado que envolve somas assombrosas.
Stephen Roach, economista chefe da Morgan Stanley, em 24 de Abril deste ano escreveu que uma grande crise financeira estava iminente e que a capacidade das instituições globais para impedi-la – que vão desde o FMI e Banco Mundial até outros mecanismos da arquitectura financeira internacional – são absolutamente inadequados. No princípio de Junho o secretário chefe de Hong Kong lamentou os riscos e perigos dos hedge funds. O iconoclasta economista chefe do FMI, Raghuram Rajan, advertiu ao mesmo tempo que a estrutura de compensação dos hedge funds encorajava aqueles que os dirigiam a assumir riscos cada vez maiores, pondo assim em perigo a totalidade do
sistema financeiro.
Toda a estrutura financeira global está a tornar-se incontrolável em aspectos cruciais que os seus líderes nominais nunca esperaram. A instabilidade é, cada vez mais, a sua característica inconfundível. A liberalização financeira produziu um monstro, e resolver os muitos problemas que emergiram é dificilmente possível para aqueles que recusam controles sobre os que querem ganhar dinheiro por quaisquer meios. As contradições actuais arruinam o sistema financeiro mundial, e se acreditarmos nas instituições e personalidades que estão na vanguarda da defesa do capitalismo, podemos muito bem estar à beira de uma crise séria.
15/Junho/2006
[*] Gabriel Kolko é um dos principais historiadores da guerra moderna. É autor do clássico Century of War: Politics, Conflicts and Society Since 1914 e Another Century of War? Também escreveu uma das melhores histórias da Guerra do Vietnam, Anatomy of a War: Vietnam, the US and the Modern Historical Experience. Seu último livro, The Age of War , foi publicado em Março de 2006. Contacto: kolko@... .
Notas
1- IMF Survey, March 13, 2006, p. 66. 2- Philip R. Lane and G. M. Milesi-Ferretti, "Examining Global Imbalances," Finance & Development, March 2006, pp. 38-41. 3- Roberto Zagha et al, "Rethinking Growth," Finance & Development, March 2006, p. 11. 4- Raghuram Rajan, in Finance & Development, September 2005, pp. 54, 58; IMF Survey, May 29, 2006, p. 147. 5- Garry J. Schinasi, Safeguarding Financial Stability: Theory and Practice, pp. 8, 14, 17. 6- Gillian Tett, "The dream machine," Financial Times
magazine, March 25/26, 2006, pp. 20-26. Also Financial Times, March 20, 2006. 7- Financial Times, May 31, 2006; June 8, 2006.
Reproducido también en NCeHu 576, 19 de junio de 2006
Entrevista al economista y geógrafo David Harvey,
profesor de la Universidad de Nueva York y autor de "El nuevo imperialismo"
La debilidad del gigante
Verónica Gago
Brecha
La economía estadounidense, acosada por sus nudos financieros de endeudamiento y su declive industrial, muestra la situación paradójica de un “gigante débil”. Esta es una de las hipótesis del prestigioso economista y geógrafo inglés David Harvey, profesor en la City University de Nueva York, y autor de El nuevo imperialismo, un libro en el que detalla cómo creció el poder de Estados Unidos y por qué pueden verse hoy –a pesar de su poderío militar– los signos de su debilidad política y económica. Desde Estados Unidos, Harvey explica por qué la “financierización” de la economía que consolidó el dominio de ese país es hoy el corazón de su inestabilidad.
—¿Dónde situaría la debilidad estadounidense? ¿Cómo se relaciona con la situación actual del dólar?
—Estados Unidos y sus corporaciones ya no dominan en el mundo de la producción. Un ejemplo: Estados Unidos tiene sólo dos de las diez industrias automotrices líderes mundiales y ambas –Ford y General Motors– están con profundas dificultades económicas. Estados Unidos continúa dominando en unos pocos sectores como el de los “agronegocios” –fuertemente subsidiado por el gobierno, violando las reglas de la omc– y algunas áreas de alta tecnología, principalmente vinculadas al complejo industrial militar. Dominó en el reino de las finanzas hasta mediados de los noventa pero ahora pide prestado a un ritmo de 2 mil millones de dólares por día principalmente a los bancos centrales del este asiático para financiar el endeudamiento del Estado y del consumo. El mercado estadounidense es todavía enorme y Estados Unidos suele utilizarlo como un arma en las negociaciones internacionales, pero muchos países están reorientando su comercio
hacia los mercados de China e India que se expanden velozmente.
—¿Es una situación ambivalente entonces?
—Esto no implica olvidar que Estados Unidos tiene todavía un voto dominante en organizaciones internacionales como el fmi, y Wall Street es aún un mediador mayor en los mercados de capital global (cada vez más manejando fondos extranjeros que pueden fácilmente diversificarse en otras partes). Pero si militarmente Estados Unidos domina el poder de destrucción de alta tecnología, estamos viendo que en Irak y Afganistán falla a la hora de dominar el terreno. Lo que quiero decir es que Estados Unidos es cada vez más un gigante débil y sus políticas se sitúan en el centro de la inestabilidad económica global. Un resultado de esto es la considerable volatilidad del valor del dólar. Pero no nos equivoquemos, la tendencia de largo plazo es a la baja y continuará en
este sentido a menos que Estados Unidos eleve sus tasas de interés internas tanto como para desatar una recesión dentro del país, y nadie quiere esto debido a sus consecuencias globales.
—¿Qué indica la oscilación de precios de las materias primas y del petróleo?
—La tendencia general para todos los precios de las materias primas, incluyendo el petróleo, ha sido a la suba en los años recientes debido fundamentalmente a la fuerte demanda de China e India. Esto ha beneficiado a los productores de materias primas: los altos precios del cobre han ayudado a Chile y las compras de soja de China favorecieron a Argentina. En el caso del petróleo, su precio fue afectado también por otros factores especiales: la guerra en Irak, las luchas políticas en Nigeria y los problemas con Irán. Pero las noticias positivas en las materias primas también han generado mucha actividad
especulativa con respecto a lo que pasará en el futuro, sus precios y las inversiones en los mercados emergentes de países productores de materias primas. Esta burbuja especulativa reventó hace poco provocando una caída repentina, pero ésta no es la tendencia a largo plazo. Si los precios continuarán subiendo o no depende de la fuerza de la demanda de países como India y China.
—Usted pone como ejemplo, a la hora de explicar su concepto de “acumulación por desposesión” con el que caracteriza la economía de las últimas décadas, a Argentina. ¿Por qué?
—Cuando uso el término “acumulación por desposesión” me refiero al comportamiento depredatorio por parte de las elites político-económicas que les permite aumentar sus beneficios a expensas de los pobres y las clases medias. Implica un núcleo de prácticas a favor del desmantelamiento de derechos a través de
privatizaciones, la abolición de programas sociales, la devaluación periódica de activos, etcétera. Encuentro muchas instancias de este proceso en la historia argentina reciente. La devaluación del peso en 2002 implicó efectivamente el robo de casi 12 mil millones de dólares de las cuentas de los argentinos. ¿Adónde fueron esos 12 mil millones de dólares? Quienes sacaron sus dólares antes de noviembre de 2001, los llevaron a Miami y los regresaron en marzo de 2002, triplicaron sus beneficios. ¿Es ahí donde fueron a parar esos 12 mil millones?
—Usted describe a los organismos internacionales como garantes de los centros de acumulación. ¿Cómo cree que impacta que países como Argentina y Brasil paguen su deuda con el FMI?
—El adelanto de pago de la deuda al fmi por parte de Brasil y Argentina tiene un doble significado. Por un lado, libera a los gobiernos de la
degradante supervisión reguladora del fmi, y por otro permite la exploración de una variedad de políticas económicas. Pero también simboliza la forma en que se culpa al fmi de los efectos políticos de la acumulación por desposesión cuando las elites político-económicas del país también tienen una gran responsabilidad por lo que ha pasado en los años de crisis. ¡Tal vez el próximo paso sea devolver a la gente los 12 mil millones que perdieron por la devaluación!
—¿Qué tiene de “nuevo” el imperialismo actual?
—El “nuevo” imperialismo creado a lo largo de los últimos treinta años combina un giro radical hacia el neoliberalismo de libre mercado –ahora resistido en toda América Latina pero cada vez más reforzado a través de instituciones internacionales como el fmi y la omc– con los métodos imperialistas tradicionales de Estados Unidos de quebrar todas las barreras
geográficas a favor de la movilidad del capital de las corporaciones de ese país a través de todo tipo de medios. La contradicción reside en que no son sólo las corporaciones estadounidenses las que pueden beneficiarse de un sistema de libre mercado, y que lo que comenzó siendo una estrategia para consolidar el dominio estadounidense se convierte ahora en un medio para socavarlo.
—¿Cuál es el rol de Venezuela en este escenario?
—Paradójicamente, la invasión de Bush a Irak y la consecuente suba del precio del petróleo ha ayudado a Chávez muchísimo, y él ha utilizado estos recursos monetarios para consolidar su poder internamente en Venezuela y para construir alianzas con los gobiernos progresistas de América Latina e incluso más allá de ellos. Chávez, por lo tanto, tiene un interés personal en mantener altos los precios del petróleo. Me agrada el hecho de que él
provea calefacción barata a la población empobrecida del Bronx de la ciudad de Nueva York.
David Harvey es uno de los más conocidos intelectuales de la izquierda estadounidense. Geógrafo y urbanista de prestigio mundial, dedicó su último libro al análisis de las nuevas formas que asume el imperialismo.
A supremacia do capital financeiro: Lucros record e ascensão do autoritarismo
James Petras
Não existe sector da economia dos EUA que, nos anos mais recentes, tenha conseguido igualar as maiores instituições financeiras, tanto em termos relativos como em absolutos. Para o primeiro trimestre de 2006, findo em Fevereiro, o banco Goldman Sachs (GS) superou o record
absoluto da Wall Street, anunciando lucros de 2,48 mil milhões de dólares (anualizando atingirão mais de 10 mil milhões de dólares). Os lucros foram superiores em 64% relativamente ao mesmo período do ano anterior (apesar de ter sido também um ano muito lucrativo). A rentabilidade dos recursos próprios alcançou 38,8%, o que representa também um valor record. A receita total bruta atingiu os 10,3 mil milhões de dólares. O GS obteve lucros recordes em cinco dos últimos nove trimestres ( Financial Times, FT, 15/03/2006, p 1).
Por outro lado, o banco Morgan Stanley declarou um aumento dos lucros de 17% totalizando 1,64 mil milhões de dólares também durante primeiro trimestre que terminou em Fevereiro de 2006. A receita total bruta aumentou 24%, enquanto no ano anterior esse aumento foi de 19,7%. O Lehman Brothers declarou um aumento de 24% dos lucros no primeiro trimestre de 2006 atingindo o seu valor record de 1,1 mil milhões de dólares. A receita total bruta
aumentou 17% chegando aos 4,5 mil milhões de dólares. O Bear Stearns (BS) juntou-se à dança dos milhões de Wall Street, declarando para o primeiro trimestre lucros de 514 milhões de dólares; os lucros foram superiores a 34% relativamente ao ano anterior. A nova receita total bruta do BS cresceram 19% atingindo 2,3 mil milhões, enquanto o retorno para os accionistas subiu 20,1% no primeiro trimestre de 2006. Os lucros combinados destes 4 bancos totalizam 5,73 mil milhões de dólares durante o trimestre Novembro de 2005 a Fevereiro de 2006, ou 22,9 mil milhões considerando o resultado anual – e isso não inclui os lucros de três dos cinco bancos de topo (Citigroup, JP Morgan e Merrill Lynch) cujos trimestres decorrem entre Janeiro a Março de 2006, dos quais são esperados igualmente lucros elevados, duplicando para além dos 12 mil milhões de dólares neste primeiro trimestre, e que atinjam um valor próximo de 50 mil milhões para o ano de 2006.
Nenhum outro sector da
economia pode ostentar taxas de retorno tão elevadas, nem mesmo qualquer uma das sete maiores empresas podem sequer igualar os lucros recordes. Os bancos conseguem os seus maiores lucros de sempre facilitando a concentração e centralização do capital (operações que designam por "fusões e aquisições"), cobrando taxas lucrativas de "assessoria" e subscrevendo os financiamentos das fusões e aquisições. A segunda fonte de lucros está na especulação em geral, inclusive sobre a negociação da dívida dos países e apostando nos mercados mundiais de valores, nomeadamente em energia onde o Goldman e o Morgan têm "feito uma fortuna nos últimos trimestres".
Enquanto nos EUA, os consumidores, os políticos demagogos e os activistas anti-guerra, culpam os países produtores de petróleo, esquecem completamente a responsabilidade que os grandes bancos especuladores têm na subida do preço do petróleo.
O aspecto político fundamental é que a força motriz do sector económico mais
importante nos EUA — os serviços — é o sector financeiro, precisamente aquele que menos se ocupa da actividade produtiva, ou seja, a produção de bens e serviços para a população. Pois para além dos seus elevados lucros, também as gratificações e salários astronómicos das suas elites dirigentes, assim como a sua acção para a concentração do capital, têm tido um forte efeito na crescente desigualdade salarial. Os custos que os bancos impõem às empresas pelos seus "serviços" tem contribuído para um endividamento que consequentemente tem originado despedimentos maciços e redução dos benefícios da segurança social, como parte das medidas de "assessoria" dos bancos envolvidos.
Além de desenvolverem as suas actividades especulativas, os bancos estão a ser cada vez mais importantes accionistas em sectores não-bancários. Eles têm desempenhado o principal papel na redução dos custos de mão-de-obra, e na redução investimentos de longo prazo na investigação e tecnologia, como
forma de maximizar os lucros a curto prazo. Por último, a fonte mais lucrativa e a mais dinâmica dos seus lucros especulativos, está na sua expansão no estrangeiro, particularmente na Europa e especialmente na Ásia. Por exemplo, o banco Lehman Brothers anunciou em meados de Março de 2006 uma " agressiva expansão na Ásia". Pois enquanto a receita total bruta, e em termos globais, foi superior a 17% como vimos, esse mesmo índice no estrangeiro como um todo, atingiu 30%, chegando aos 67% só na Ásia. David Goldfarb, director administrativo, declarou que aquela expansão para a Ásia era o "a prioridade número um" do Lehman. Todos os principais bancos têm, ou estão no processo de estabelecer, posições fortes no sector bancário da China e da Índia. O imperialismo financeiro está a tornar-se no principal instrumento da construção do império no século XXI.
Capital financeiro: Poder político e política económica
O capital
financeiro exerce uma enorme influência sobre a política económica governamental através da sua representação directa no organismo de controlo da política monetária dos EUA: o presidente da comissão executiva da Reserva Federal (FED). Os principais critérios exigidos ao presidente da Reserva Federal, são a "confiança", ligações estreitas e relações sólidas que o candidato deverá ter com Wall Street. Esses mesmos critérios são aplicados a todas as pessoas nomeadas para o Tesouro norte americano, para o Banco Mundial e para o Fundo Monetário Internacional. Durante muito tempo, o presidente do FED, Alan Greenspan, foi muito respeitado e louvado, não pelo seu péssimo desempenho económico, mas pelas suas políticas favoráveis aos banqueiros de Wall Street. Durante a presidência de Greenspan, a economia dos EUA foi desindustrializada, deu-se a acumulação de um enorme défice comercial e orçamental, e registaram-se duas bolhas especulativas (tecnologia de informação e caixas
económicas). Ele presidiu a uma economia que alcançou níveis de endividamento público sem precedentes – duplicaram em cinco anos. O apoio de Greenspan à redução de impostos para os ricos (rendimentos, benefícios de capital, etc) contribuiu para o enorme défice orçamental e para as crescentes desigualdades. A sua política de baixas taxas de juros alimentou as bolhas especulativas à custa do investimento produtivo. O seu apoio à desregulamentação do capital (denominada "globalização") conduziu à deslocalização para o estrangeiro das multinacionais norte americanas (muitas das quais exportam para os EUA) produzindo enormes défices comercial e da balança de pagamentos. Ainda que todas estas políticas tenham conduzido ao estado desastroso actual em que se encontra a economia nacional, elas criaram no entanto condições extraordinariamente favoráveis para a expansão do capital financeiro, no interior e no exterior dos EUA, e originaram a concentração e a centralização dos bancos
em dez grupos de controlo.
O impacto da Wall Street na economia e na estrutura social pode ser melhor ilustrado examinando a cidade de Nova York, o seu centro de operação. Em primeiro lugar a distribuição da propriedade na cidade de Nova York é uma das mais desiguais no mundo. Pouco mais de 1% da população controla mais de 80% dos recursos. Tal situação é equivalente ao que se passa na Guatemala ou no Brasil. Em segundo lugar, a Wall Street tem uma ligação muito estreita com o capital imobiliário em Nova York, e ambos foram instrumentos para o aumento dos valores da propriedade e do mercado de arrendamento, o que levou à destruição de mais de 500 mil postos de trabalho na industria durante as últimas três décadas. A maioria das propriedades industriais foram "redimensionadas" libertando áreas para serem utilizadas na edificação de espaços dedicados a escritórios para actividades relacionadas com o mundo financeiro e alojamentos para financeiros ricos. O senador
Schumer do estado de Nova York, um conhecido defensor da Wall Street, liderou nos EUA uma campanha para converter a China em bode expiatório, pela perda de postos de trabalho na indústria, ignorando o papel determinante do capital imobiliário, na destruição deliberada de imóveis do sector industrial na cidade de Nova York. Claro que a falência da indústria da cidade de Nova York não se deveu unicamente ao capital financeiro. Tanto os capitalistas locais do ramo dos têxteis como os sindicatos são parte responsável nesse processo ao apostar em mão-de-obra barata por forma a conseguir competir — uma aposta ineficaz face à China — em vez de actualizar tecnologicamente as unidades, computorizando o projecto e a produção, e de dedicar essa industria a produtos de alta qualidade. Os sindicatos (International Ladies Garment Workers Union (ILGWU, mais tarde denominado UNITE) apoiaram a estratégia de mão-de-obra barata dos patrões das fábricas de vestuário, permitindo de facto, mas
discretamente, que os salários caíssem abaixo do salário mínimo e que isso ficasse consignado nos acordos colectivos de trabalho. Sem dúvida que as diferenças étnicas e de classe entre os patrões judeus, com salários de seis dígitos, e os trabalhadores asiáticos e latinos mal pagos, assim como a posição habitual dos patrões relativamente às questões étnicas e de classe, facilitaram a aplicação destas políticas fracassadas: a perda de competitividade industrial e perda de postos de trabalho.
O capital financeiro e a guerra no Médio Oriente
O capital financeiro, até há pouco tempo, estava predominantemente nas mãos de protestantes brancos e judeus. Actualmente, a base étnica e religiosa de Wall Street alargou com a aquisição de bancos familiares pelas corporações financeiras. Apesar disso, entre a nova geração de ambiciosos especuladores, existe uma desproporção enorme de indivíduos de origem judaica, não necessariamente
religiosos nem envolvidos em actividades de comunidades judias ou israelitas para angariação de fundos ou com fins políticos. Não obstante, uma significativa minoria de proeminentes judeus banqueiros ou de milionários relacionados com a actividade imobiliária, está activa no financiamento ou na promoção da política israelita, quer directamente quer através dos lobbies mais importantes pró-Israel, como seja o AIPAC [1] e o presidente da principal organizações judaica. Estes lobbies estiveram na vanguarda da promoção da guerra contra o Iraque, do boicote ou do ataque militar contra o Irão e da limpeza étnica dos palestinianos. O peso político desta minoria de financeiros judeus ricos pró-Israel não tem oposição, quer seja de organizações de outros banqueiros judeus, quer de magnatas financeiros gentios [2] , muçulmanos ou hindus. Através do uso político da sua riqueza, da sua estratégica localização e do seu elevado status, esta minoria de financeiros politicamente activos, está em posição de estabelecer os parâmetros e as políticas do Médio Oriente, através do seu papel dominante no financiamento dos partidos políticos (especialmente o partido democrata), dos candidatos e dos congressistas.
Os críticos da guerra, judeus e gentios, esquecem deliberadamente o papel desempenhado pela minoria de judeus ricos e seus lobbies políticos na conformação da política dos EUA no Médio Oriente, e centram-se nas companhias petrolíferas dos EUA no estrangeiro ("Sangue por petróleo, não!"). Existem grandes evidências durante os últimos 15 anos de que:
1. As companhias petrolíferas não promoveram uma política de guerra;
2. As guerras prejudicaram os seus interesses, a
sua operação e os acordos com os regimes predominantemente árabes e islâmicos da região;
3. Os interesses das companhias petrolíferas têm sido sacrificados em favor do interesse do estado de Israel;
4. O poder do capital financeiro através dos lobbies pró-Israel, excede o das companhias petrolíferas em influenciar a política dos EUA no Médio Oriente. Uma investigação cuidadosa das publicações e actividades de lobbing da indústria petrolífera a dos lobbies pró-Israel durante a última década, revela uma quantidade enorme de documentação que demonstra que os lobbies judeus estiveram muito mais a favor da guerra do que a industria petrolífera. Além disso a documentação tornada publica demonstra que a indústria petrolífera estabeleceu um grande do nível de cooperação económica com todos os estados árabes, numa crescente integração dos mercados. Em contraste, as declarações públicas, as publicações e as actividades dos poderes economicamente mais poderosos e
influentes dos lobbies judeus pró-Israel, estiveram directamente implicados no incremento das hostilidades dos EUA com os países árabes, inclusive exercendo a máxima pressão em favor da guerra do Iraque, do boicote ou do ataque militar contra o Irão, e no apoio dos EUA aos assassinatos e limpeza étnica do povo palestino. A ilustração mais notável do poder judeu para moldar a política dos EUA no Médio Oriente contra o interesse do poder petrolífero, está demonstrado pela política que os EUA têm desenvolvido relativamente ao Irão. Como o Financial Times comentou: "As companhias petrolíferas internacionais estão a levar a cabo investimentos milionários em projectos no Irão, e a ficar preocupadas com o afrontamento diplomático (sic – ameaças económicas e militares dos EUA) acerca do programa nuclear do país" (FT 18/19 de Março, 2006 p.1). Apesar do facto de estarem em jogo milhões de dólares em petróleo, gás e contratos petroquímicos, o lobby pro-Israel influenciou
o Congresso para impedir todas as principais companhias petrolíferas dos EUA de investir no Irão. Através da sua campanha desenvolvida junto do Congresso e da Administração, o lobby Israel-judaico dos EUA criou um clima de guerra que agora se revela ser contra os interesses das principais companhias petrolíferas mundiais, e muitas outras como a BP, a companhia com sede no Reino Unido, a SASOL sul-africana, a Shell holandesa, a Total de França.
O mito de "guerra por petróleo" foi posto a circular por quase todos os principais intelectuais progressistas judeus, e foi papagueado pelos seus seguidores gentios, os quais estão, proibidos de, por palavras ou por acções, mencionar a sigla AIPAC em qualquer reunião pública ou manifesto. O poder da minoria dos financeiros judeus politicamente activos no lobby pro-Israel está a expandir-se para além da área da política externa de EUA, atingindo a vida cultural, a académica e a económica dos EUA. Três eventos principais que
ilustram isto vêm imediatamente à memória.
Na cidade de Nova York, uma importante produção de teatro sobre a vida de Rachael Corrie, uma voluntária humanitária americana assassinada nos territórios ocupados por um soldado das forças armadas israelenses conduzindo um buldozzer, foi cancelada devido à pressão judia e a ameaças financeiras. O teatro admitiu que o cancelamento teve a ver com as "sensibilidades" (e o bolso) que o assunto provocou no movimento "Israel-Primeiro". A defesa e o suporte da opinião minoritária do lobby pro-Israel em favor de uma agressão no Médio Oriente, estão agora a estender-se e a atingir um tal nível autoritário que ameaçam as liberdades básicas dos norte-americanos de se exprimirem de uma forma livre e aberta.
O segundo exemplo da tirania crescente da minoria pro-Israel sobre as nossas liberdades civis é a campanha virulenta empreendida por todas as principais publicações judias e organizações pro-Israel contra um ensaio bem
documentado escrito pelos professores Stephan Walt da Universidade de Harvard e John Mearsheimer da Universidade de Chicago [3] , no qual é desenvolvida uma crítica à influência do lobby judeu na política dos EUA para o Médio Oriente. Desde o jornal ultradireitista e ortodoxo Jewish Press (que reivindica ser o jornal judeu "independente" de maior tiragem nos EUA), até ao social-democrata Forward, e ao Jewish Weekly, todos eles lançaram uma campanha de propaganda de difamação junto das principais organizações judaicas ("os novos Protocolos de Sion", "anti-semitismo", "fontes de sítios nazis da internet..."), pressionando no sentido da sua expulsão do mundo académico. O autoritarismo judeu obteve já um êxito parcial. Os comunicados de imprensa foram publicados pelos meios de comunicação de massas sem permitirem que esses académicos, debaixo de ataque,
pudessem refutar o publicado. A Universidade de Harvard exigiu que a identificação da Harvard Kennedy School fosse retirada do documento. O patrocinador da cadeira doutoral (com o seu nome), ocupada pelo professor Stephan Walt como académico decano na Harvard Kennedy School, já não é mencionado no seu documento. O professor ulta-sionista Dershowitz e os seus fanáticos colegas de Harvard puseram em dúvida a sua qualificação moral e académica para o ensino. Tanto nos EUA como em França, está a ser preparada legislação para equiparar o anti-sionismo ao anti-semitismo, e para criminalizar como "delito de ódio" a livre expressão sobre as atrocidades israelenses, e qualquer crítica acerca do controle que o lobby exerce sobre a política dos EUA no Médio Oriente. Nos EUA, a legislação proposta poderia causar inclusivamente a negação do financiamento público de qualquer instituição académica onde sejam criticadas as políticas de Israel. Ainda não se constituiu nenhuma oposição
organizada no EUA, constituída por académicos judeus e gentios, ou mesmo jornalistas, contra este ataque à liberdade de expressão, ou pela defesa da integridade dos dois académicos críticos do lobby judeu. Não existe nenhum grupo de investidores ou financeiros judeus dispostos a financiar uma campanha de direitos civis em defesa das liberdades de expressão, académica ou artística, para contenção da elite minoritária financeira sionista. Negócio é negócio.
Alguns mitos e uma quantas conclusões: O capitalismo e a guerra
Para além do mito da "guerra por petróleo" existem alguns falsos conceitos fáceis de aceitar:
Mito 1: O domínio do capital financeiro conduz à guerra: Não existe nenhuma evidência de que o capital financeiro funcione melhor em tempo de guerra do que em tempo de paz. Na realidade a história recente demonstra que as "crises" provocam volatilidade dos mercados e alterações rápidas
que prejudicam as grandes "apostas" financeiras e outros benefícios. A maioria dos lucros financeiros provém de fusões e aquisições, com tendência para aumentar, devido à existência de condições para a implementação de mercados competitivos, e não devido à guerra. Os financeiros que apoiam a guerra fazem-no por razões ideológicas pessoais, pela sua identificação étnica, normalmente através de organizações de filiação étnica, e não através de associações financeiras. Desta maneira as grandes contribuições da minoria judaica financeira em favor dos lobbies sionistas partidários da guerra, têm menos que ver com a sua classe de filiação, e muito mais com a sua identificação com as organizações que defendem acima de tudo Israel.
Mito 2: Apesar dos financeiros serem a principal fonte de recursos dos belicosos lobbies pro-Israel e dos seus porta-vozes do Congresso, são no entanto uma minoria entre os banqueiros judeus cuja primeira preocupação consiste em
maximizar os ganhos dos seus bancos e consequentemente os seus lucros, envolvendo-se naturalmente em todo o tipo de actividades sociais, culturais e profissionais não judaicas. Mais de metade deles não se casam no seio da comunidade judaica.
Mito 3: Muitos escritores citam referendos que sugerem que a maioria dos judeus, tal como os restantes americanos, se opõem agora à guerra no Iraque. A questão no entanto é de que a maioria dos judeus não está na disposição de criticar os lobbies defensores da guerra, nem a importância que Israel teve no seu desencadeamento com a ocupação que tem exercido sobre a Palestina.
Mito 4: O lobby pro-Israel funciona como tantos outros lobbies. Ora o lobby judeu pro-Israel é único na capacidade de influencia que dispõe, dado que comanda uma vasta rede de organizações de base, para além dos 150 funcionários que trabalham a tempo inteiro em Washington de forma disciplinada e comprometida com uma
potência estrangeira, Israel. Acrescentamos a isto o facto de o lobby ser financiado por indivíduos muito ricos e por sectores altamente lucrativos e em crescimento (tais como o sector bancário). Em terceiro lugar acresce ainda a sua reputação estabelecida ao longo do tempo de exercer normalmente ameaças ou recompensas sobre os congressistas recalcitrantes ou leais, sobre executivos e fazedores de opinião, o que o converte num extraordinário e perigoso lobby.
Conclusão
O predomínio do capital financeiro e a influência que exerce sobre a política económica dos EUA, em grande parte negativas, tem tido consequências determinantes na economia dos EUA, especialmente no nosso nível de vida, nas contas externas e sobre o orçamento. Os mercados financeiros desregulados conduziram a um lucro record para Wall Street, mas conduziram também a uma série de bolhas especulativas que têm levado milhões de pequenos investidores à
falência.
A perda da competitividade da industria dos EUA é em grande parte o resultado da transferência de capital das inovações produtivas, que aumentam a competitividade, para actividades especulativas, e em muitas situações à custa da actual produção de bens e serviços. Actualmente os "Derivados" e os "Hedge funds" conseguem igualar a dimensão da economia dos EUA que se situa nos 12 mil milhões de dólares... espera-se que um colapso financeiro venha a acontecer. O capital financeiro na sua fase mais avançada dos "derivados", baseia-se em apostar sobre apostas já apostadas... o que tem aumentado tremendamente a probabilidade de existir um colapso económico, e tem originado o aumento do abismo que separa banqueiros e assalariados.
O poder político do capital financeiro tem sido exercido na esfera da política económica e nomeações de executivos; não tem estado envolvido directamente na formulação das políticas de guerra ou tirado benefícios disso. Porém o
capital financeiro tem sido compatível, apoiante e beneficiário das fortes ligações e relações que possui com a elite política militarista no Congresso e no Executivo. A relação é mutuamente suportada. O Governo desregula os mercados financeiros, baixa os impostos, corta os gastos sociais, designa para presidente da Reserva Federal amigos de Wall Street, e em troca o Wall Street apoia os partidários da guerra imperial no Governo e no Congresso.
Os bancos de investimentos têm estado profundamente envolvidos na reciclagem do petróleo árabe, tal como têm estado comprometidos com as fusões e aquisições que se verificaram em larga escala no Médio Oriente, enquanto uma minoria de financeiros judeus, mas muito militante, financiam os lobbies pro-Israel que têm vindo a pressionar os EUA no sentido de adoptar uma política bélica mais decidida contra os mundos árabe e islâmico.
A postura de Wall Street relativamente à deterioração das liberdades democráticas passou
da ambiguidade para o autoritarismo. Enquanto apoiam o Patriot Act do Governo dos EUA, opõem-se à realização do contrato de gestão de terminais portuários dos EUA por uma firma do Dubai. E enquanto uma minoria activa apoia a proibição da produção teatral baseada na vida de Rachael Corrie e financiam organizações pró-Israel, tentam expurgar académicos críticos de Israel, a maioria continua com uma atitude de indiferença.
A ascensão do autoritarismo e a lucrativa actividade financeira são compatíveis com o domínio do capital financeiro.
1- American-Israel Public Affairs Committee (AIPAC) 2- Termo com que a comunidade judaica denomina aqueles que não são judeus (N.T.) 3- http://www.lrb.co.uk/v28/n06/mear01_.html
FRANCIA / Beneficios históricos para el gran capital
“INTERNACIONALIZACION", PARASITISMO Y
ESTANCAMIENTO
Luis Oviedo
Las empresas francesas batieron en 2005 todos los récords de beneficios. Las cuarenta que integran el índice bursátil de París obtuvieron 84.000 millones de euros, un 27% más que en 2004. La petrolera Total y la farmacéutica Sanofi-Aventis encabezan la lista. Las empresas francesas derrotaron ampliamente, por el monto de sus ganancias, a todos sus competidores europeos. No se trata de una bonanza ocasional. Los beneficios de los grandes pulpos vienen creciendo sistemáticamente: los dividendos a los accionistas representan el 11% del ingreso nacional francés, una proporción que duplica la de una década atrás.
El 80% de estos beneficios proviene,
sin embargo, de sus operaciones en el exterior; el mercado interno representa apenas el 35% de sus operaciones (contra el 75% para las empresas norteamericanas y japonesas). Esto es la consecuencia de la violenta política de “deslocalizaciones”, que alega como causa el alto costo laboral en Francia, pero que tiene mucho que ver con las ventajas impositivas que se ofrecen en el exterior. Las actividades que requieren mano de obra calificada y un cierto desarrollo de infraestructura, se radicaron en España o en los países de Europa Oriental; las que no los requieren, se radicaron en China. El 70% de las exportaciones de las empresas francesas provienen de sus plantas en el extranjero.
Así, Francia sufre una aguda “desindustrialización” en el preciso momento en que la industria francesa obtiene beneficios históricos. La participación de la industria en el PBI ha caído del 28 al 23% en los últimos cinco años; la de los servicios creció del
46 al 54%.
Mientras tanto, la economía francesa se encuentra estacada. Francia apenas creció, en los últimos años, a un ritmo del 1% anual (por debajo del crecimiento demográfico). Como consecuencia de esta exportación de capitales en las ramas menos sofisticadas se refuerza, en la metrópoli, el peso del capital financiero y de los servicios industriales. La Bolsa de París aumenta su peso como distribuidora de las rentas del capital invertido en el exterior. No solamente refuerza la tendencia de los capitalistas a vivir como meros “cortadores de cupones”, sino que estos cupones son la base de operaciones financieras especulativas que sobrepasan varias veces los valores de los dividendos de la industria.
Más del 40% del capital de las empresas cotizantes en la Bolsa de París se encuentra en manos “no continentales”, es decir, de fondos de inversión y de pensión norteamericanos y británicos. Es decir que lo
que se presenta como “el capital francés” es una alianza entre el capital financiero francés y el internacional, bajo el arbitraje de la Bolsa de París y, en última instancia, del Estado francés.
“¿Esto es sostenible?", se pregunta un editorialista, en referencia a la desigualdad entre los mercados exteriores de los capitales franceses y su mercado interno. Christophe Lambert, presidente del grupo Publicis, no tiene dudas: “en última instancia, no podremos ser fuertes internacionalmente si el mercado interno es débil” (Financial Times, 27/1). Es decir que la burguesía imperialista francesa hace grandes negocios como testaferra del capital internacional que no es francés. Contradictoriamente, es sobre esta base que la burguesía de Francia y de los demás países de Europa pretende desarrollar una Unión Europea ‘autónoma’.
Lo más grave es que, precisamente cuando su autonomía se reduce, el estancamiento
económico en la metrópoli aviva la lucha de clases del proletariado metropolitano. Simultáneamente, su expansión confiscatoria hacia las naciones atrasadas acelera los procesos revolucionarios en la periferia.
Fuente: Prensa Obrera, N º 950, Buenos Aires, 22 de junio de 2006.
Geografía Económica
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Caída inevitable de los mercados emergentes/detergentes
Alfredo Jalife-Rahme
Mientras las autoridades monetarias de México padecen la catatonia esquizofrénicaen que las sumió el modelo neoliberal importado, prosigue ineluctable la caída del dolarcentrismo
Una
señal inequívoca del derrumbe del dolarcentrismo ha sido el lanzamiento sin mucho ruido de una moneda de oro que no circulaba desde 1933 en EU: el american buffalo, que vale 50 dólares y tiene una pureza de 24 kilates. Su cotización se basará en el valor del oro en el mercado con un "sobreprecio" de 12 por ciento (IHT,19/6/06).
Mientras las ultramontanas autoridades monetarias de México padecen la catatonia esquizofrénica en que las sumió el modelo neoliberal importado (lo cual no obsta para que sigan destruyendo la riqueza nacional y hayan bloqueado el lanzamiento de la moneda de plata), prosigue ineluctable la caída del dolarcentrismo, cuyos ajustes golpean sin piedad los mercados emergentes/detergentes en la periferia.
La muy anunciada pulverización bursátil (ver Bajo la Lupa, "Efecto Islandia: hacia la sequía crediticia global", 1/3/06 y 5/4/06) ha golpeado con singular alegría a los mercados
emergentes/detergentes. Al corte de caja del 14 de junio la evaporación de la riqueza en un solo mes en las bolsas globales había arrojado más de 2 millones de millones (trillones en anglosajón), es decir, casi tres veces el PIB de México (Reuters, 14/6/06).
Esto apenas empieza y septiembre se antoja muy turbulento cuando se asiente la tan temida estagnaflación, a juicio de Abhijit Chakrabortti, estratega de acciones bursátiles globales de JP Morgan Chase, quien comenta que "una de las razones por las cuales los mercados emergentes no han caído más es porque la gente aún no está vendiendo". Los inversionistas novatos ignoran que vender sus acciones en las fases turbulentas constituye una hazaña en los mercados emergentes/detergentes.
Stephen Roach (SR) , economista en jefe de Morgan Stanley (Global Economic Forum, 16/6/06) sopesa los riesgos inherentes a los mercados emergentes/detergentes: de su valor más alto del 8 de
mayo a la baja del 13 de junio, el índice bursátil del banco mostraba un desplome de 25 por ciento". Pese a tal corrección, "las acciones todavía valen el doble de los promedios prevalecientes en 2001-02", esto es, siguen infladísimas.
Los mercados emergentes /detergentes se beneficiaron de la inundación de liquidez global (propiciada por la sicótica irresponsabilidad de los bancos centrales del G-7) y la búsqueda de mayores rendimientos de los fondos. Ahora que el planeta entró a la doble crisis del dólar y la energía, que epitomiza la decadencia geopolítica de EU, sumada de la ciclicidad de la sequía de liquidez monetaria, los flujos bursátiles operan la graciosa huida de los mercados emergentes/detergentes para buscar refugio en lugares mas seguros.
SR recuerda la crisis de 1997-98 de los mercados asiáticos, que el entonces secretario del Tesoro clintoniano, Robert Rubin (anterior jerarca de Goldman Sachs durante un cuarto de siglo y hoy
segundo de a bordo de Citigroup) calificó como la "peor turbulencia de los mercados de capitales de los pasados 60 años".
En realidad, México había iniciado la crisis tres años antes que Asia como conejillo de Indias del laboratorio de experimentación neoliberal con el efecto tequila de 1994, cobijado por la dupla Salinas-Zedillo para entregar la banca mexicana e intentar ceder Pemex por la puerta trasera de la hipoteca fiscal. No es coincidencia que Goldman Sachs haya sido beneficiada con los Tesobonos del efecto tequila ni que luego Citigroup haya adquirido Banamex, subsidiado por el Fobaproa/IPAB, para cerrar el círculo mafioso de las finanzas del TLCAN que gratificaron a los "amigos de De la Madrid, Salinas, Zedillo y Fox" y que representan como nadie el ex vendedor de naranjas tuxpeño, Roberto Hernández Ramírez (dueño de la mal afamada Punta Pájaros) y el controvertido José Madariaga Lomelín (socio de Diego y Margarita Zavala), a quien se le
desplomó un avión en la antigua carretera de Toluca con carga muy comprometedora: ambos son promotores del voto masivo a favor de Calderón, anterior abogado de Inverlat-ScotiaBank, e hijo putativo del Fobaproa/IPAB, el mayor fraude en la historia de México, que ahora intenta imponer en forma espuria a su quinto presidente consecutivo.
A juicio de SR, la "próxima capitulación del consumidor estadunidense" afectará las exportaciones de países tan dependientes de la demanda de EU, entre quienes ninguno se compara en términos porcentuales a México (80 por ciento), lo cual es sumamente riesgoso, pese a las fanfarronerías de Fox, quien trivializa y personaliza asuntos estructurales. Advierte que los mercados emergentes/detergentes "han hecho muy poco en prepararse para lo que puede constituir la próxima crisis: la carestía de su principal fuente de demanda exterior: el consumidor estadunidense, fenómeno muy diferente al choque de 1997-98".
Mientras en México , el aldeano calderonista Guillermo Prieto Treviño, presidente de la Bolsa Mexicana de Valores, y el "señor Aguilar" -también calderonista y locuaz portavoz foxiano- compiten en ver quién expectora la peor barbaridad sobre la dinámica de los mercados, el muy serio centro de pensamiento con sede en Chicago, Reporte de Noticias de Poder e Interés (PINR, por sus siglas en inglés), en la pluma de Jephraim P. Gundzik (JG), analiza la "fuga de capitales" de Brasil (16/6/06), que puede ser extensiva a todos los mercados emergentes/detergentes, en particular a México, con o sin Fox y Calderón en medio". En 2005, muchos analistas (sic) e inversionistas se volvieron "muy complacientes con los riesgos de inversión en los mercados emergentes, donde sobresalió Brasil, gracias a una excesiva liquidez global", pese a su "creciente inestabilidad política y social y desaceleración económica". La "restricción de liquidez global ha hecho estallar su burbuja bursátil"
y conforme se deteriora su situación, "la fuga de capitales puede acelerarse, lo cual provocará una devaluación significativa".
JG evalúa la "inundación de inversiones de portafolios extranjeros" en Brasil (el más consentido de todos, antes de Turquía e India) que han pecado de "complacencia". Las estadísticas oficiales no señalan perturbación alguna porque "no capturan los enormes flujos" que forman parte de la "contabilidad invisible" (off-balance-sheet) que puede ser detectada en las transacciones de su comisión bursátil Comissao de Valores Mobiliarios. JG incursiona en los dédalos contables del Banco de Brasil y luego de demostrar en forma persuasiva la explosión de flujos foráneos de corte especulativo (mediante swaps) con altas tasas de interés a corto plazo, conjetura que "las acciones totales de los portafolios de inversiones foráneas en Brasil al cierre de abril de 2006 probablemente sean de 100 mil millones de dólares o cerca de
12 por ciento de su PIB", frente a los cuales sus reservas por 57 mil millones de dólares son insuficientes para paliar una fuga de capitales.
¿Cómo andarán las cosas en el México neoliberal? Pues Ortiz Martínez, el poco agraciado "gobernador" del Banco de México, parece haber dado la pauta cuando en su entrevista muy defensiva a The Financial Times (8/5/06), entró en trance nervioso diaforético al habérsele insinuado la repetición de "otro 1994".
Fuente: diario La Jornada, de México D.F., México; 21 de junio de 2006.
Geografía Económica
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Indicadores do BC se chocam com medidas fragilizantes
Henrique Meirelles, presidente do BC, exibe com orgulho a redução da dívida em moeda alheia. Enquanto isso, o próprio governo patrocina iniciativas que podem expor a economia aos humores do mercado internacional.
BRASÍLIA - No fim de maio, houve um princípio de histeria entre os senhores do mercado, por conta de incertezas sobre o futuro da economia americana. O medo dos especuladores chamuscou o Brasil. Em apenas sete dias, o dólar subiu 11%, em conseqüência da fuga de capital do país. Temeu-se pela contaminação dos preços e por uma recaída conservadora do Banco Central (BC) na fixação dos juros. Hoje, o câmbio voltou à normalidade, os dólares abortaram a debandada, mas o episódio deixou a impressão que o Brasil ainda está frágil diante da especulação, embora tenha reduzido sua vulnerabilidade externa (risco de ser afetado por crises em outros países ou nos
mercados globais).
Na última terça-feira (20), o presidente do Banco Central (BC), Henrique Meirelles, esforçou-se para provar à Comissão Mista de Orçamento do Congresso, em uma audiência pública, que a vulnerabilidade diminuiu. Os principais dados exibidos diziam respeito ao “pecado original”, como definiu Meirelles: endividar-se na moeda alheia. Em 2002, o Brasil precisava de 32 meses de exportações para quitar a dívida externa. No ano passado, bastavam 11 meses. No mesmo período, o peso da dívida sobre o Produto Interno Bruto (PIB) caiu de 35,9% para 12,8%. Em 2005, as reservas de dólares do BC eram suficientes para pagar mais da metade da dívida, enquanto que, em 2002, pagavam 10%. “Todos os indicadores relativos à solvência externa melhoraram”, afirmou o banqueiro.
Veterano da comissão de orçamento, deputado Sérgio Miranda (PDT-MG) reconheceu que as estatísticas evidenciavam uma alteração positiva das contas externas. Mas disse que a situação ainda é
desconfortável, inclusive porque o próprio governo patrocina iniciativas que alimentam a vulnerabilidade.
No ano passado, por exemplo, o Conselho Monetário Nacional (CMN) decidiu facilitar as remessas de recursos para o exterior e dar mais prazo para que os exportadores tragam os dólares no exterior. Este ano, o Ministério da Fazenda isentou de imposto de renda o estrangeiro que compra título público. Agora, o governo estuda autorizar os exportadores a manter dólares no exterior para pagar dívidas que têm lá. Todas as medidas fragilizam o País no enfrentamento do mercado. “Os indicadores externos evoluíram, mas nós continuamos vulneráveis. É que o caráter da vulnerabilidade mudou. Não é à toa que temos um dos maiores riscos do mundo”, afirmou Miranda.
No governo Fernando Henrique Cardoso, a vulnerabilidade revelou-se nas transações correntes (comerciais e de serviços) com o exterior. Entre 1995 e 2002, houve prejuízo de US$ 186 bilhões, fruto de importações
elevadas e exportações exíguas, ambas em função do dólar barato. De 2003 a 2005, o Brasil teve nesta mesma operação um lucro de US$ 30 bilhões, produzido sobretudo por exportações recordes.
Como ponderou Sérgio Miranda, a vulnerabilidade que antes era comercial, parece se deslocar para a conta de capitais, que registra as transações financeiras, não comerciais, de um país com o exterior. Essa é, aliás, a conclusão de um recente estudo da economista Maryze Fahri, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), intitulado “O impacto dos ciclos de liquidez no Brasil: mercados financeiros, taxa de câmbio, preços e política monetária”, publicado em maio.
“Nos últimos anos, o Brasil reduziu de alguns graus a vulnerabilidade externa proveniente de sua balança de pagamentos, mas um novo flanco de vulnerabilidade pode estar surgindo da combinação entre o elevado grau de abertura de seus mercados de ativos e derivativos financeiros e o grande volume de apostas dos
investidores estrangeiros”, afirmou o estudo.
Para Maryze, a exagerada exposição financeira do País aos humores do estrangeiro, aliada ao regime de câmbio flutuante (o mercado define a cotação do dólar), pode causar estragos, pois atinge o valor da moeda americana, “variável crucial da economia brasileira”. Dólar galopante significa inflação e, portanto, juros altos do Banco Central. Se o mercado precisar de dólar caro para ganhar dinheiro, ou se fugir descontroladamente do País num processo que resulte em elevação do câmbio, não há alternativa além de sacrificar a economia brasileira com juro. Foi o que ocorreu, por exemplo, em 2002, durante as eleições.
Daí a necessidade de impedir o entra e sai desenfreado e sem controle de dólares no Brasil, segundo Maryze. Ela defendeu a retomada das restrições impostas a investimentos de estrangeiros em derivativos, uma operação tipicamente especulativa, em que não se negocia um bem material, mas um valor – o valor de
uma ação, por exemplo. Até 2000, havia restrições. A economista também sugeriu taxar com Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) os estrangeiros que lidam com derivativos, desestimulando a atividade.
Segundo a acadêmica, foi nos negócios com derivativos que a entrada de estrangeiros no Brasil, atraídos por juros altos, mais se evidenciaram. O ingresso de capital externo foi uma das causas mais importantes para a acentuada queda do dólar desde o fim do ano passado. E, ao baratear o câmbio, o livre fluxo de capitais também prejudica o País: encarece as exportações, essenciais para o equilíbrio das transações brasileiras com o exterior nos últimos anos. É o que assinala estudo dos economistas Fernando Ferrari Filho e Luiz Fernando de Paula, pesquisadores do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).
“O equilíbrio no balanço de pagamentos, em particular das contas de transações correntes, requer a manutenção de um superávit
significativo na balança comercial, para o que é necessária a manutenção de uma taxa de câmbio subvalorizada, isto é, orientada sempre que possível para o ajustamento da conta corrente e para a diminuição da dependência dos capitais externos”, disse o estudo “Liberalização financeira e performance econômica: a experiência recente no Bric [sigla que identifica Brasil, Rússia, Índia e China]”, divulgado em março.
No texto, os economistas apontam uma situação “preocupante” derivada da excessiva exposição do país às vontades do mercado. “Além de a vulnerabilidade externa estar ainda em patamar elevado (mas não mais crítico), o peso da dívida de curto prazo no total da dívida externa, a existência de uma conta de capital aberta e as dúvidas quanto à trajetória futura da balança comercial face ao câmbio apreciado fazem com que o futuro da economia brasileira seja ainda preocupante”.
Ferrari Filho e Fernando de Paulo defendem que o governo: 1) troque o regime de
câmbio flutuante pelo “administrado”, em que persegue patamares considerados adequados para o dólar; 2) aumente as reservas de dólares do BC, para que o País tenha mais condições de enfrentar especuladores; e 3) controle do fluxo de capitais, reforçando, por exemplo, a tributação. Este conjunto de medidas garantiria um câmbio apropriado para o País fechar suas contas externas.
Na audiência pública no Congresso, Henrique Meirelles criticou todo tipo de proposta de controle de câmbio. “O Brasil, no passado, já teve um controle de câmbio muito rígido. Aquilo não foi uma experiência de sucesso. Controle faz quem está vulnerável. É como um paciente ir para a UTI [Unidade de Terapia Intensiva]. Não é uma situação desejável estar na UTI”, afirmou o banqueiro.
O economista da Universidade de São Paulo (USP) de Ribeirão Preto Alberto Borges Matias, sócio da consultoria AMB, especializada em mercado financeiro, tem posição diferente de Meirelles e também sugere algum
tipo de controle, principalmente dos capitais especulativos.
Para Borges Matias, acomodar capitais especulativos na economia afeta o País porque implica taxas de juros mais altas pagas pelo governo na hora de vender títulos públicos. Motivo: a percepção dos aplicadores de que, se o país depende de tanto dinheiro externo, é porque está vulnerável. Essa percepção se traduz no chamado risco-país, uma espécie de nota que os financistas do mundo todo atribuem aos países e servem de referência para a taxa de juro.
“Fluxos voláteis aumentam o risco dos países”, afirmou Matias no estudo “Estudos técnicos sobre as taxas de juros vigente no Brasil: uma análise das hipóteses convencionais”, divulgado em abril. “No tocante à entrada de capital especulativo, este só aumenta a instabilidade cambial e financeira, portanto, não deveria ser incentivado, mesmo sob crise, pois as conseqüências de longo prazo são avassaladoras, com enorme comprometimento de recursos. Quanto à
saída, a evasão de capital especulativo deveria ser administrada”.
Mas, ao contrário de tentar reduzir o fluxo de divisas e, com isso, proteger o País, o governo segue a cartilha ortodoxa de interesse dos especuladores. Neste momento, discute-se autorizar os exportadores a pagar lá fora, sem a necessidade de trazer dólares ao país. O ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio (MDIC), Luiz Fernando Furlan, apóia a idéia e o novo diretor de Assuntos Internacionais, Paulo Vieira da Cunha, também. “O fim da cobertura cambial é um elemento importante. Torna mais ágeis e eficientes as trocas [dos exportadores]”, declarou Vieira da Cunha nesta quarta-feira (21).
O ministro da Fazenda, Guido Mantega, tem resistido à idéia, mas ela ainda não está descartada. Se for implementada, vai diminuir o acesso do Brasil aos dólares gerados pelo comércio exterior e, em conseqüência, a possibilidade de reforçar as reservas do BC. Além disso, atrapalharia o governo caso
haja uma crise que o obrigue a providenciar dólares com urgência parar honrar compromissos.
Geografía Económica
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A teoria do desenvolvimento, um ramo da ciência económica que tenta mostrar como as economias pobres do mundo poderiam desenvolver-se, teve a sua origem nas décadas de 1940 e
1950. Uma das suas ideias iniciais foi a de que as economias dos países menos desenvolvidos estavam presas a um ciclo de pobreza e precisavam de um "forte empurrão" (Big Push) para se desenvolverem. Este empurrão era visto como um grande impulso no investimento, auxiliado por gastos do estado na área social e das infraestruturas, pelo investimento do capital privado estrangeiro assim como pela ajuda de governos dos países desenvolvidos.
Grande parte da teoria do desenvolvimento era expressa de forma narrativa; tratava-se de uma das áreas da ciência económica menos formalizadas e menos modeladas matematicamente. Por estas razões (e outras ainda, como se verá), a teoria do desenvolvimento caiu em desfavor menos de uma geração após a sua emergência. A ciência económica dominante considerava-se uma "ciência" rigorosa, e para os seus economistas tudo aquilo que não era rigorosamente matemático simplesmente não era ciência económica.
Entretanto, no fim dos
anos 80 a teoria do desenvolvimento retomou a sua ascensão, graças à sua reformulação em termos mais "científicos". De acordo com alguns economistas, a morte da teoria do desenvolvimento teria sido um mal dispensável — não fora a falta de rigor dos seus fundadores. Paul Krugman, reconhecido economista neoclássico e colunista do New York Times, colocava a questão nos seguintes termos: "Quando vislumbro a representação que Murphy e outros [cujo artigo ressuscitou a teoria do desenvolvimento] possuem da ideia do Grande Empurrão, debato-me com a questão de se o longo desmoronamento da teoria do desenvolvimento teria sido efectivamente necessário. O modelo é simples: três páginas, duas equações e um diagrama." [1] É assim que Krugman sintetiza a "ascensão e queda da economia do desenvolvimento," meio século de história do
pensamento sobre o desenvolvimento, entre a formulação inicial do "grande empurrão" por Paul Rosenstein-Rodan em 1943 e a sua formalização por Kevin M. Murphy, Andrei Schleifer e Robert W. Vishny em 1989.
Devido à ausência de rigor e de acordo com esta versão, os "dias de glória da 'teoria do desenvolvimento'" durariam apenas quinze anos, finalizando com a publicação em 1958 de " The Strategy of Economic Development" da autoria de Albert Hirschman. De acordo com Krugman, a teoria do desenvolvimento era, até à sua reformulação, não mais do que uma literatura de aproximação, com "alguma prosa excepcional, algumas intuições inspiradoras", mas incapaz de modelar matematicamente as suas premissas mais básicas. Por esta razão, veio a tornar-se num "beco sem saída intelectual." Foi apenas nos anos 80 que a economia do desenvolvimento experimentou um renascimento e alcançou estatuto científico, quando Krugman e outros conseguiram integrar conceitos tais como os de
rendimentos crescentes ou externalidades (designados em economia por "não-convexidades") no paradigma neoclássico. [2]
A tese do desaparecimento-ressurgimento da teoria do desenvolvimento é hoje partilhada por uma larga maioria de especialistas — não apenas pelos neoclássicos mais intransigentes, para os quais não existe ciência fora da tradição e, portanto, nenhum debate viável sobre o desenvolvimento que não inclua uma referência a modelos convencionais, mas igualmente partilhada e em não pouco número por economistas menos ortodoxos. O presente artigo, contudo, opõe-se à interpretação vigente da economia do desenvolvimento. É sua intenção demonstrar como a economia neoclássica, uma vez absorvido o desenvolvimento como um dos seus componentes, é hoje prisioneira de uma crise profunda, e como a preponderância da tradição neste
campo teórico é inseparável da hegemonia das políticas de desenvolvimento neoliberais .
NEOLIBERALISMO CONTRA O DESENVOLVIMENTO
A teoria do desenvolvimento nasceu nas décadas de 40 e 50 de uma dupla diferenciação: (1) no que diz respeito à economia neoclássica convencional, pela rejeição dos dogmas relativos aos benefícios sistemáticos imputáveis ao comércio e ás virtudes do mercado; e (2) no que respeita à economia de feição keynesiana (hegemónica aproximadamente entre 1945 e 1975), através da crítica à inadequação da análise do desemprego e crescimento de curto-prazo, quando aplicada aos problemas estruturais encontrados nos países em desenvolvimento.
É pois evidente a presença de um elemento heterodoxo na própria génese da economia do desenvolvimento. E não é de estranhar que esta nova abordagem viesse a encorajar nos mais radicalmente heterodoxos a inclusão do tema do desenvolvimento nas suas análises, tais
como marxistas e estruturalistas, e que estes por sua vez viessem a conceber a ciência económica do planeamento, o cepalismo estrutural, [3] a teoria da dependência, assim como as teorias do sistema capitalista mundial. Estas evoluções na história do pensamento estão intimamente relacionadas com aquelas que se deram na própria história dos factos: as grandes revoluções do século XX (Rússia, China, Vietname e Cuba), os movimentos de libertação nacional (Índia, o mundo árabe e a África) ou mesmo as necessidades de reconstrução do pós-guerra (o plano Marshall no Ocidente). O aparecimento de autores vindos do Sul, tais como Raul Prebisch e Celso Furtado na América Latina, P. C. Mahalanobis na Ásia e Samir Amin em África, mostrou-nos a todos que a teoria do desenvolvimento, nascida na Europa, tal como a economia política antes desta, não
constituía um monopólio do Norte. A economia do desenvolvimento emergia assim no espaço intelectual subsequente ás transformações sociais proporcionadas pela pressão das lutas populares a nível planetário, das tentativas mais ou menos radicais de emancipação relativamente à ordem mundial. O estado era colocado no coração de todas as estratégias de transformação estrutural, pugnando pela autonomia, por levar mais longe quanto possível a convergência das condições de acumulação: planeamento e industrialização no Leste e nos países socialistas a Sul ou, no resto do mundo, o modelo desenvolvimentista dos nacionalismos burgueses. Bem entendido, o único país não-europeu de entre todo o bloco capitalista a sofrer um crescimento económico brusco, o Japão, mostrava o exemplo de um processo de industrialização totalmente dirigido pelo estado (o período Meiji). É esta a área, produto dos factos e das ideias, que foi retomada nos anos 70 e 80 não só pelo neoliberalismo vigente mas
também pela doutrina neoclássica reinante na teoria económica.
O neoliberalismo traduz-se no regresso da finança ao poder, isto é, dos detentores de capital mais poderosos no planeta (em larga medida, norte-americanos). Tudo principiou no final dos anos 70 — precisamente por altura da subida das taxas de juro nos Estados Unidos (1979), agravada que foi por sua vez a crise na dívida do terceiro-mundo. Este regresso teve lugar sobre as ruínas da ordem mundial edificada imediatamente após a II Grande Guerra (por exemplo, as taxas de câmbio fixas). O declínio das margens de lucro nos países do centro agravava-se no final dos anos 60, para na década seguinte ampliar-se a uma crise aberta do capitalismo, caracterizada pela oscilação incerta de todo o sistema no caos monetário e financeiro, o aumento exponencial das desigualdades e o desemprego em massa. A conjugação da crítica ao modelo keynesiano de regulação capitalista no Norte (decorrente da estagflação, o aumento
simultâneo dos preços e do desemprego), a falência dos projectos nacionalistas burgueses de desenvolvimento no Sul (a crise da dívida nos anos 80) e o colapso do bloco Soviético ao Leste (no início dos anos 90), motivou uma alteração profunda nas relações capital-trabalho à escala planetária.
Dificilmente coincidentes com os da corrente dominante os caminhos trilhados pelos seus precursores e uma vez enfraquecidas as forças sociais que a sustentavam, a teoria do desenvolvimento no período pós-guerra só podia ser vista pela ortodoxia neoclássica como uma região estagnada, marcada pelo declínio científico. A falência das políticas de desenvolvimento, em particular das indústrias de substituição, tornou-se óbvia a partir dos anos 80 em pleno advento do neoliberalismo.
É no contexto da debandada de trabalhadores e populações da periferia que a ofensiva da ideologia neoliberal na gestão da crise expansionista do capital deve ser entendida. Os seus dogmas são bem
conhecidos. Ao nível nacional, trata-se de prosseguir uma estratégia hostil contra o estado através da: (1) deformação da estrutura de controlo sobre o capital de modo a beneficiar os sectores privados, (2) redução da despesa pública nas áreas sociais e (3) imposição da austeridade salarial como medida prioritária na luta contra a inflação. Ao nível global, os objectivos são os de perpetuar a supremacia do dólar norte-americano sobre o sistema monetário internacional e promover o comércio livre, desarticulando o proteccionismo e liberalizando as transferências de capital. A difusão desta estratégia desreguladora à escala planetária é uma das funções das principais organizações internacionais (em primeiro lugar, o Fundo Monetário Internacional [FMI], o Banco Mundial e a Organização Mundial do Comércio [OMC]), mas também das instituições monetárias e financeiras locais (os bancos centrais "independentes"). A gestão de todo este edifício é assim feita convergir nos Estados
Unidos, cujo poderio militar assegura por sua vez o funcionamento global do sistema.
Como consequência, qualquer ideia de desenvolvimento extrínseca ao capitalismo neoliberal é interdita, como o é qualquer possibilidade de autonomia da teoria do desenvolvimento enquanto disciplina relativamente ao corpus neoclássico dominante. Desde o início dos anos 90, certas organizações internacionais e em particular o FMI, têm vindo a consagrar copiosas recomendações aos "países clientes" no sentido de uma "boa governação." [4] Esta organização procura promover a boa governação em "todos os aspectos respeitantes à condução da vida pública," procurando tornar mais transparentes as decisões políticas, disponibilizando o máximo de informação respeitante ás finanças públicas e aos procedimentos de auditoria, ou mais recentemente,
"combater o financiamento do terrorismo." [5] O que está verdadeiramente em causa é o afeiçoar das políticas nacionais por forma a criar nestas instituições um ambiente mais favorável a uma abertura do Sul aos mercados globalizados.
Como reflexo das necessidades da finança no contexto do neoliberalismo, a boa governação pode muito bem ser vista como uma inversão daquilo que poderia ser objectivamente designado por "bom governo." O objectivo não é tanto a promoção da participação democrática dos indivíduos nos processos de decisão, ou o respeito pelo seu direito ao desenvolvimento, mas antes a desregulamentação dos mercados patrocinada pelo estado, isto é, uma nova regulamentação levada a cabo pelas forças dominantes do capital. Confrontada com a inépcia do neoliberalismo na gestão da crise ou a recusa do FMI, Banco Mundial e
OMC em reconhecer a urgência de se procurarem alternativas que imponham limites dinâmicos à expansão do capital, independentes dos seus anseios pelo máximo lucro, a boa governação nada mais pode fazer do que intensificar o criticismo relativamente aos casos de insolvência estatal. Os funcionários públicos não são apenas acusados de "caça aos rendimentos"; já se começa a pôr em causa a sua capacidade para gerir a coisa pública, em particular no Sul endividado, a sua capacidade para erguer e conservar instituições "decentes" não tanto para as pessoas mas mais propriamente para o capital. Assiste uma retórica moralizante acerca da responsabilidade dos estados (aos quais e tão só a estes são imputados todos os erros) assim como os discursos sobre a irresponsabilidade dos seus agentes (quando não é a sua dignidade mais básica que é questionada), mas esta não mais faz do que legitimar aquilo que poderíamos designar como as opções "ultraliberais" de abandono daquilo que seriam as
prerrogativas normais do estado, chegando mesmo nalguns casos ao ponto de subcontratar a defesa nacional, substituir a moeda nacional por moeda estrangeira ou privatizar o processo de colecta dos impostos.
Somos assim confrontados com um paradoxo gritante, inerente à "boa governação": as organizações internacionais reclamam dos governos nacionais que estes adoptem políticas económicas neoliberais impostas do exterior, enquanto os mercados financeiros globalizados despem os estados da sua soberania e o núcleo do capital estrangeiro insinua-se na estrutura capitalista dos países periféricos. Administrando os aparelhos de estado dos países do sul directamente a partir do centro do sistema mundial de dominação, as organizações internacionais neutralizam o poder destes estados desnudando-os de todas as prerrogativas, reduzindo ao mínimo a sua margem de manobra. Não será este, afinal, o segredo da governação exemplar? A que democracia podem as autoridades públicas
pretender aderir quando o exercício da soberania nacional é limitado à liberalização dos mercados, ao pagamento de dividendos sobre o investimento estrangeiro, à liquidação redobrada da dívida externa?
A ABSORÇÃO DO DESENVOLVIMENTO PELA ECONOMIA NEOCLÁSSICA
Durante mais de vinte anos e quase por si só, os neoclássicos dominaram a teoria económica, incluindo a teoria do desenvolvimento. É sua ambição a de analisar todos os factos socio-económicos a partir do comportamento maximizado dos indivíduos. O âmago da economia neoclássica e fonte da sua exibição enquanto ciência baseia-se na teoria do equilíbrio geral. Esta teoria defende que, dado um determinado mercado e sempre que um comprador e um vendedor agem em seu próprio interesse, a competição que daí advém produz um conjunto único de preços e quantidades geradoras por sua vez de uma equivalência perfeita entre a oferta e a procura de serviços e mercadorias, incluindo
todo e qualquer esforço utilizado na produção. Defende ainda esta teoria que nunca o bem-estar social será maior uma vez atingido este conjunto "equilibrado" de preços e quantidades, no sentido de que nenhum indivíduo poderá alguma vez obter ganhos sem que para isso alguém os perca.
Fortemente matemática e normativa, alicerçada num conjunto absurdo de postulados pouco realistas, a teoria do equilíbrio geral é a pedra de toque de toda a microeconomia convencional. O principal objectivo consistiria em determinar a forma pela qual as escolhas dos diversos agentes (compradores e vendedores) podem ser coordenadas de forma a integrar numa só estrutura o conjunto das interdependências respeitantes ás transacções que têm lugar entre si. Assumida como livre, racional e impulsionada pelo interesse pessoal, estas decisões dependem não só das características próprias dos agentes (factores de produção acumulados, gostos e preferências, conjecturas e funções de produção), assim
como da forma de organização social na qual estas relações têm lugar.
O exemplo acabado seria uma estrutura de mercado na qual existisse uma situação de competição perfeita o que a acontecer permitiria ao modelo fornecer, dados os postulados de Arrow-Debreu (assim designados depois de Kenneth Arrow e Gérard Debreu, ambos laureados com o Prémio Nobel), [6] uma solução de equilíbrio na qual a disposição das escolhas individuais e a distribuição dos recursos "optimizada" seria possível (no sentido descrito mais abaixo, elaborado originalmente pelo economista Vilfredo Pareto).
Ainda que o modelo procure processar informação respeitante a uma grande quantidade de indivíduos, as dificuldades técnicas encontradas pelos neoclássicos faz com que estes venham a desenvolvê-lo na maior parte dos casos com um número muito restrito
de agentes, na assumpção de que estes seriam "representativos" da sua totalidade. Em casos extremos, mas não raras vezes visto que se permitem a simplificações matemáticas, é considerado apenas um único agente; é assim assumido que a análise pode ser exercitada em toda a sua plenitude e com total sucesso no caso de um agente apenas, por exemplo, Robinson Crusoe na sua ilha. Sendo que a teoria do equilíbrio geral representa uma referência teórica decisiva em todos os modelos neoclássicos, o seu conhecimento é também crucial para os autores críticos heterodoxos.
A partir de 1970, a teoria do equilíbrio geral tem vindo a ser amplamente aplicada na área do desenvolvimento, graças à utilização de modelos computacionais. Estes modelos calculam as variáveis de equilíbrio na economia com base em comportamentos individuais, como é o caso de efeitos de preço e quantidade devidas a alterações nos parâmetros relativos à política económica, tais como impostos e subsídios. Por
exemplo, estabelecesse uma nação um salário mínimo para os trabalhadores, estaríamos nós perante um aumento no desemprego? Efectivamente, é o próprio Banco Mundial o primeiro a empregar estes instrumentos como forma a justificar teoricamente e tornar politicamente credíveis as medidas anti-sociais de ajustamento estrutural impostas ao Sul, contribuindo assim para a sua difusão no seio das esferas académicas.
O próprio estudo do papel das instituições no crescimento (tais como os sindicatos, o estado, as forças armadas, as organizações religiosas, as leis e tudo o mais) levou os teóricos neoclássicos a tomar em consideração assuntos relativos ao desenvolvimento. De acordo com a teoria da competição perfeita mais convencional e durante um longo período, os coeficientes relativos ás instituições eram tidos como exógenos, isto é, eram encarados como dados adquiridos e portanto não havia estudo económico que lhes pudesse ser aplicado. Era assim excluída da investigação
económica a análise das instituições, deixada como objecto de estudo para outras ciências sociais já mais habituadas a lidar com o colectivo como categoria, tais como a sociologia e as ciências políticas. Mais recentemente contudo, os economistas têm vindo a incluir as instituições no interior dos seus modelos de equilíbrio geral, aplicando o género de análise económica mais convencional ao estudo dos seus comportamentos. Mas por forma a conseguir tal façanha, os economistas clássicos simplesmente assumem que o comportamento individual maximizado pode explicar unicamente e por si só aquilo que fazem e aquilo que são as próprias instituições. Por exemplo, quando George Akerlof utilizou a teoria dos jogos para estudar as castas indianas, começou por adoptar a ideia de que existe um modelo convencional do comportamento económico passível de ser aplicado a qualquer época e a qualquer situação, nomeadamente, o modelo de competição perfeita e equilíbrio geral de Arrow-Debreu.
[7] Para favorecer o argumento, um economista assume mesmo que "no princípio" existiam os mercados. [8]
Em macroeconomia, a economia do desenvolvimento tem sido em larga medida influenciada pela teoria do crescimento neoclássica, designada por "crescimento endógeno". Estes modelos (por exemplo, os de Paul Romer e Robert Lucas) procuram explicar o crescimento do produto interno bruto pelo próprio processo de acumulação ou, internamente (i.e., atendendo aos factores de produção), sem recorrer a mecanismos exógenos como é o caso do famoso modelo de Solow de 1956. A essência deste modelo reside na ideia de que, havendo total confiança nos mercados competitivos, o crescimento de qualquer
economia em estado estacionário, rica ou pobre, deverá ocorrer mais tarde ou mais cedo. Desnecessário pois o tal "Grande Empurrão", apenas e tão só uma estrutura institucional propiciadora da competição entre os interesses privados dos agentes. Uma das previsões da nova teoria de crescimento endógeno reporta-se à inexistência de convergência no crescimento entre os vários países, em particular a conclusão chave de que nas economias de mercado o estado deve intervir por forma a acelerar a acumulação de capital, o que significa crescimento a longo prazo. Graças a estes modelos, a posição dominante no que respeita à modelação do crescimento a longo prazo é assim ocupada pelos teóricos neoclássicos. Pelo contrário, exasperados com a tese anti-estado neoliberal, a grande maioria dos economistas heterodoxos insurge-se precisamente contra os encantos mais recentes da teoria neoclássica.
A CRISE DA ECONOMIA NEOCLÁSSICA
A
economia neoclássica convencional encontra assim os economistas heterodoxos numa posição defensiva, atacando-os em todas as frentes, na micro e macroeconomia, mas também no que respeita ás instituições. No entanto, é importante compreender que a investida neoclássica não se deve à sua superioridade teórica, bem pelo contrário, ela atravessa uma grave crise teórica. Por exemplo, em microeconomia é-lhes (matematicamente) impossível demonstrar o que há de distinto no equilíbrio geral — discutido anteriormente — e no comportamento maximizado dos agentes. [9] Estes problemas teóricos nunca são mencionados nos estudos neoclássicos consagrados ao desenvolvimento, em particular nos modelos computacionais de equilíbrio geral, mas eles constituem o desafio mais sério que a ciência económica dominante tem de enfrentar. E a verdade é que a
ciência económica neoclássica não tem respostas para este problema. Em macroeconomia, o uso frequente do postulado do agente representativo [10] levanta a questão de fazer ou não sentido falar num "mercado", numa "transacção", num "preço" quando existe apenas e tão só um agente isolado. Como se isto não bastasse, a teoria neoclássica de crescimento é incapaz de explicar conceitos tão fundamentais como o "capital", visto como um motor de crescimento (de que forma está relacionado com o conhecimento, o capital humano ou infraestrutura?), ou mesmo o estado (como deve ser este distinguido do agente individual?).
No campo neo-institucional, a ideologia das escolhas livres individuais conduz a verdadeiras catástrofes intelectuais, tais como a explicação do feudalismo levada a cabo por C. Douglass North [11] , ou a exposição de Joseph Stiglitz sobre o ressurgimento recente da partilha de colheitas no Sul. [12] Não foi Oliver E. Williamson que nos ensinou a todos que qualquer "contrato privado" resultante de transacções inter-individuais é necessariamente racional e eficiente em cada período histórico? [13] Como podemos então surpreender-nos ao vê-lo reclamar a paternidade e validade das "reformas institucionais" do Consenso de Washington? Na verdade, o que os teóricos neoclássicos nos apresentam como progressos não são nada mais do que regressões intelectuais,
evoluções de uma ciência cada vez mais parecida com a ficção científica.
Devem ser compreendida a função ideológica das teorias neoclássicas [14] Elas conferem um verniz científico ás políticas neoliberais. E não é de forma alguma um acaso o sincronismo entre o que a teoria preconiza e o que o neoliberalismo pratica: colocando o estado ao serviço do capital privado e, em boa verdade, tudo aquilo que uma vez foi bem público na calha da privatização. Tudo deve ser "mercantilizado," incluindo a produção do conhecimento ou a educação. E não é tanto o caso de ao estado não lhe ser permitido imiscuir-se — neste ponto, não podia ser maior a distância que separa os neoclássicos da velha escola anti-estatal ou mesmo das posições libertárias de economistas tais como Friedrich Hayek. De facto, ao estado cabe apenas o papel de garante da
hegemonia do capital privado e transnacional. Qualquer dissimulação de objectividade por parte dos teóricos neoclássicos terá sido entretanto desmascarada quando os prémios Nobel da economia Milton Friedman, Gary Becker e Robert Lucas vieram juntos a público para "apoiar entusiasticamente o programa económico de George W. Bush".
A CRISE DO NEOLIBERALISMO
As políticas neoliberais têm vindo a ser empregues vai para mais de três décadas na gestão da crise capitalista. Muito tem sido oferecido aos detentores do grande capital, isto é, à alta finança e em particular à dos Estados Unidos, na forma de oportunidades de investimento especulativo. De forma a compensar a ausência de canais de investimento para os lucros fenomenais conseguidos através da exploração dos trabalhadores, camponeses e população em geral, as políticas neoliberais procuram desimpedir esses canais por forma a evitar uma desvalorização do capital. Estas
políticas têm sido prejudiciais para a grande maioria da humanidade. Em particular, o Sul globalizado tem sofrido os pagamentos odiosos da dívida, a fuga do capital e o repatriamento dos lucros provenientes do investimento estrangeiro. O neoliberalismo não é um modelo de desenvolvimento; é antes a estratégia colocada em prática pela alta finança por forma a espoliar o Sul enquanto acumula lentamente capital a Norte. Apesar da sua falência em todas as áreas (e por implicação, o equívoco de toda uma legião de especialistas [15] ), continua a ser aplicada de forma unilateral e antidemocrática. Entretanto, as desigualdades a nível intra e internacional explodem.
Até mesmo os mecanismos de regulação do capitalismo global encontram-se em crise. A militarização é hoje a característica fundamental do poder da finança global sob a
égide da hegemonia norte-americana. É significativo neste aspecto não tanto o aumento do "peso militar" — percentagem do PIB relativamente ás despesas militares — mas antes a disseminação agressiva de bases militares norte-americanas por esse mundo fora, assim como a crescente presença de corporações transnacionais no interior do complexo industrial e militar. O nome correcto para a globalização é imperialismo, e um imperialismo cada vez mais visivelmente imposto pela via da força. Já as finanças encontram-se em pé de guerra contra quem quer que ensaie processos de desenvolvimento autónomo ou declare sequer intenções nesse sentido, e é essa a lógica basilar que relaciona guerras imperialistas à alta finança. No Iraque por exemplo, existem sem dúvida desejos do capital em controlar o petróleo. Mas há uma realidade mais decisiva: o que está em causa e o que faz esta ou outras guerras essenciais para a alta finança é a reprodução das condições que permitam ao capital
manter-se ou mesmo expandir-se ainda mais. A classe capitalista já não consegue garantir o poder que detém de outra forma senão através da guerra. E é interessante observar como os economistas neoclássicos se empenham de corpo e alma na elaboração de uma ciência económica da defesa, contudo os seus esforços não tiveram êxito. A razão deste fracasso é a incapacidade da economia neoclássica para lidar com o conflito, um elemento incontornável em qualquer análise sobre a guerra!
DA GUERRA CONTRA A POBREZA À GUERRA CONTRA OS POBRES
A prossecução de políticas neoliberais tem vindo a tornar-se cada vez mais uma guerra contra os pobres, mesmo sendo uma das suas bases ideológicas a intenção de reduzir essa mesma pobreza. Nesta guerra, a maioria dos economistas dispensa-se do esforço de propor alternativas aos vastos desdobramentos do neoliberalismo, nem mesmo aqueles que são habitualmente retratados como especialmente
sensíveis aos aspectos sociais do desenvolvimento — ou aqueloutros tidos como críticos do neoliberalismo, tais como Joseph Stiglitz e Amartya Sen. Em boa verdade, os criticismos erguidos pelos "grandes" economistas (galardoados com o Prémio Nobel em ciências económicas, atribuído pelo Banco da Suécia) são engenhosos, particularmente no que toca aos assuntos abordados pelos Objectivos de Desenvolvimento do Milénio das Nações Unidas. Thomas Schelling, laureado Nobel pelas suas "descobertas" relativas à teoria dos jogos (sem esquecer que, enquanto funcionário da Rand Corporation, o seu trabalho influenciou Robert McNamara aquando das suas decisões durante a escalada da violência no Vietname), fez parte do "grupo de peritos" do "Consenso de Copenhaga" instituído em 2003 para avaliar os Objectivos de Desenvolvimento do Milénio. (o chamado "Consenso de Copenhaga" foi convocado pelo anti-ambientalista Bjørn Lomborg, autor do conhecido livro The Skeptical Environmentalist —
com o apoio do Instituto Nacional Dinamarquês para a Avaliação do Ambiente). Schelling recomendava então os seguintes pontos: (1) corte nas prioridades das Nações Unidas relativamente à redução dos gases de estufa (já anteriormente havia apoiado a rejeição do Protocolo de Quioto pelos Estados Unidos); (2) maior promoção por parte das Nações Unidas no que respeita à liberalização do comércio; (3) uma maior protecção das patentes da Sida detidas pelas corporações; (4) promoção dos organismos geneticamente modificados com o pretexto da luta contra a desnutrição.
Não é difícil ter Schelling como excepcional nas suas perspectivas, sobretudo quando comparado com outros economistas igualmente agraciados com o Prémio Nobel. Mas dificilmente será este o caso. Fogel (galardoado com o Prémio Nobel em 1993), cujas interpretações da escravatura nos Estados Unidos mais não fazem do que racionalizá-la como um tipo de relação de livre escolha entre escravo e senhor! Também Fogel
fez parte do Consenso de Copenhaga e não foram muito diferentes das de Schelling as exortações que fez nessa ocasião — a liberalização do comércio no topo das prioridades e a desnutrição, a fome assim como o combate contra o aquecimento global na base dos problemas considerados por ele prioritários. [16]
E como poderíamos nós esquecer Milton Friedman (Prémio Nobel em 1976), convencido de que a intervenção do estado para além dos serviços de educação providenciados pelo mercado "não é necessária", que a acontecer tal intervenção teríamos um sistema bem pior do que aquele que se teria desenvolvido caso o mercado tivesse desempenhado um papel mais saliente. Ou Hayek (Prémio Nobel em 1974), cujas posições são por demais conhecidas e não carecem aqui de explicação. Gary Becker (Prémio Nobel em 1992), que declarou um dia que as
diligências dos "Rapazes de Chicago" [economistas da Universidade de Chicago] para com o General Pinochet terão sido "uma das melhores coisas que alguma vez aconteceram ao Chile." [17] Sendo como era uma das fontes de inspiração da Universidade de Chicago, terá ainda demonstrado o seu apreço quando afirmou que estava "orgulhoso da mais do que merecida glória dos seus discípulos". No mesmo espírito, Robert Barro (promissor Prémio Nobel) escreve sobre a actual performance económica positiva do Chile, afirmando que tal deve-se sem sombra de dúvidas ás reformas neoliberais implementadas por Pinochet em 1973–1989, visto que ninguém fez mais do que ele para demonstrar a "superioridade" do capitalismo em relação ao socialismo.
OS 'GRANDES ECONOMISTAS' MAIS BRANDOS E GENEROSOS
A ideologia
reaccionária de alguns dos "grandes" economistas é relativamente bem conhecida e foi já muitas vezes denunciada. Mas os argumentos intrinsecamente pró-neoliberais dos mais moderados de entre os galardoados com o Prémio Nobel, tidos não raras vezes como críticos do sistema, como Stiglitz e Sen por exemplo, provocam menos olhares críticos. Estes dois autores da moda sabem muito bem como "surfar" na onda dos protestos contra o neoliberalismo selvagem assim como sobre a necessidade de uma regulação de mercado que promova um capitalismo com "uma face humana". É contudo um sério equívoco este, visto que nenhum deles alguma vez recomenda o restabelecimento do estado-providência (wellfare state), a modificação da estrutura de propriedade a favor do sector público, a aplicação de uma política de redistribuição dos recursos, ou a promoção dos serviços públicos — muito menos a argumentação a favor de um desenvolvimento planeado e conduzido pelo próprio estado. Muito embora
algumas nuances e subtilezas, os seus argumentos sempre pressupõem a enunciação de que o estado deve submeter-se às forças dominantes do capital global e mesmo auxiliar no seu processo de acumulação.
Stiglitz (Prémio Nobel em 2000) era ainda economista-chefe no Banco Mundial quando o relatório de 1998-99 sobre "O conhecimento para o Desenvolvimento" [19] foi publicado. Este relatório ensina-nos o que significa "cooperação" entre o sector privado e as áreas da informação e telecomunicações: privatização, desmantelamento da investigação pública (incluindo a transformação de institutos de investigação em sociedades anónimas) e mercantilização da educação (até mesmo no auxílio aos pobres no pagamento dos seus estudos). Harmoniza toda uma série de relatórios a favor das transnacionais publicados previamente pelo Banco
Mundial sobre o ambiente, infraestrutura, saúde ou dividendos de paz: protegendo-as contra qualquer risco de nacionalização; providenciando ás transnacionais a possibilidade de acumulação de capital através da construção de infraestruturas com dinheiros públicos; promovendo a exploração dos recursos florestais para a exportação; no corte das despesas públicas e nos programas sociais; ou a abertura de apetecíveis mercados de escoamento para os complexos militares e industriais (não sem antes aconselhar o desarmamento por forma a continuar o financiamento da dívida do terceiro mundo).
Sen (Prémio Nobel em 2004) é tradicionalmente apresentado como uma "voz alternativa" na luta contra a pobreza. As suas análises concentram-se na escassez de recursos dos mais pobres (em particular, capital humano), situação que não lhes permite superar a sua penúria através da participação activa nos mercados. As ideias de Sen têm influenciado consideravelmente as organizações
internacionais empenhadas no desenvolvimento humano. O seu pensamento é contudo e em larga medida, uma cópia perfeitamente compatível da teoria neoclássica (incluindo a teoria do equilíbrio geral e o seu individualismo metódico). E as propostas que advoga nas suas palestras eticamente "pluralistas" — não raras vezes bastante confusas — aproximam-no da multidão em favor da boa governação do Banco Mundial e do FMI. Obcecado pelo indivíduo solitário e as suas oportunidades (e capacidades) de escolha, a redistribuição de recursos entre grupos sociais é quase sistematicamente esquecida por Sen, e em particular a questão da desigualdade na distribuição do capital. Tal como Stiglitz e muitos outros (de Krugman a Jeffrey Sachs), Sen perde-se na fantasia da escolha livre e individual dos agentes. Não estamos longe do conceito ideológico de "democracia" baseado na simples escolha individual, dissimulando os efeitos da dominação de classe e/ou subjugação nacional, assim como as
relações de força entre exploradores e oprimidos — isto é, as contradições essenciais presentes no capitalismo desde a sua própria origem.
Actualmente, o domínio da economia neoclássica sobre a teoria do desenvolvimento está a par com aqueloutro do poder financeiro neoliberal sobre as políticas de desenvolvimento. Isto não significa que todos os neoclássicos sejam neoliberais. Uma das complexidades do momento actual advém precisamente da esquizofrenia de um certo número de economistas, neoclássicos no escritório mas pseudo-populistas durante o fim-de-semana. Significa tão somente que existem complementaridades importantes entre as duas formas de dominação ideológica, interdependentes entre si e reforçando-se mutuamente. É assim que, na minha opinião, não são apenas a ausência de uma base cientifica ou a existência de inconsistências lógicas que desqualificam estas abordagens, mas antes o papel ideológico e o projecto anti-social sustentado pelas metodologias
empregues ou as conclusões aportadas, em tudo aquilo que autorizam ao capital mundial.
Aos autores heterodoxos não lhes é mais permitido o luxo de se perderem em polémicas inúteis, reproduzindo divisões antigas. Em qualquer dos casos, a solução não passa pela elaboração de novas "sínteses", nem tão-pouco na submissão ao impulso neoclássico dominante, não será certamente assim que os autores heterodoxos conseguirão mobilizar forças para reconstruir uma alternativa genuinamente crítica. Hoje, mais do que nunca, a questão subsiste: Como poderemos nós superar os erros do passado por forma a edificar um projecto de desenvolvimento autêntico, numa alternativa pós-capitalista — uma alternativa social, ou melhor, socialista? É esta a questão que tem animado desde o início as heterodoxias empenhadas na economia do desenvolvimento.
Notas 1- Paul Krugman, "The Fall and Rise of Development Economics" (1993), http://www.wws.princeton.edu/pkrugman/dishpan.html. 2- Paul Krugman, "Increasing Returns and Economic Geography," National Bureau of Economics Research Working Papers 3275 (Cambridge, Massachusetts, 1990). 3- A partir de CEPAL, acrónimo para Comisión Económica para América Latina y el Caribe. 4- Rémy Herrera, "Good Governance against Good Government," Report for the 60th Session of the UN Commission of Human Rights, E/CN.4/2004/NGO/124 (Geneva, July 2004). 5- Fundo Monetário Internacional, Good Governance: The IMF Role (Washington D.C.: International Monetary Fund, 2003). 6- Alan P. Kirman, "The Intrinsic Limits of Modern Economic Theory: The Emperor Has No Clothes," Economic Journal 99, no. 395, (1998). 7- George A. Akerlof, "The Economics of Caste and of the Rat
Race and Other Woeful Tales," Quarterly Journal of Economics 90, no. 4 (November 1976). 8- Oliver E. Williamson, Markets and Hierarchies (New York: Free Press, MacMillan, 1975). 9- Hugo F. Sonnenschein, "Do Walras' Identity and Continuity Characterize a Class of Community Excess Demand Functions?," Journal of Economic Theory 6 (1973). 10- Para um exemplo de teoria do ciclo de negócios real ver Finn E. Kydland and Edward C. Prescott 1982 (2004 Nobel prize-winners). 11- O senhor providenciaria bens públicos para os quais não existe qualquer mercado (por exemplo, a defesa) e, em contrapartida, a remuneração pelos seus serviços assumiria formas institucionais adequadas (servidão, "contrato implícito") por forma a prevenir comportamentos "free-riding" no interesse dos seus subordinados. 12- Um contrato de partilha de colheitas racional e eficiente seria aquele em cujos termos o proprietário veria assegurado um equilíbrio entre os riscos
da insegurança associados ás flutuações das receitas provenientes da terra e os incentivos ao trabalho dos seus cooperantes. Ver Joseph Stiglitz, "Incentives and Risk Sharing in Sharecropping", Review of Economic Studies 41 (1974). 13- Oliver E. Williamson, Markets and Hierarchies (New York: Free Press, MacMillan, 1975). 14- Rémy Herrera, "The Hidden Face of Endogenous Growth Theory: Analytical and Ideological Perspectives in the Era of Neoliberal Globalization," Review of Radical Political Economics 38, no. 2 (2006). 15- A título de exemplo ver Jeffrey Sachs, The End of Poverty (London: Penguin Press, 2005). 16- Bjørn Lomborg, ed., Global Crises, Global Solutions (Cambridge: Cambridge University Press, 2004). 17- Gary S. Becker, "Latin America Owes a Lot to Its 'Chicago Boys,'" Business Week (June 9, 1997). 18- Robert J. Barro, Nothing Is Sacred (Cambridge: MIT Press, 2002). 19- World Bank,
World Development Report 1998–99 (Washington D.C.: World Bank, 1999).
[*] Investigador do Centre National de la Recherche Scientifique (CNRS), França. Leciona na Universidade de Paris 1 Panthéon, Sorbonne. Coordenador do World Forum for Alternatives.
A crise da valorização real do capital transforma-se sempre também em crise do dinheiro. O dinheiro, porém, não existe imediatamente como dinheiro mundial, mas apenas como moeda com um determinado nome de dinheiro nacional. À medida em que o capital se expande em estruturas transnacionais vai-se tornando notória a contradição com o carácter de moeda nacional do dinheiro. O dólar, sendo moeda do comércio mundial e moeda de reserva mundial, permanece simultaneamente ligado aos EUA, enquanto estado nacional. Porém, o fundamento para a sua função de moeda mundial na globalização
já não é a posição dominante da economia nacional dos EUA, mas apenas o seu papel como "poder garante" do capitalismo de crise planetário, em virtude da máquina militar sem concorrência, que de certa maneira constitui o "ouro" do dólar. Só por isso é que o capital dinheiro global excedente se desloca predominantemente para aplicações em dólares, como pretenso "porto seguro", financiando assim o transbordante défice da balança de pagamentos dos EUA. Mas esta constelação é precária, pois ameaça levar à queda do dólar e com ela à perda da função de dinheiro mundial, uma vez que o peso do sempre crescente défice externo repercute-se no carácter nacional da moeda.
A crise do dólar que se desenha poderia sugerir uma futura ascensão do Euro ao papel de dinheiro mundial. Mas tal aparência é enganadora, pois é impossível à União Europeia assumir o papel de "poder garante" global. Nas condições de crise dominantes, uma máquina militar com as dimensões da dos EUA seria
infinanciável, mesmo num espaço de tempo histórico. E até os EUA já há muito correm o risco de perder o controlo, como se vê não apenas no Iraque. Economicamente, a União Europeia não tem de facto nenhuma posição dominante própria, pelo contrário, está ligada à estrutura de défice dos EUA, com as suas exportações de capital e de mercadorias na globalização. Sobretudo, porém, o Euro é um produto artificial. A União Monetária não corresponde a nenhum estado nacional europeu. Não há aqui nenhuma vantagem face aos EUA, apenas a contradição entre capital transnacional e espaço monetário assume aqui uma forma diferente.
A União Monetária Europeia ameaça levar à desintegração, em vez de à integração, porque foi apenas sobreposta a espaços funcionais estatais nacionais que continuam com níveis de produtividade diferentes. Os défices explosivos na balança da pagamentos em Espanha, Grécia e Portugal, na ordem de 7 a 10% do PIB, já não podem ser amortecidos com a
desvalorização cambial das moedas nacionais, porque estes países têm agora a mesma moeda que os países com superavit (sobretudo a RFA). Esboça-se um desastre semelhante ao da unificação alemã, onde os diferentes níveis de produtividade da RFA e da RDA foram compelidos a um tecto monetário comum. A consequência foi o conhecido e até hoje não dominado desastre da integração económica da Alemanha Oriental. No âmbito do espaço do Euro, porém, o problema não pode ser disfarçado com pagamentos-transferências, como no âmbito da RFA. Por isso, sob a pressão da globalização, a União Europeia está claramente à deriva. Os países do sul da Europa, na sua aflição, começam a desalavancar o mercado interno europeu com medidas de protecção nacional. Paralelamente à crise do dólar está à vista uma crise do Euro a curto prazo. No capitalismo de crise global, em última instância, é toda a função do dinheiro que soçobra, precisamente porque o meio dinheiro não consegue ser universal, mas
continua ligado a espaços monetários delimitados.
Na 1ª Guerra Mundial, a Argentina era um dos dez países mais ricos do mundo e candidata a ser uma potência hegemônica na América Latina; mas não foi o que aconteceu. Leia análise de José Luis Fiori.
José Luís Fiori
Existe um enigma que segue sem resposta, na história da Argentina: por que o país mais rico da América Latina não conseguiu realizar no século XX, o seu "destino manifesto" de grande potência? No último quarto do século XIX, depois do fim da Guerra do Paraguai, entre 1870 e 1914 - como no caso dos Estados Unidos, Alemanha e Japão - a economia e a sociedade argentinas viveram uma "Idade de Ouro": neste período de 34 anos, o PIB argentino cresceu de forma contínua, a uma taxa média de cerca de 7% ao ano - a maior do mundo, no período - ao mesmo tempo em que crescia a renda per capita dos argentinos, a uma taxa de 3,8%, igualmente, a maior do mundo. Como conseqüência, no início do século XX, a renda per capita dos argentinos era quatro vezes maior do que a renda dos brasileiros, e o dobro da renda dos norte-americanos.
O crescimento da economia Argentina, depois da
Guerra do Paraguai, foi liderado, na maior parte do tempo, pela exportação agro-pastoril, mas se deu também na industria, e na maior parte do tempo, foi também induzido pelos investimento na construção da extensa rede ferroviária que integrou o mercado nacional argentino, antes do fim do século XIX. Sua pauta de exportações agrícolas era diversificada, e sua população já vivia predominantemente nas regiões urbanas, onde 64% trabalhavam na industria, comercio ou setor de serviços.. Por fim, no início do século XX, 1/3 dos argentinos viviam em Buenos Aires, uma cidade sofisticada, com alto nível educacional e cultural, e que foi durante muito tempo, uma espécie de capital européia da América Latina.
Em síntese, na véspera da 1º Guerra Mundial, a Argentina era o país mais rico do continente latino-americano, era um dos dez países mais ricos do mundo, e tinha todas as condições para se transformar na potência hegemônica da
América Latina, e numa potência econômica mundial. Mas não foi isto que aconteceu. Sobretudo depois de 1930, quando a Argentina começa a perder o impulso econômico da sua Idade de Ouro, e sofre um processo social de fragmentação política, cada vez mais profunda e radical.
Mais recentemente, entre os economistas, e em particular entre os neoliberais, se transformou num lugar comum atribuir a responsabilidade deste "fracasso argentino" ao "populismo macroeconômico" do governo Perón. Apesar de que Juan Domingo Perón só tenha governado a Argentina entre 1945 e 1955, e depois, muito rapidamente, entre 1973 e 1974. E apesar de que todas as evidências indiquem que foi nas décadas de 1930 e 1970 que a economia argentina perdeu de fato, o seu fôlego expansivo, atrasando-se com relação ao ritmo dos seus concorrentes mais próximos.
Exatamente nas duas décadas em que a Argentina
enfrentou duas grandes crises internacionais, e respondeu à turbulência global reforçando sua opção do século XIX, por uma "economia aberta", e por uma política econômica ultra-liberal. Primeiro, nos anos 30, com a "restauração conservadora" do Gal. Justo, e depois, nos anos 70, com o "fascismo de mercado" do Gal. Viola e do ministro de economia, Martinez de Hoz, que implantaram na Argentina, o modelo político-econômico que já havia sido introduzido no Chile, em 1973, e no Uruguai, em 1974. Segundo estimativa do economista argentino, Ernesto Lavagna, entre 1930 e 1945, o Brasil cresceu a uma taxa média que duplicava seu PIB a cada 28 anos, enquanto a Argentina, precisaria de 42 anos para fazer o mesmo. E de novo, na década de 1970, o Brasil cresceu a uma taxa que duplicava seu PIB a cada 9 anos, enquanto a Argentina precisaria de 29 anos.
Mas atenção, porque mesmo depois da 1º Guerra Mundial, e da crise de 1930, a economia
Argentina seguiu crescendo e se industrializando, e a sua sociedade seguiu enriquecendo e sofisticando-se. De tal forma que o PIB argentino só foi superado pelo Brasil e pelo México, na primeira metade da década de 50, e apesar disto, a renda per capita e o nível educacional da população argentina seguiu sendo, quase o dobro da brasileira e da mexicana até o final do século XX. O problema é que depois de 1930, o crescimento da economia argentina se deu de forma cada vez mais instável, com uma sucessão de ciclos econômicos cada vez mais curtos e intensos ("bi-polares"), com grandes taxas de crescimento seguidas de profundas crises e depressões econômicas.
E apesar disto, a política econômica manteve-se quase a mesma: uma combinação de investimentos e créditos estrangeiros com políticas monetárias e fiscais ortodoxas, e limitado papel do estado na dinamização da econômica, em nome do equilíbrio fiscal. Uma espécie de
"recorrência inercial" que não resultou de uma política consistente, pelo contrário, foi uma conseqüência "não buscada" da diversidade contraditória dos interesses exportadores, e da heterogeneidade dos interesses industriais e dos trabalhadores, que puderam conviver de forma relativamente pacífica durante o período de alto crescimento contínuo, da Idade de Ouro, mas que depois não conseguiram mais encontrar entre si, algum denominador comum que pudesse ser politicamente eficiente.
Por isto, uma das lições mais importantes desta história argentina é que do ponto de vista estritamente conjuntural, este "padrão de desenvolvimento" posterior a 1930 teve um desempenho médio extremamente razoável. A economia Argentina cresceu a uma taxa média de 2,95% ao ano, entre 1913 e 1950; de 3,78% ao ano, entre 1950 e 1973; e de 2,06%, ao ano, entre 1973 e 1998. (Maddison, 2001, p:197). Um desempenho melhor do que o do Brasil entre 1980 e
2006. O problema é que a reprodução destes mini-ciclos de crescimento, junto com a preservação da política reativa e liberal, ao lado de um conflito distributivo cada vez mais intenso, acabou erodindo o horizonte de expansão de longo prazo da riqueza e do poder da Argentina. Depois de 1930, ficou cada vez mais difícil formar uma coalizão de poder consistente, e com a força suficiente para arbitrar interesses e impor um projeto nacional de longo prazo, por cima e contra a imposição mecânica dos mini-ciclos de mercado, semelhantes aos "vôos da galinha" do novo "padrão de desenvolvimento brasileiro", implantado em 1994.
Maddison, A. , (2001) The World Economy. A Millennial Perspective, , OECD
Quando se pensa em América do Sul, hoje em dia, pensa-se em integração energética. Quando se pensa em energia no Brasil, pensa-se em integração com a América do Sul. Definitivamente, o tema da integração do continente passou a fazer parte de todas as análises consistentes sobre os países do continente. O geógrafo Cláudio Egler, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, gosta de analisar o continente do ângulo geoeconômico. Geopolítica, diz ele, é o controle de territórios visando obter vantagens no jogo internacional. Geoeconomia, em vez do controle sobre territórios, significa controle sobre as redes, seja de logística ou de informação. Por isso, julga ele, está na hora de o país começar a pensar estrategicamente a sua geoeconomia, a exemplo do que vem fazendo a China, onde governo e empresas perseguem objetivos comuns. A arte
da logística consiste em deter não apenas a propriedade mas principalmente o direito de uso. Um dos fluxos mais importantes, nessa estratégia, é o de energia. Há uma geoeconomia avançando em relação ao gás. Nesse período de transição da era do petróleo para a nova era, o gás desempenhará papel fundamental. E o Brasil precisa montar sua estratégia para o gás. Os EUA e a Europa avançaram em escala continental -seus gasodutos atravessam todo o continente. O Oriente Médio possui as maiores reservas de gás do mundo -70%-, mas fortemente concentrada no Irã. E a estratégia iraniana tem sido a de pensar um gasoduto não em direção à Europa mas à China, passando pela Índia -o que alteraria fundamentalmente o equilíbrio econômico mundial. A questão nuclear, segundo o geógrafo, não passaria de pretexto para anular essa tentativa do gasoduto Irã-China. Pelos dados de 2005, a América do Sul é o continente que dá a menor contribuição às reservas globais de gás: apenas 4%. Nos
EUA, a tendência é declinante; na África, as descobertas estão em expansão. Na geoeconomia mundial, o grande fluxo de gás para a Europa vem da Rússia, mas em um quadro que tende a complicar, desde que uma empresa privada russa, a Gaspron, assumiu o controle do gasoduto e passou a tentar impor preços aos consumidores. Para os EUA, o fluxo vem de Trinidad e Tobago e do Canadá, em parte por gasodutos, em parte por gás liquefeito. Nos últimos anos, Trinidad e Tobago tornou-se o principal fornecedor de gás para os EUA, substituindo a Venezuela de Chávez. A Petrobras se colocou bem na região, ao lado da British Gas. Para a América do Sul, pensa-se agora no grande gasoduto ligando Venezuela, Brasil Argentina e Chile. O grande embate no continente será entre a Petrobras e a venezuelana PDVSA. A Petrobras se colocou bem em Trinidad e Tobago, com a British Gas. A PDVSA está conseguindo penetrar na Bolívia. Tempos atrás tentou, sem sucesso, adquirir a Rede Ipiranga no
Brasil. Pelos dados apresentados no 31º Fórum Projeto Brasil, há fundadas razões para o Brasil não se afastar da Bolívia. Fora o gás, só o potencial hidrelétrico do país (em razão das corredeiras dos Andes) é quase o mesmo que do Brasil.
En vísperas de la cumbre del G8 que analizará en San Petersburgo la crisis energética mundial, las cartas parecen cambiar de mano. Al margen de la cumbre de la Organización de Cooperación de Shangai, los dos principales productores de gas a nivel mundial, Rusia e Irán, concluyeron un acuerdo estratégico que defiende no sólo sus intereses comunes sino también los de Pakistán y la India, y probablemente los de Turkmenistán y China.
El acuerdo ruso-iraní conducirá a la repartición del mercado entre los dos principales productores mundiales de gas natural. Rusia será el proveedor de Europa e Irán venderá su gas a la India y Pakistán.
«Gazprom está dispuesta a brindar su apoyo financiero y técnico a la construcción del gasoducto Irán-Pakistán-India. Es un proyecto rentable y perfectamente realizable», declaró el 15 de junio de 2006 el presidente ruso Vladimir Putin al margen de la cumbre de la Organización de Cooperación de Shangai (OCS). Esa iniciativa marcó el inicio de serios cambios en el mercado euroasiático del gas natural.
La idea de construir un gasoducto entre Irán, Pakistán y la India fue propuesta por Teherán en 1996. La instalación cubrirá un trayecto de 2 775 kilómetros y costará 7 000 millones de dólares. La terminación del proyecto está prevista para 2009. A partir de
2010, la India y Pakistán podrán recibir anualmente 35 000 millones de m³ de gas y 70 000 millones en 2015. Gazexport, filial de Gazprom, se ocupó del proyecto hasta que este pasó a manos del departamento de relaciones económicas exteriores de Gazprom.
En el plano económico este gasoducto constituye una necesidad absoluta [1]. El proyecto presenta grandes ventajas para la India, país al que permitirá recibir gas iraní barato. Fuentes iraníes estiman que la construcción del gasoducto representará para la India un ahorro anual de 300 millones de dólares en gastos energéticos. Pakistán también necesita ese gasoducto para recibir gas natural (el país se verá obligado a importar gas a partir de 2010), y el
tránsito le reportará entre 500 y 600 millones de dólares. Debido al crecimiento de la demanda de material energético en China está previsto prolongar después el gasoducto hasta la provincia china de Yunnan [2]. El presidente pakistaní Pervez Musharraf hizo esa proposición durante sus encuentros en Shangai con los representantes de los medios de negocios de los países de la Organización de Cooperación de Shangai (OCS).
Los riesgos políticos del proyecto disminuyeron sensiblemente en los últimos tiempos. Las autoridades indias rechazaron esa asociación durante mucho tiempo ya que temían que Pakistán no pudiera garantizar la seguridad del gasoducto. Durante la visita que el ministro indio de Petróleo, Mani Shankar
Aiyat, efectuó a Pakistán en junio de 2005, el presidente Musharraf declaró que Islamabad garantizará la seguridad del gasoducto dentro de su territorio y expresó su deseo de que la construcción del mismo comience el año próximo.
Las reservas iraníes probadas de gas natural alcanzan los 28 000 millardos de metros cúbicos y la producción de gas aumenta en un 10% anual. Actualmente casi toda la producción se consume en el país: 100 000 millones de m³ se destinan a los consumidores comerciales (como las centrales eléctricas, que consumen 35 000 millones), y se inyectan 40 000 millones de m³ en las reservas de petróleo para mantener el flujo de los pozos en producción. La red iraní de gasoductos sobrepasa los 22 000 km. Las potencialidades de exportación del país van en aumento y hacen de Irán un poderoso competidor para Rusia. No es obra de la casualidad si Europa incluye a Irán en buena parte de sus planes de diversificación de las
entregas de gas. Desde esa óptica, la participación de Gazprom en el proyecto de gasoducto Irán-Pakistán-India puede ser considerada como una jugada magistral en la lucha por el mercado europeo ya que el proyecto permitirá canalizar buena parte de los recursos iraníes hacia el este y, por lo menos, retrasar la aparición de estos en Europa.
En el contexto geoeconómico, la iniciativa en lo tocante al gas natural que anuncian Teherán y Shangai adquiere excepcional importancia. Durante su entrevista con el presidente ruso Vladimir Putin, el presidente iraní Mahmud Ahmadineyad propuso decidir juntos los precios del gas y los principales flujos del «combustible azul».
Según ciertos observadores, este acercamiento entre Rusia e Irán en el sector del gas natural creará las condiciones necesarias para el surgimiento de una organización de países productores de gas similar al cártel
petrolero. La unificación de las redes de transporte de gas ruso e iraní permitirá la participación de Gazprom en la gestión de casi todo el sistema de gasoductos asiáticos, sobre todo teniendo en cuenta que Turkmenistán planea integrarse a ese sistema (gracias al gasoducto ya existente entre Turkmenistán e Irán). Después vendrá Asia Central dando lugar a un mercado del gas que reunirá a Turkmenistán, Irán, Pakistán, la India y China.
La iniciativa de Teherán significa que Irán, que posee las reservas de gas más importantes después de las de Rusia, no tiene la intención de competir con Moscú en ese sector. Mejor aún, propone una coordinación de las acciones de ambas partes en el mercado mundial, incluso en lo tocante a la política de precios y el transporte. La alianza ruso-iraní en ese sector podría entonces controlar el 43% (75 500 millardos de m³) de las reservas mundiales probadas y definir a largo plazo los principales parámetros
de desarrollo del mercado asiático, y probablemente del mercado mundial.
Es sin embargo poco probable que la creación de un cártel del gas natural tenga lugar en un futuro próximo. El presidente ruso rechazó claramente esa posibilidad. «El cártel es la OPEP. Nosotros tendremos una empresa conjunta», declaró en Shangai. Es evidente que hoy en día iniciativas de ese género perjudicarían la reputación de Rusia como huésped de la cumbre del G8 y candidata al papel de garante de la seguridad energética internacional [3]. No hay que olvidar, sin embargo, los arreglos bilaterales que han tenido lugar con proveedores de gas actuales o potenciales: Argelia, Libia e Irán. Dichos acuerdos pueden
convertirse en eficaces instrumentos de regulación del mercado del gas en interés de los productores.
La participación de Gazprom en el proyecto de gasoducto Irán-Pakistán-India resulta por tanto doblemente ventajosa para Rusia. Un competidor potencial (Irán) dirige sus recursos hacia el este, disminuyendo así sensiblemente las posibilidades de los europeos de diversificar sus fuentes de aprovisionamiento de gas. Al mismo tiempo, al adquirir nuevos medios de influencia sobre la distribución de gas a escala euroasiática, Rusia aplica su propia estrategia de diversificación de mercados. Una magistral jugada geopolítica poco antes de la reunión del G8, que tendrá lugar en San Petersburgo.
* Miembro del Centro de Estudios Energéticos de la Academis de Ciencias de la Federación Rusa
Que conclusões devemos tirar do crescente coro de temores quanto ao possível colapso do dólar? Será mais um falso alarme?
Esses receios reportam-se a quatro elementos: a declaração de intenções do Irão em abrir brevemente uma Bolsa de Petróleo electrónica internacional; a decisão da venda deste petróleo em euros e não em dólares; a previsão da subida do preço do petróleo acima dos US$100 o barril, disparando assim uma recessão mundial; e, por fim, a utilização de ouro como reserva de valor.
Uma vez que os EUA estão profundamente endividados, tanto interna como externa, o valor do dólar depende inteiramente do facto de ser divisa de reserva de outros países. Todos devemos manter reservas de dólares por duas razões: primeiro porque, segundo o acordo celebrado nos anos 40, todos os países produtores de petróleo da OPEP concordaram em transaccionar petróleo apenas em dólares. Isto significava que todos
tinham de possuir dólares se quisessem comprar petróleo, o que fez com que dois terços das reservas dos bancos centrais fossem nessa moeda.
Por sua vez, isto significa que os americanos têm o privilégio de emitir a moeda internacional. Criar moeda é um lindo trabalho. É como ter a Casa da Moeda no quintal. Pode-se comprar o que se quiser com o novo dinheiro sem ter de fornecer o valor equivalente de bens. Os EUA tem financiado o seu défice anual para com o resto do mundo – com empréstimos de mais de 2 mil milhões por dia – através do processo simples de emitir mais moeda e gastá-la na circulação.
Eles não poderão fazer isso se não tivermos mais de comprar o petróleo em dólares. O valor da moeda cairia à medida que os países mudassem para outras divisas para comprar petróleo ou para o ouro como valor de reserva confiável. A criação de dólares não estaria mais disponível como mecanismo para cobrir a imensa dívida internacional. Se este processo se
despoletasse, assistiríamos a uma espécie de fuga da divisa que arruinou a economia de muitos países na última década.
Ainda mais alarmante são as sugestões de que para evitar esta possibilidade o governo americano estar a planear invadir o Irão. O facto de a invasão do Iraque foi antecedia por acusações infundadas de posse de armas de destruição maciça, e de Saddam Hussein ter ameaçado comutar as vendas de petróleo do dólar para o euro, dá crédito a tais receios. O facto de o actual caos no Iraque tê-lo transformado num importador líquido de petróleo não parece desviar a resolução americana.
Qual é a prova a prova da possível iminência de um tal cenário? A 5 de Maio a Associated Press citou Bill Grady, analista reconhecido da Wall Street, da A.G. Commodities: "Se algum dia os maiores produtores de petróleo do mundo permitissem, ou pior exigissem, euros pelos seus barris, isso seria equivalente financeiro de um ataque
nuclear."
A 8 de Maio, um editorial da revista de extrema direita Forbes, escrito pelo apoiante de Bush Jerome Corsi, previa: "Se o Irão também quer ameaçar seriamente a posição do dólar como divisa de reserva dominante, a guerra será quase certa. A bolsa iraniana de petróleo nunca poderá ser mencionada pelos decisores políticos americanos como uma razão oficial para os EUA decidirem ir à guerra contra o Irão, mas pode bem ser a gota de água que fará transbordar o copo."
Uma rede britânica para o desenvolvimento sustentável ( localsustuk@yahoogroups.com ) reuniu provas de que este cenário poderá estar próximo. Ela afirma que os media ocidentais até agora têm auto-censurado este assunto – tocando sinais de alarme quando o preço do ouro subiu para quase US$ 700. Num registo de 30 de Abril a Al-Jazeerah afirma que: "Países
produtores de petróleo como a Venezuela e alguns dos maiores países consumidores, nomeadamente a China e a Índia, já anunciaram o seu apoio à bolsa iraniana". No artigo "Petro-Euro: realidade ou pesadelo para os EUA", William Clark, especialista americano em títulos da dívida pública, afirma que "se o Irão ameaçasse o dólar no mercado internacional de petróleo, a Casa Branca daria ordem imediata de ataque."
O ouro está agora no seu máximo dos últimos 20 anos em relação ao dólar, e o dólar a um ano de baixa em relação ao euro. O Financial Times de 16 de Maio, sob o título "Receios quanto ao dólar quando bancos centrais vendem activos americanos" relata que "os bancos centrais venderam um total de US$14.4 mil milhões líquidos durante o mês em curso, a maior venda registada desde Agosto de 1998."
Na abertura da reunião do FMI, em 21 de Abril, o ministro das Finanças russo declarou que o seu país "não considera o dólar uma moeda de reserva
fiável devido à sua instabilidade". Nesse mesmo dia o Riksbank sueco reduziu para metade a sua reserva de dólares para comprar euros.
Naquela reunião do FMI foi lançado o 2006 World Economic Outlook (Perpectiva Económica Mundial 2006), advertindo para um colapso do dólar – devido a desequilíbrios do comércio mundial, disparando a dívida americana crescer em espiral e determinando o fim do petro-dólar como padrão de reserva. Na linguagem hermética amada por economistas que desejam disfarçar a verdade, declaram: "Os desequilíbrios globais em transacções correntes provavelmente permanecerão em níveis elevados por mais tempo do que de outra forma teria sido o caso, aumentando o risco do ajustamento súbito desordenado".
Este "ajustamento súbito desordenado" é o actual eufemismo dos banqueiros para designar as consequências do colapso do dólar. Outros, como o economista Stephen Roach da Morgan Stanley e os financeiros Soros e Warren Buffet, preferem chamar
a este cenário "Armagedão económico". Quão próximos estaremos dele?
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Cuando Hu Jintao se fue de Washing-ton, Estados Unidos comenzó a es- perar.
Lo que parecía imposible está sucediendo. La potencia económica más grande del planeta necesita a China. Bush pidió que China revalúe el yuan, su moneda, y que controle a Irán. Hu sonrió y no respondió ninguno de los dos pedidos.
En China nadie tiene ninguna duda de que su
país les va a disputar el liderazgo mundial a los Estados Unidos en pocas décadas. China es un pueblo que representa también una raza y una cultura milenarias. Históricamente, siempre ha sido una nación avanzada y los chinos saben que su destino está allí en la cima. Están convencidos de que los últimos quinientos años fueron un sólo un paréntesis en su liderazgo mundial.
Para convertirse en la fábrica del mundo, China aprendió del modelo aplicado por algunos vecinos como Japón, Corea o Singapur. Mao le devolvió la independencia y el orgullo nacional, y Deng dio los dos pasos clave hacia el desarrollo de todos los países asiáticos: estabilidad política y apertura comercial.
Así, sus más de mil millones de habitantes ingresaron al mercado laboral mundial, sin anestesia para el resto del planeta, que ve cada vez más complicadas sus industrias con una fuerte dependencia del costo de la mano de obra no calificada. No por
casualidad, México, que creció en torno a la industria liviana, fue el último país en admitir a China en la Organización Mundial de Comercio, el 11 de diciembre de 2001. Hoy, China fabrica dos tercios de los DVD y los zapatos del mundo.
El gigante de Asia ya es también una potencia económica mundial. Es la cuarta economía del mundo, luego de los Estados Unidos, Japón y Alemania. Además, es el tercer importador de petróleo, el segundo importador de soja y el primer importador de cobre del mundo.
Pero hay más, y aquí comienza la relación intrincada con Estados Unidos: China acaba de superar a Japón en su constante acumulación de reservas internacionales, que alcanzan la exorbitante cifra de 850 mil millones de dólares.
Y la reciente visita de Hu Jintao a Estados Unidos dejó en evidencia algo que todavía no era tan claro. China es también una potencia política. El dragón asiático ya discute mano a mano la
política mundial con el país más poderoso de Occidente. Es que China es el primer importador de armas del mundo. Desde hace algunos años, duplicó su presupuesto militar, que ya es el segundo del orbe. Por eso se puede dar el lujo de aterrorizar a Taiwan en sus intenciones independentistas. Del mismo modo, logra influir en alguna medida en la indomable República Islámica de Irán.
Estados Unidos está preocupado por su creciente y ya pavoroso déficit comercial y piensa, acertadamente o no, que la culpa la tiene el yuan. Es que China se empecina en mantener el tipo de cambio alto y quieto. Cree que eso favorece la previsibilidad de su economía y sus omnipresentes exportaciones manufactureras.
No toda la responsabilidad del déficit de Estados Unidos recae en China. La realidad es que en este país muchas veces se ensamblan productos que se desarrollan y fabrican en otros. Lo que se ha transferido es la parte final del proceso de
producción desde Malasia o México hacia China. Pero EE.UU. ya importaba esos productos, de todos modos. Debe caer un mito: China no exporta tecnología. Las computadoras se diseñan en Estados Unidos, se fabrican en Malasia y sólo se ensamblan en China. Lo que hacen, entonces, es exportar, como siempre, mano de obra a bajo costo.
El "dragón" neutraliza su superávit comercial comprando dólares y acumulando reservas. Esas reservas no son ni más ni menos que deuda norteamericana.
¿Qué pasaría si China decidiera cambiar sus dólares por euros? Entonces, podría debilitar la moneda norteamericana. De ahí es de donde surge una cuota no menor de poder del país asiático. ¿Y qué ocurriría si China deja flotar su moneda? Seguramente, cambiaría menos de lo que se cree. El yuan se podría apreciar alrededor de un 15 por ciento y los ochocientos millones de chinos que viven en una economía rural de subsistencia seguirían dispuestos a mudarse a
las fábricas costeras para trabajar por uno o dos dólares por día.
Además, si uno visita las grandes tiendas de Estados Unidos, puede encontrar muchas camisas fabricadas en India, Paquistán o Bangladesh. De esto se deduce que el problema no es sólo China. El problema es que los obreros norteamericanos no están dispuestos a trabajar por dos dólares por día. Por suerte: es que no necesitan hacerlo.
A China le importan dos cosas en el próximo medio siglo: disputar el liderazgo económico mundial y reunificarse con Taiwan. El objetivo de una sola China es uno de los más importantes en la mente de todos los dirigentes actuales y futuros. Aunque parezca desproporcionada la relevancia que se le da a esta cuestión, comparada con la salida de la pobreza de trescientos millones de chinos en los últimos años, es así.
Cada día que pasa, Taiwan tiene menos margen de acción. Ya son más de un millón los taiwaneses que
se mudaron a China continental en pos de mejores oportunidades económicas. Y la economía taiwanesa depende cada vez más de la china. Como siempre, la estrategia china es muy simple: esperar. Todo ocurrirá naturalmente, según piensan.
Los dos objetivos chinos producen distintos efectos en su relación con Estados Unidos, según los tiempos. En el corto plazo, China no está en condiciones de ir a una guerra con Taiwan, que sería respondida por la alianza occidental. Eso lo acerca al país anglosajón, que puede inducir o no a Taiwan a declarar su independencia desafiando al continente. También en el corto plazo China necesita el mercado de consumo norteamericano para sus exportaciones, así como sus inversiones. En el largo plazo, China ya no necesitará tanto de nadie.
¿Cómo será este nuevo mundo bipolar? Lo interesante será ver los movimientos de dos grandes potencias orientales como Japón y Rusia. Japón es un país asiático con
algunos valores confucianistas similares a los chinos. Además, económica y geográficamente está muy ligado a esa nación. Pero Japón también tiene una alianza de medio siglo con Estados Unidos, que lo ha llevado de las ruinas de posguerra a un desarrollo excepcional.
Rusia, en cambio, se siente más europea que asiática. Posee recursos naturales que podrían complementar muy bien las necesidades chinas. Pero la rivalidad entre rusos y chinos incluye enfrentamientos en las invasiones rusa a Afganistán y vietnamita a Camboya. Además, en los últimos quince años Rusia también se ha aliado a Occidente.
¿Y América del Sur? El continente americano no siempre ha funcionado como una región integrada. Hay un dato ineludible: la soja argentina, el mineral de hierro brasileño y el cobre chileno se venden en China.
Todo está por verse. Lo cierto es que el planeta cambió dramáticamente en los últimos veinte años y cada
uno deberá encontrar su lugar en el mundo.
El autor es responsable del área de comercio exterior de la Fundación Grupo Sophia; coautor de libro China: cómo puede la Argentina aprovechar la gran oportunidad.
Fuente: diario La Nación, de Buenos Aires, Argentina; 10 de julio de 2006.
Geografía Económica
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Este artigo baseia-se primariamente numa série de reuniões com trabalhadores, camponeses, organizadores e actividades de esquerda em que participei durante o verão de 2004 juntamente com Alex Day e outro estudantes de assuntos chineses. Faz parte de um documento mais extenso que está a ser publicado como relatório especial pelo Oakland Institute. As reuniões tiveram lugar principalmente e em torno de Pequim, bem como na província Jilin no nordeste, e nas cidades de Zhengzhou e Kaifeng
na província central de Henan. O que ouvimos revela de modo absoluto os efeitos das transformações maciças que se verificaram nas três décadas a seguir à morte de Mao Zedong, com o desmantelamento das políticas socialistas revolucionários executadas sob sua liderança, e um retorno à "estrada capitalista", deixando as classes trabalhadores numa posição cada vez mais precária. Uma polarização em expansão rápida — numa sociedade que estava entre as mais igualitárias — está a verificar-se entre extremos de riqueza no topo e um número crescente de trabalhadores e camponeses na base cujas condições de vida estão diariamente a piorar. A ilustrar isto, a lista da Fortune 2006 dos bilionários globais inclui sete na China continental e um em Hong Kong. Embora seus haveres sejam pequenos em comparação com aqueles nos Estados Unidos e outros lados, eles representam a emergência de um capitalismo chinês amadurecido. A corrupção desenfreada une autoridades do partido e do estado
e administradores de empresa aos novos empresários numa teia de alianças que está a enriquecer uma classe capitalista florescente, enquanto as classes trabalhadores são exploradas de maneiras que nunca tinham sido vistas em mais de meio século.
Os trabalhadores com quem conversámos eram alguns das dezenas de milhões que foram expelidos dos seus antigos empregos em empresas estatais, outrora o pilar da economia, com a perda de virtualmente todas as formas relacionadas de segurança social que faziam parte das suas unidades de trabalho: habitação, educação, cuidados de saúde e pensões, dentre outros. Como estas empresas estatais foram convertidas em corporações orientadas para o lucro, quer pela venda directa a investidores privados quer pela semi-privatização por administradores e autoridades do estado e do partido, a corrupção tornou-se comum.
Os camponeses com quem nos encontrámos estavam a lutar para enfrentar os efeitos a longo prazo da dissolução forçada
das comunas rurais e a introdução do sistema de responsabilidade familiar. Com a abertura do território do país ao mercado global, a venda de terras por responsáveis locais a urbanizadores sem compensação adequadas aos aldeões, e a devastação ambiental desenfreada das áreas rurais, esta política deixou centenas de milhões a lutarem para encontrar um caminho viável de ganhar a vida, enquanto despojados dos apoios sociais colectivos que haviam desfrutado anteriormente. Mais de 100 milhões deles tornaram-se parte da migração maciça para as cidades, à procura de trabalho na construção, nas novas fábricas orientadas para a exportação, ou nos mais sujos e mais perigosos trabalhos, onde lhes faltas mesmo os direitos mais básicos. Para muitos migrantes, as condições estão a deteriorar-se rapidamente quando assentam semi-permanentemente nas comunidades urbanas e quando a idade e os problemas de saúde aumentam.
As classes trabalhadores chinesas não têm sido passivas em face
das suas condições em deterioração e das perdas de direitos ganhos ao longo de décadas através da luta e do sacrifício na revolução socialista. Conflitos de classe e tumultos sociais desencadearam-se a níveis nunca vistos durante décadas. Os trabalhadores, camponeses e migrantes na China de hoje estão a fazer algumas das maiores manifestações do mundo, por vezes envolvendo dezenas de milhares de pessoas e resultando em choques violentos com as autoridades. Mesmo o ministro da Segurança Pública publicou número admitindo que os "incidentes de massa, ou manifestações e tumultos" elevaram-se para 74 mil em 2004, quando foram apenas 10 mil uma década atrás, e 58 mil em 2003 (New York Times, 24/Agosto/2005). A ameaça da crescente instabilidade social representa um aprofundamento do desafio para o topo do partido e dos líderes do estado, e já resultou em mudanças políticas numa tentativa de deter tumultos cada vez maiores. Mesmo a chamada nova classe média de profissionais
e administradores e as fileiras em rápida expansão dos licenciados em faculdades, muitos dos quais prosperaram nas longas década do boom económico, está a fragmentar-se. O custo crescente da educação, que sob Mao era virtualmente gratuito ao longo de todos os níveis de ensino, está a tornar-se proibitivo, especialmente para as classes trabalhadoras. Aqueles que se licenciaram recentemente estão a ter dificuldade crescente em encontrar empregos. O stress do mercado cobra a sua portagem mesmo àqueles que estão numa situação melhor. Os ganhos que o desenvolvimento económico trouxe — especialmente acesso mais vasto a bens de consumo e alimentos e mobilidade acrescida e oportunidades de emprego — estão a ser erodidos para milhões pela divisão de classe cada vez mais vasta e pela insegurança crescente. Em consequência, a China está a entrar num período de aguçamento da luta de classe e de incerteza política que não será facilmente resolvido. Para as classes trabalhadoras, o
caminho em frente será muito difícil, e a revitalização da esquerda, embora altamente significativa, está ainda num estágio muito incipiente. Este ensaio explora estas complexidades e possibilidades. Geralmente omiti os nomes de pessoas e organizações, para sua protecção.
CONFLITO E UNIDADE
À superfície, pelo menos, pareceria que as condições de convergência de trabalhadores urbanos, migrantes e camponeses — e mesmo muitos membros da nova classe média — proporcionariam a base para uma vasta unidade de luta contra aqueles que estão a explorá-los sob as reformas de mercado capitalistas e a abrir a China às forças económicas globais. Mas, tal como em situações semelhantes nos Estados Unidos e por toda a parte do mundo, a unificação das classes trabalhadores é mais facilmente concebida na teoria do que realizada na prática. Preconceitos antigos, especialmente a baixa estima que muitos chineses urbanos tem para com o campesinato, morrem dificilmente,
agravado por novas formas de competição provocadas pela migração maciça das áreas rurais para as cidades, e a manipulação por aqueles no poder, que usam os métodos consagrados de dividir e conquistar para lançar uns grupos contra os outros.
Um exemplo: quando perguntado se os trabalhadores de Pequim sentiam que os migrantes estavam a tomar os seus empregos, um activista com quem conversámos respondeu: "Sim, especialmente entre aqueles que são despedidos, há um pouco deste sentimento". Muitos deles olham de cima para baixa a população migrante. Durante os trabalhos de limpeza após uma grande tempestade, alguns trabalhadores urbanos observaram: "Isto é a espécie de trabalho que os migrantes estão aqui para fazer, eles nunca vêm qualquer dinheiro em casa". Como que a confirmar esta imagem, o New York Times (03/Abril/2006) relatou acerca de limpadores migrantes no aterro sanitário municipal de Shangai, o qual trabalhava para pagar as taxas 10 mil yuan (US$ 1250)
da escola média da filha, e 1000 yuan (US$ 125) para a educação primária de uma segunda. Os sentimentos, entretanto, são mútuos, Os migrantes, por sua vez, dizem coisas semelhantes, tais como "Aquele merece ser um trabalhador despedido".
Num padrão demasiado familiar nos Estados Unidos — onde raça e etnicidade, assim como o status de imigrante, entram na composição — as tentativas do governo de ajudar os migrantes a obterem salários atrasados e os outros direitos que merecem são vistas por alguns trabalhadores como favoritismo. Os media actuam sobre estas divisões e promovem más relações entre os diferentes grupos, dizem que os proletários urbanos apenas querem empregos com estrangeiros, enquanto afirmam que migrantes estão desejosos de trabalhar por "nada", e tentam obter o despedimento de trabalhadores para imitá-los, o que conduz ao ressentimento. É, entretanto, o fosso crescente entre rendimentos urbanos e rurais — agora de 3,3 para 1, "mais alto do que nos
Estados Unidos e um dos mais elevados do mundo — que proporciona o combustível para tal manipulação (New York Times, 12/Abril/2006)
A agudeza destas divisões evidenciou-se na experiência dos trabalhadores numa fábrica de equipamentos de transmissão eléctrica em Zhengzhou, onde se verificaram grandes choques em 2001. Ali, como a empresa estava a ser liquidada e encerrada, a polícia prendeu protestários à noite, e eles avariaram e levaram embora a maquinaria como ladrões. Eles também introduziram camponeses a cinquenta yuan por dia para carregar para o equipamento para fora. Isto resultou numa longa luta. Em parte para evitar a reacção pública a usar a polícia da cidade para fazer o seu trabalho sujo, foram contratados camponeses como marginais; utilizando capacetes, eles utilizaram armas para espancar os trabalhadores. Uns trinta camiões com cinco centenas de camponeses fura-greves foram trazido para dentro, um exemplo do que aconteceu por toda Zhengzhou. Um
activista relatou que quando trabalhadores na fábrica tocaram um sino, "toda a gente veio para fora", o que levou a uma batalha de quatro horas dos camponeses contra os trabalhadores em 24/Julho/2001. Estes últimos venceram naquele dia, pois trabalhadores de outras fábricas concentraram-se para ajudar — até 40 mil no conjunto. Apesar de oito trabalhadores terem sido presos e acusados de destruir propriedade, eles também tiveram apoio legal e os capitalistas perderam novamente. Como colocou um trabalhador, referindo-se aos direitos que tinham na era pré-reforma: "nossas leis, as leis de Mao" eram apoiadas. "Havia tanta gente que o governo teve medo".
A dimensão da acção do povo levou as autoridades a uma pausa, mas sob a pressão dos capitalistas os trabalhadores foram presos outra vez, desta vez pela polícia de segurança pública para contornar os tribunais, e houve um combate de dez dias com os camponeses. Deste modo, eles utilizaram camponeses como tropa de choque
para expulsar os trabalhadores da fábrica, e venderam tudo, despedindo 5600 pessoas. A seguir deitaram os edifícios abaixo, incluindo habitações de trabalhadores, e deram a terra a um urbanizador privado, que construiu uma loja e casas de luxo. Agora, sem trabalho ou habitação, toda a gente está receosa de continuar a lutar. A própria polícia por vezes torna-se violenta (goons), tirando os seus uniformes e actuando mais como uma gang que está a proteger os proprietários capitalistas, até utilizando facas. Numa cerâmica, um ajuntamento quase sovou um líder dos trabalhadores até à morte, mas as autoridades deixaram que isto acontecesse e ignoraram queixas posteriores.
Deste modo, a polícia e outras agências do governo não só atacam directamente e reprimem aqueles que trabalham nas empresas de propriedade estatal como põem frente a frente os vários segmentos das classes trabalhadoras, uns contra os outros. Apesar da necessidade da unidade, tais experiências
tornam muito difícil ultrapassar os preconceitos e divisões já existentes. Como disse um trabalhador activista da companhia de equipamento eléctrico: "Camponeses e operários deveriam ser uma família — temos de combate-los, mas deveríamos trabalhar juntos". Aqueles em lados opostos actuam em função dos seus interesses a curto prazo. Na fábrica, mesmo o chefe da polícia disse que não queria fazer o que fez, mas estava sob pressão. Um trabalhador disse-lhe que "ele era como um cão". E ele respondeu: "Sim, mas seu não morder você agora eles me arrancarão a pele". A substituição de empresas estatais pela iniciativa privada agrava as divisões. As novas fábricas que estão a ser construídas na região obtêm os seus trabalhadores principalmente entre os rurais, pagando-lhes salários muito baixo e não lhes proporcionando habitação ou benefícios. Além disso, como colocou um trabalhador, ao contrário dos EUA, aqueles que são despedidos das empresas estatais na China não podem obter
tarefas em serviços pois os camponeses é que são utilizados para isso, uma vez que são baratos e fáceis de controlar. Apesar de um desejo de trabalhar em conjunto, portanto, tais condições conduzem inevitavelmente ao ressentimento entre segmentos das classes trabalhadoras.
Apesar de tais divisões e conflitos, há esforços em curso para elevar a um nível mais alto a unidade entre segmentos mais vastos dos trabalhadores urbanos e construir laços mais estreitos entre eles e os camponeses, tanto aqueles que permanecem na agricultura como aqueles que migram para as cidades. As manifestações em torno das fábricas de equipamento de transmissão eléctrica, de papel e têxtil de Zhengzhou, e uma greve em 1997 de 13 mil motoristas de táxi daquela cidade, mostram que dezenas de milhares de trabalhadores em muitas empresas e sectores, bem como membros da comunidade, concentraram-se em apoio àqueles que se opõem à privatização, à perda de empregos benefícios, ou a impostos e taxas
mais altos. No entanto, o padrão mais comum por toda a China é aqueles que trabalham em fábricas individuais terem de confrontar seus empregadores, e os responsáveis do governo que lhes estão associados, por si próprios. Muitas vezes, estas confrontações — que podem incluir acções tais como deitar-se sobre carris do caminho de ferro e bloquear auto-estradas, ou cercar e ocupar escritórios, e além disso encerrar negócios habituais para cidade — acabam com pequenos pagamentos efectuados uma só vez aos trabalhadores afectados, de forma alguma suficientes para proporcionar-lhes qualquer apoio a longo prazo, mas suficientes para pacificar a sua exigência imediata por alguma espécie de compensação. Numa tentativa de ir para além desta forma relativamente isolada de luta, que na maior parte dos casos demonstrou-se inadequada para travar a marcha geral da privatização, do desemprego e a perda de serviços e regalias, trabalhadores das diferentes empresas em Zhengzhou principiam a
unir-se. Em Kaifeng — onde a maior parte das empresas estatais fechou, deixando 100 mil desempregados — trabalhadores também exprimiram a necessidade de maior unidade a fim de ter êxito. Só recentemente, os das diferentes fábricas — incluindo os muitos que já perderam os empregos e os poucos que actualmente ainda estão empregados — começaram a actuar em conjunto, mantendo reuniões com representantes de cada uma das empresas, e organizando protestos conjuntos com participantes de todas as fábricas. Os activistas com quem conversámos ali estavam a planear uma grande manifestação de trabalhadores de todas as fábricas da cidade para aquele ano.
Mas as perspectivas de tais acções unitárias são incertas. Há muitas divisões remanescentes dentro do proletariado urbano — económica, geracional e mesmo política — com alguns mais compreensivos para com as "reformas" e outros, inclusive do governo, mantendo a perspectiva socialista. Até um parque de Zhengzhou que visitámos, no
meio de um distrito de operários, está dividido fisicamente entre agrupamentos de trabalhadores e aposentados de direita e de esquerda, com os primeiros a dominarem certas áreas, especialmente durante o dia, e os últimos mais predominantes em outras partes, particularmente à noite. Como experimentámos quando parámos brevemente para conversar com alguns dos muitos que vinham ali todos os dias para descanso, os debates podem ficar bastante acesos, e às vezes até mesmo vagamente ameaçadores. É semelhante às perspectivas de unidade entre os trabalhadores e os camponeses, com os migrantes a desempenharem uma espécie de papel intermediário. Há um desejo de ficarem juntos, mas diferenças tanto nas suas condições como no seu tratamento pelo governo trabalham contra tais níveis mais elevados de unificação.
Com as reformas, houve também uma reversão parcial de fortunas. Em ambas as cidades e na zona rural, aqueles com que conversámos declararam que hoje, num contraste agudo
com situação durante a era socialista sob Mao, alguns camponeses estão realmente melhor do que muitos dos trabalhadores urbanos. Eles ainda podem ser pobre e a lutarem pela sobrevivência — a maior parte das famílias camponesas empobrecidas permanecem os piores de todos — mas pelo menos têm um bocado de terra sobre a qual podem cultivar algum alimento. Mesmo os migrantes mais pobres podem retornar a uma aldeia se as coisas ficarem muito duras nas cidades. Para os trabalhadores urbanos não qualificados, contudo, especialmente aqueles foram despedidos, não há verdadeiramente nada a perder — eles foram reduzidos novamente à condição proletária clássica, destituídos de todo acesso aos meios de produção, e literalmente abandonados para morrerem de fome sem qualquer espécie de apoio externo. Se tiverem um parente doente, ou mesmo um filho para o qual devem pagar taxas escolares, sua situação pode ser desesperadora. Apenas aqueles com mais qualificações ou que são capazes de
começar alguma espécie de pequeno negócio estão em situação mais igual à dos camponeses com a sua terra.
Em consequência, a unidade nas acções destas duas classes também é difícil de alcançar. Frequentemente, protestos e manifestações verificam-se quase simultaneamente tanto nas cidades como nas zonas rurais circunvizinhas. Ouvimos acerca de tais eventos paralelos dentro e em torno de Zhengzhou e Kaifeng durante o curto período que estivemos ali. Nesta última cidade, vinte trabalhadores haviam acabado de ser detidos numa fábrica, enquanto camponeses estavam a protestar no mesmo dia no município vizinho — levantando-se e fazendo "actividades más", como colocou um trabalhador — e danificaram edifícios do governo e bloquearam auto-estradas porque haviam sido trapaceados sobre o terreno para uma estrada. Mas não havia ligação entre estes eventos virtualmente simultâneos, e ali ainda não havia protestos conjuntos de trabalhadores e camponeses.
Além disso, há
diferenças até nas formas de reacção do estado a manifestações destas duas classes. Os trabalhadores da cidade enfrentam uma repressão particularmente clara das autoridades locais, porque as suas lutas são mais visíveis para o público, contestadoras da sede do poder urbano, e desafiadoras directas do próprio núcleo das reformas — a privatização das empresas e a formação da nova classe capitalista. Como afirmou um trabalhador, ele e aqueles como ele estão furiosos, e "precisam juntar-se rebelar-se — mas ao contrário da América eles não são considerados nem mesmo para dizer algo acerca da sua situação". Ainda assim, eles "não têm medo de morrer, uma vez que nada têm" — e assim manter-se-ão na luta.
Acções trabalhistas em grande escala estão a crescer por todo o país, por vezes a ganharem vitórias locais, mas frequentemente acabando com a detenção e aprisionamento dos líderes. Em contraste, enquanto pelo menos no papel a melhoria das condições rurais e agora política
oficial do governo, o esmagamento de protestos camponeses pode ser ainda mais brutal, porque eles são invisíveis, a menos que as acções sejam numa escala suficientemente grande para serem notícia púlbica — tal como a morte de uns vinte aldeões em Dongzhou, na província de Guangdong, em Dezembro de 2005, por protestarem contra compensação inadequada pela terra tomada para uma central eléctrica. Apesar destas divisões e barreiras, há um sentimento de que as classes trabalhadoras nas cidades e nas zonas rurais podem em breve encontrar lanças, pois os camponeses tornam-se cada vez mais furiosos e as suas condições convergem com aquelas dos trabalhadores urbanos, e como migrantes envelhecem e enfrentam uma situação deteriorada. Activistas a ajudarem a organizar todas as classes trabalhadoras estão a tentar promover o movimento rumo à unificação, mas é um processo longo e difícil, que apenas começou a transpor o fosso entre elas.
O RETORNO DA ESQUERDA
A
possibilidade de tais níveis mais elevados de unidade é favorecida pela presença entre os camponeses, migrantes e a classe trabalhadora urbana daqueles com profunda experiência na luta pelo socialismo na China e conhecimento do marxismo-leninismo-pensamento de Mao Zedong. Este legado histórico hoje tem significado fundamental para o renascimento da esquerda chinesa. Como disse um antigo Guarda Vermelho em Zhengzhou, o entendimento de uma "luta de duas linhas", uma demarcação clara entre o socialismo da revolução e o capitalismo do presente, está agora a revelar-se primariamente a partir das próprias classes trabalhadoras, e não principalmente dos intelectuais. Ela toma uma forma de anti-corrupção, em particular — não apenas no sentido estreito de oposição a malfeitorias financeiras e subornos, embora isto seja parte daquilo, mas como uma tentativa mais vasta de bloquear a aliança dos responsáveis do estado e do partido com o administradores e empresários para a conversão
completa dos meios de produção na propriedade privada dos novos capitalistas emergentes e de reverter os ganhos socialistas adquiridos pelos trabalhadores e camponeses na era revolucionária. A teoria, espírito e prática da revolução são mantidos vivos pelos activistas, notavelmente em Zhengzhou e outras áreas, as quais foram centros do movimento comunista cuja tradição remonta à década de 1920. Naquela cidade, um duplo pagode, construído como torre em 1971, ergue-se no principal cruzamento para assinalar as mais de uma centena de trabalhadores mortos na greve geral de 1923 liderada pelos comunistas no caminho de ferro Beijing-Hankou, que foi liquidada de forma selvagem pelo senhor da guerra regional. O legado da era Mao também é mantido vivo aqui, e o nível de consciência do trabalhador é muito elevado, o que leva à luta das duas linhas.
Dentre os mais notáveis aspectos que emergiram das discussões com os trabalhadores naquela cidade estava o senso de direito que
eles sentem nas fábricas onde costumavam trabalhar. Quaisquer que sejam os limites para a propriedade social e direitos de participação que a classe trabalhadora tenha nas empresas estatais — as quais demonstraram-se inadequadas como protecção contra a reforma das expropriações dengistas — não há dúvida de que eles sentem fortemente que aquelas fábricas eram num certo sentido básico "suas". Como explicou um deles, a fábrica de equipamento de transmissão eléctrica foi "construída com o suor de trabalhadores" e eles não querem que seja tomada pelos capitalistas e privatizada. Ela pertence ao conjunto do país e era parte da acumulação económica colectiva de toda a classe trabalhadora. Sob Mao, os trabalhadores também têm algum controle sobre as fábricas, eles "podiam apresentar ideias e serem ouvidos". Isto chegou ao máximo durante a Revolução Cultural. Então "eles era os líderes, a classe trabalhadora representava-se a si própria naquele tempo" — mas agora ninguém a ouve, e
eles não têm poder. Reiteradamente, estes trabalhadores exprimem o seu senso de perda de direitos em consequência do roubo efectivo da sua propriedade colectiva, construída ao longo de toda uma vida de trabalho, e o seu despojamento de todos os direitos de participação que haviam exercido anteriormente. Colocando este entendimento num contexto teórico mais geral, um trabalhador de Zhengzhou explicou que o actual sistema de "capital burocrático" é um problema político, não um problema basicamente da economia — uma análise que poderia ter vindo directamente de O que fazer?, de Lenine. "Parece económico à superfície, mas é realmente uma luta entre capitalismo e socialismo", primariamente uma questão de política. A China, afirma ele, "não é como os Estados Unidos, onde nunca houve socialismo. Os trabalhadores mais velhos entendem este contexto histórico. A maior parte veio da era de Mao e da Revolução Cultural. Eles conheceram o Pensamento de Mao Zedong, e sua geração
quer trazer a China de volta ao "caminho de Mao". Isto é parte da luta internacional para proteger o caminho socialista".
Este trabalhador gostaria que a luta da classe trabalhadora chinesa, e a razão porque é importante retornar outra vez à estrada do socialismo, fosse melhor entendida no Ocidente. É uma longa luta. Ele tem esperança de que os trabalhadores na China se moverão lentamente de volta a este caminho, caso em que acabariam por vencer. Mas também advertiu que se o actual movimento não alcançar um nível mais elevado dentro em breve, os trabalhadores mais jovens verão isto apenas como uma luta económica por "melhores condições". Esta é a herança do período de reforma anti-socialista, e das afirmações de Deng Xiaoping — como aquela de "ficar rico é glorioso". Elas estão a arruinar o entendimento dos trabalhadores mais jovens. "A maior parte deles estão receosos até de reunir e de discussões como esta" — ouvimos estes sentimentos expressos mais do que uma
vez pelos trabalhadores mais velhos.
É em parte por esta razão que aqueles que ainda se dedicam à luta pelo socialismo descobriram outros meios de transmitir a sua consciência e experiência, utilizando formas culturais, e não apenas as políticas e económicas, para manter viva a herança da revolução e transferi-la às novas gerações. Num canto de um parque que visitámos no centro do distrito operário de Zhengzhou, trabalhadores e membros das suas famílias juntavam-se à noite para cantar as antigas canções revolucionárias. Na noite de um dia de semana em que estivemos ali, uma centena ou mais — desde aposentados mais velhos a adolescentes e mesmo criança — num cântico muito animado, acompanhado por um grupo de músicos, e conduzido por um maestro dinâmico. Contaram-nos que nos fins de semana, "um número muitas vezes maior" costuma estar presente, até de um milhar ou mais. Como colocou um dos trabalhadores que encontrámos no parque, "O significado político destes
cânticos é mostrar nossa oposição ao Partido Comunista — aquilo que ele se tornou — e utilizar Mao para confrontá-lo e elevar o nível de consciência".
Este mesmo espírito histórico também atravessa as lutas práticas na cidade. Quando a greve na fábrica de papel começou em 2000 — ainda o "modelo" para a resistência à privatização nesta área — os trabalhadores utilizaram os métodos da "Revolução Cultural", segundo um activista, expulsando os administradores, tomando a fábrica, impedindo a remoção do equipamento e instituindo o controle operário. Após muitas peripécias, parte da fábrica ainda permanece nas mãos dos trabalhadores, mas ela está a lutar para sobreviver não só na economia de mercado como em relação às tentativas oficiais de miná-la economicamente. Como explicou seu líder, depois de ter sido preso, adoptaram esta forma específica de luta "porque os princípios da Comuna de Paris viverão para sempre". Uma perspectiva histórica de esquerda semelhante foi
vista na luta da fábrica de equipamento eléctrico, onde um dos slongas era, "Trabalhadores querem produzir e viver", mas também ergueram uma bandeira a dizer: "Defender continuamente o Pensamento de Mao Zedong". Outras acções dos trabalhadores tomam uma forma ainda mais abertamente política.
No mesmo ano da tomada da fábrica de papel começou uma celebração do aniversário da morte de Mao. Em 2001 ela reuniu dezenas de milhares de trabalhadores — com 10 mil polícias a cercá-los — e houve uma grande greve e confrontação. Hoje, os trabalhadores estão proibido até de irem à pequena praça onde se ergue a última estátua de Mao na cidade, tanto na data do seu nascimento como da sua morte. Mas eles vão de qualquer forma e confrontam a polícia. Foi ali que, em 9 de Setembro de 2004, um trabalhador activista, Zhang Zhengyao, divulgou um folheto acusando o Partido Comunista e o governo de abandonarem os interesses das classes trabalhadoras e tomarem parte na corrupção
generalizada. O seu panfleto também denunciava a restauração do capitalismo na China e apelava a um retorno ao "caminho socialista" defendido por Mao. Tanto ele como o co-autor do panfleto, Zhang Ruquan, foram presos depois de a polícia vasculhar seus apartamentos. Os seus casos tonaram-se longe uma cause célèbre na China, com muita gente de esquerda de todo o país a viajarem a Zhengzhou para protestar do lado de fora do julgamento não público dos dois, em Dezembro de 2004, onde cada um deles foi sentenciado a três anos de prisão. Juntamente com Ge Liying e Wang Zhanqing — que colaboraram na redacção e impressão do folheto, e que também foram incomodados pela polícia — estes trabalhadores activistas ficaram conhecidos como "os 4 de Zhengzhou".
Uma carta-petição, iniciada nos Estados Unidos, ao presidente Hu Jintao e ao primeiro-ministro Wn Jiabao, apelando à libertação dos mesmos, conseguiu mais de duas centenas de assinaturas — cerca da metade de entro da
China e outra de fora. Isto foi uma demonstração sem precedentes de apoio a trabalhadores de esquerda, especialmente considerando o potencial risco para aqueles que a assinaram, unindo intelectuais chineses e activistas com os seus pares internacionais. Embora o governo não respondesse directamente à carta, Zhang Ruquan foi posteriormente libertado da prisão, ostensivamente por razões de saúde, o que alguns activistas acreditam que tenha sido pelo menos em parte um resultado da pressão gerada pela petição e outras actividades de solidariedade relacionadas, tais como a inserção de informação e análises, por vezes extensas. em sítios web de esquerda.
Os 4 de Zhengzhou representam a recusa dos trabalhadores da China de aceitar passivamente as novas condições que lhes são impostas pelo partido e pelo estado, a persistência da ideologia de esquerda e o activismo nas suas fileiras, e o crescente apoio que eles estão a reunir junto a outros da sociedade e mesmo no
estrangeiro. Mas este caso também salientou as divisões assim como o renovado fortalecimento da esquerda chinesa. Foram principalmente os mais jovens de esquerda que tomaram a liderança ao assinar a carta-petiçaõ pelos 4 de Zhengzhou, utilizando a Internet para faze-la circular amplamente, ao mesmo temo que criticavam aqueles dentre os mais velhos que, pelo menos a princípio, haviam hesitado. Para a geração jovem, a solidariedade com trabalhadores que estavam a tomar uma posição pública à esquerda tinha prioridade sobre a preocupação em ter exactamente a linha justa. Para os de esquerda mais velhos, as divisões passadas e as lutas sobre ideologia e política muitas vezes bloqueavam a unidade para a acção comum. No seu caso, é mais difícil por de lado conflitos históricos a fim de enfrentar as novas condições do presente.
Estas atitudes diferenciadas reflectem uma análise aceite amplamente dos três principais agrupamentos encontrados entre os chineses de esquerda:
(1) a "velha" esquerda que é constituída em grande medida por aqueles que ascenderam nas fileiras do partido e do estado e que, depois de em muitos casos inicialmente abraçarem pelo menos partes das reformas de Deng Xiaoping, moveram-se para a oposição quando a natureza capitalista daquelas políticas foi-se tornando cada vez mais aparente; (2) "Maoistas" que permaneceram firmes no seu apoio aos programas da era revolucionária do socialismo chinês sob Mao, e têm sua base popular basicamente entre os trabalhadores e camponeses, e, (3) a "nova" esquerda que, como a sua congénere no Ocidente — especialmente durante a década de 1960 — tende a ser composta pela geração mais jovens, centrada principalmente nas universidades e novas ONGs, que são abertas a um amplo leque de marxistas, assim como de modo geral a tendências sociológicas e social democratas, mas que estão muitas vezes mais desejosas de se alinharem com os seguidores de Mao do que aqueles entre a "velha" esquerda. As
linhas entre estes três grupos, contudo, não são de modo algum rígidas ou mutuamente excludentes. "Velhos" de esquerda podem ser encontrados por toda a sociedade, tanto dentro como fora do governo, enquanto muitos "maoistas" e mesmo alguns da "nova" esquerda trabalham dentro do partido e do estado. Quaisquer paralelos com categorizações de esquerda — especialmente a "nova" esquerda — no Ocidente não deveriam ser exageradas, pois cada uma delas tem a sua própria característica chinesa específica que reflecte a história das lutas aqui. Em 2001, uma altamente inabitual reunião das quatro diferentes tendências políticas — organizada por um antigo líder Guarda Vermelho em Zhengzhou que esteve preso durante muitos anos após o começo das reformas, e ainda é um activista — foi efectuada em Beidaihe, a cidade a beira mar onde a liderança de topo reúne-se no verão para planear estratégia. Enquanto concordaram no seu desacordo sobre se se deve opor a todas as reformas políticas,
foram unânimes na crítica a Deng Xiaoping pela extensão da recapitalização que ele introduziu.
Mais recentemente, um fórum de quadros muito elevados de vários institutos, universidades e agências reuniu-se para desenvolver uma análise marxista da actual situação — com o presidente da Universidade de Beijing a abrir a sessão. A experiência era transformar isto num encontro permanente. Os antigos membros do partidos que estavam por trás da organização desta reunião explicaram que aquilo não poderia ter acontecido sem pelo menos algum apoio de alto nível. Em Zhengzhou, um fórum semelhante liderado por gente de esquerda e "liberais" — uma expressão que na China de hoje muitas vezes inclui aqueles que são mais radicais do que os seus confrades no Ocidente — tem-se reunido na última década, juntando pessoas que mantêm um amplo leque de visões. O seu terreno comum é um senso forte de que a actual direcção da sociedade chinesa e das políticas oficiais não é sustentável.
Assim, apesar dos seus diferentes antecedentes e abordagens, ali há muitos que caem aproximadamente dentro de todas as três categorias de esquerda — "velhos", "maoistas" e "novos" — tanto dentro como fora dos corpos do partido, do estado e das instituições, e não apenas as suas ideias como também os seus vários fóruns e encontros, sobrepõem-se, interpenetram e influenciam uns aos outros, e atraem mesmo aqueles que não participam das suas ideologias. Dentro das novas ONGs há algumas com uma forte base de esquerda, as quais estão a trabalhar em assuntos práticos como proporcionar escolas para aldeias rurais empobrecidas e promover uma sociedade mais voltada para o trabalhador e o camponês do que o fazem as fundações dominantes. Este retorno da esquerda reflecte o crescente fortalecimento da luta popular entre as classes trabalhadoras, a qual tornou impossível ir mais além a afim de evitar chamar a crise social na China e a ameaça de que esta apenas seria aprofundada sem uma
mudança radical nas actuais políticas. Isto reabre a possibilidade, ainda que possa parecer distante do ponto de vista actual, de uma renovação do socialismo revolucionário da era de Mao.
Um exemplo gritante desta nova abertura à esquerda é uma carta a Hu Jintao de um grupo de "membros veteranos do PCC, quadros, pessoal militar e intelectuais", em Outubro de 2004, chamada "Nossas visões e opinião do actual panorama político". Embora em tom mais respeitoso do que o folheto dos 4 de Zhengzhou, e dando algum crédito positivo às "reformas" pelos seus ganhos económicos, a carta faz um paralelo muito próximo dos mesmos temas daquela declaração e, com os seus apelos à acção correctiva e por um retorno ao caminho socialista e afastamento da "estrada capitalista", é igualmente militante na sua crítica à situação presente. Não está claro que houve qualquer relação directa entre estes dois documentos. Mas gente de esquerda na China continuava a reunir assinaturas em
apoio dos 4 de Zhengzhou, e o ímpeto com que partes da "nova" esquerda abraçaram a sua causa e a defesa de tais activistas "maoistas" está a abrir mais espaço para os "velhos" da esquerda reafirmarem também as suas críticas tradicionais — tal como a carta a Hu. Esta disposição de veteranos das antigas lutas revolucionárias de se manifestarem assim abertamente contra as actuais políticas do partido e do estado dá a medida do novo clima que está a emergir. Ainda em 1999, nossas discussões com gente da esquerda mais velha deixavam claro quão restringidos eles ainda sentiam que tinham de estar face à atmosfera prevalecente da reforma. Agora, isto é claro, muitos destes antigos líderes e aqueles em posições semelhantes sentem-se "libertos" para exprimir suas opiniões mais abertamente. Não é apenas em teoria, portanto, que o passado continua e informar o presente, e que as acções de uma parte da esquerda têm um impacto sobre outras, mas também na prática.
Nuns poucos
casos, pequeno em número mas por vezes bastante grande na sua influência, as formas socialistas de organização da era Mao continuam a ser implementadas hoje, embora necessariamente de forma modificada para atender as novas condições da economia de mercado. Assim, mesmo agora cerca de 1 por cento das aldeias rurais, representando vários milhares no total — os números variam conforme quem está a fazer a medição e conforme o que consideram como critério — nunca abandonaram plenamente a colectivização da era da comuna. Mesmo umas poucas que implementaram as reformas Deng recuaram outra vez para a produção colectivizada, tornando-se um modelo para outros explorarem alternativas para a economia rural. O mais proeminente exemplo de manutenção dos objectivos e métodos da era socialista, Nanjiecun (Aldeia da Rua do Sul), uma cidade "maoista" na Província de Henan a uma hora ou mais de Zhengzhou, a qual começou a recolectivizar 15 a 20 anos atrás, continua a funcionar como uma forma
de comuna para todos os seus membros, com habitação, cuidados de saúde e educação essencialmente gratuitos — pagando mesmo a despesas de ensino superior para os seus jovens. Ela também apoia as práticas igualitárias da era socialista, tais como pagar aos seus administradores não mais do que os salários de um trabalhador qualificado. Também permanece dedicada aos objectivos políticos de Mao, cujas fotos e dizeres, juntamente com imagens de outros líderes revolucionários — incluindo Marx, Engels, Lenine e Staline — são ostensivamente mostradas por toda a aldeia. Aqui, complexos habitacionais de vários pisos, com luz e apartamentos arejados que são proporcionados a cada família membro, são cercados por imaculadas avenidas limpas, passeios e jardins. A aldeia tem uma escola atraente e um centro de cuidados infantis. Tal ambiente é virtualmente único na China — fora dos novos complexos habitacionais dos urbanos ricos — e choca-se agudamente com o ambiente rural mais típico
encontrado para além dos seus muros e portões.
Mas mesmo com tais êxitos, há muitas contradições nas práticas de Nanjiecun, pois retira do investimento estrangeiro muito do seu financiamento, e utiliza camponeses das áreas circunvizinhas — alojados em dormitórios decentes, mas decididamente menos confortáveis — como a força de trabalho principal nas suas "empresas da cidade", as quais estão plenamente integradas na nova economia capitalista. Recentemente, segundo activistas em Zhengzhou, incluindo dois que nos acompanharam numa visita à aldeia, Nanjiecun enfrentou sérias dificuldades financeiras, devido em grande parte à super-expansão para áreas de expansão novas e não familiares. Mas apesar de tais limitações — inevitáveis numa situação em que está cercada por um mar de capitalismo e deve competir na economia de mercado a fim de sobreviver — Nanjiecun serve como um ponto focal para aqueles que ainda acreditam que outro rumo é possível para a China rural. Chegam
delegações diariamente — por vezes autocarros cheios de camponeses ou operários — de toda a parte do país para estudar como eles continuaram a praticar tanto a produção como a distribuição colectivizada. Também receberam a benção, e portanto a protecção, das autoridades provinciais de Henan. A carta aberta de 2004 dos veteranos de esquerda do partido a Hu Jintao apontava para Nanjiecun como um modelo do que ainda é necessário hoje nas áreas rurais. Mas mesmo onde a herança da era Mao não é tão proeminente, suas experiências e conceitos permanecem como o pano de fundo contra o qual as condições do presente estão constantemente a ser comparadas e analisadas.
Um grande desenvolvimento aparente no verão de 2004 foi um novo movimento rumo à formação de cooperativas agrícolas, num esforço para melhorar o isolamento e insegurança das unidades agrícolas de responsabilidade familiar em face do mercado global. Estas cooperativas são destinadas primariamente a alcançar
algumas economias de escala no mercado — através da compra colectiva de fertilizantes, por exemplo, e maior alavancagem na negociação de preços para suas produções — bem como a oferta de apoio financeiro e segurança aos seus membros. Tais esforços são um movimento significativo de afastamento das políticas individualistas do "nade ou afogue-se" do período da reforma, mesmo que não possam resolver todos os horrendos aspectos da situação enfrentada pelo campesinato como um todo. Embora não seja um retorno às comunas, e represente no máximo uma espécie de semi-recolectivização, elas continuam a inspirar-se não só nas experiências de movimentos cooperativos primitivos anteriores à revolução como também em conceitos da era Mao, nos quais os membros costumam estar bem versados. Não é inabitual, portanto, encontrá-los como responsáveis de uma cooperativa, como aquela que visitámos próximo de Siping, a noroeste da província Jilin, que apresentou uma análise muito pormenorizada das
classes rurais e urbanas e sua situação hoje, ou o membro jovem da mesma que apresentou uma longa e profunda discussão do país de um ponto de vista socialista, não só internamente como na sua relação com o resto do mundo. As classes trabalhadoras chinesas não só têm coisas a ensinar aos intelectuais urbanos acerca do mundo real do trabalho e da exploração, pois também têm mais experiência na implementação do socialismo na prática. E em muitos exemplos elas estão mais plenamente desenvolvidas no seu entendimento e aplicação das bases do marxismo-leninismo-pensamento de Mao Zedong do que alguns dos jovens mais instruídos de esquerda.
Ao mesmo tempo, a rápida polarização da sociedade está a mover muitos para dentro da nova classe média, pouco importando a sua ocupação ou posição específica, em condições parecem mais próximas daquelas enfrentadas pelos operários e camponeses, o que leva a um crescimento da base para a unidade entre eles, e ajuda a criar uma base de
massa para o renascimento da esquerda. O sistema capitalista está a devorar-se a si próprio e a gerar rapidamente grupos cada vez mais vastos de alienados. Hoje, até muitos dos quadros do Partido Comunista nas antigas empresas estatais acabaram por ser chutados depois de as terem ajudado a vendê-las a investidores privados. Eles não são mantidos pelos novos proprietários capitalistas, uma condição que um trabalhador descreveu como "queimar a ponte que você acabou de cruzar". Em consequência, muitos deles agora também estão desempregados e entendem melhor o que é realmente a "marquetização" — "isso elevou os seus níveis de consciência".
Tais entendimentos novos resultantes das mudanças de condição nas suas próprias vidas são comuns. Ouvimos mais de uma estória daqueles que inicialmente haviam abraçado as reformas dengistas — tais como uma académica progressista com quem conversámos em Beijing — que agora estão a mover-se outra vez em direcção a Mao e mesmo a
reexaminar a própria Revolução Cultural. Em alguns exemplos, isto é um resultado directo do seu "aprendizado a partir das massas". Tal é o caso de um proeminente mas anteriormente bastante conservador estudioso das áreas rurais, cuja "conversão" aconteceu porque, quando visitava os camponeses, nunca ouvia uma palavra de críticas ao Mao, mas muitas a Deng, forçando-o a reexaminar suas próprias atitudes em relação ao passado. Mas tais reavaliações têm raízes muito mais profundas do que apenas experiências pessoais. Para muitos, incluindo a elite intelectual, as várias tendências ideológicas que floresceram desde o princípio da era da reforma — desde as lógicas da marquetização e privatização com características especiais chinesas propostas pelos propagandistas do estado e do partido até conceitos liberais ocidentais encontrados principalmente em círculos académicos e ONGs — estão a demonstrar-se inadequadas para explicar o que está a acontecer na China de hoje.
Como
colocaram em conversas separadas tanto um antigo Guarda Vermelho como um jovem activista intelectual, tendo "tentado tudo", aqueles que inicialmente haviam favorecido as reformas políticas, mas que estão agora às apalpadelas para entender o que está a acontecer, "têm de retornar à luta das duas linhas e à Revolução Cultural para tratar do presente", porque eles tentaram outras abordagens e estas não proporcionam uma explicação.
Enquanto há apenas uns poucos anos os problemas enfrentados pela sociedade chinesa pareciam ser específicos e, portanto, ainda passíveis de serem facilmente "reparados" — através, por exemplo, de uma campanha "anti-corrupção" — hoje há um sentimento crescente de que eles são sistémicos e intratáveis, exigindo uma transformação muito mais fundamental que o capitalismo e o mercado global não tem capacidade de executar, e que o estado e o partido, tal como actualmente constituídos, não serão capazes de resolver. Em resultado, a crítica do
caminho capitalista que Mao propôs durante a Revolução Cultural parece outra vez cada vez mais relevante nos dias de hoje, pois estas ideias, avançadas nos últimos anos da sua vida, continuam a proporcionar a espécie de análise profunda do actual sistema que conduz às raízes das suas contradições crescentes, e apontam para soluções mais profundas do que simples tentativas de melhoria. Muitos tabús anteriores entre os intelectuais começam portanto a cair.
Mesmo a Revolução Cultural, ainda um anátema para a maior dos académicos e outros da elite — dizem-nos que qualquer sugestão de uma atitude positiva para com ela poderia conduzir ao isolamento dos seus pares e à ruína de uma carreira — está outra vez a tornar-se um tópico de discussão e reexame. Isto é especialmente verdadeiro entre jovens de esquerda que estão a fazer a sua própria investigação histórica, a escavar materiais há muito esquecidos, a efectuar entrevistas com os que estiveram activos durante aquele
período, apresentando suas descobertas na web, e a desafiar de outras formas a linha oficial do partido acerca dos acontecimentos daquela era.
Há outros sinais altamente significativos desta crescente revivificação da esquerda e dos seus laços em expansão com a luta da classe trabalhadora. Em 1999 visitámos, com estudantes da Universidade Qinghua em Beijing — muitas mencionada como o MIT da China — que faziam parte de um pequeno grupo de estudos marxistas, uns poucos que haviam brotado recentemente, especialmente nas universidades mais de elite. Observei naquele tempo que para serem eficazes eles deveriam descobrir um caminho para saírem dos seus campos e ligaram-se às classes trabalhadoras, algo que movimento de 1989 dos estudantes de Tiananmen deixou de fazer. Naquela luta, apesar de muitos trabalhadores em Beijing, pelo menos, terem aderido posteriormente — e por sua vez sofrerem o impacto da violência assassina e da repressão que lhe pôs fim — o fosso entre
estudantes e classes trabalhadoras não fora preenchido no fundamental.
Em Changchun, no nordeste, por exemplo, onde uma versão mais pequena do mesmo movimento teve lugar, trabalhadores na grande fábrica First Auto recusaram-se a juntar-se aos estudantes que desfilavam fora das universidades — uma experiência amarga que deixou estes últimos expostos a repressão muito dura e levou-os a reavaliar o seu próprio isolamento das classes trabalhadoras. No fim, como tem acontecido frequentemente na história chinesa, foi em grande parte o exército camponês das províncias remotas que foi trazido para esmagar o movimento em Tiananmen — depois de os regimentos estacionados próximos de Beijing terem resistido a fazê-lo. As lições daquele tempo não foram perdidas pela actual geração de jovens estudantes de esquerda, e mudança no verão de 2004 não podia ter sido mais dramática. Hoje, activistas, estudantes activistas em números significativos estão a deixar os campus das
universidades para contactarem as classes trabalhadores, estudarem suas condições, proporcionar-lhes apoio legal e material, e trazerem relatos do que está a acontecer nas fábricas e nas unidades agrícolas de volta às suas escolas.
Um Guarda Vermelho veterano da Revolução Cultural que ainda é um organizador chave da esquerda em Zhengzhou explicou como houve ali uma grande mudança no relacionamento estudantes-trabalhadores. Já no princípio de 2000, estudantes do grupo de estudos marxistas da Univesidade Beijing, a principal instituição de ensino superior do país, vieram visitar fábricas naquela cidade. Desde 2001 até agora, grupos de estudantes da Universidade Qighua vieram todos os anos. Em 2004, até 80 estudantes vieram ainda de outros grandes campus de Beijing a Zhengzhou. As autoridades nacional estão receosas destes contactos em crescimento e tentam desencorajá-los. Em contraste com as viagens gratuitas em comboio e outros estímulos oferecidos a estudantes que
queriam viajar pelo país durante a Revolução Cultural, o governo de hoje tenta travar este fluxo, recusando mesmo vender bilhete a delegações de estudantes, ou negando-lhe o direito de sair de Zhengzhou — mas eles ainda vêm. Eles vão às fábricas, e alguns viveram mesmo nelas durante as primeiras etapas da luta naquela cidade, para tentar ajudar a travar o encerramento das mesmas. Depois de este movimento ter começado em Zhengzhou, ele espalhou-se para o nordeste, bem como para outras partes do país. Também se estendeu a áreas rurais, onde estudantes vão às aldeias para efectuarem actividades semelhantes, trazendo materiais, estabelecendo contactos, proporcionando apoio legal, e geralmente rompendo o isolamento que sentem muitos activistas camponeses. Hoje, na Universidade Beijing e em muitas outras instituições de ensino superior, uma organização chamada os Filhos dos Camponeses — a qual, apesar do seu nome, inclui também muitas "filhas" — foi formada especificamente para
esta finalidade. Um activista de esquerda com quem nos encontrámos em 1999, que naquele tempo parecia virtualmente solitário a investigar directamente as condições da classe trabalhadora e a encorajar outros a fazerem o mesmo, explicou em 2004 os estudantes já pareciam altamente motivados, não precisando mais da liderança daqueles como ele. Agora, são eles que estão a tomar a iniciativa.
Este movimento é conduzido e facilitado pelas mudanças na composição e condições do próprio corpo de estudantes universitários. Com a triplicação das matrículas em faculdades desde 1999, números maiores de estudantes são retirados das famílias da classe trabalhadora e muitos deles enfrentam crescentes dificuldades para financiar sua educação e encontrar trabalho após a graduação. O resultado é uma base social em expansão para empatia e unidade entre muitos estudantes universitários e os trabalhadores e camponeses. As universidades chinesas hoje são menos território reservado dos
privilegiados e têm um carácter mais de massa do que nos primeiros anos da reforma, quando, em reacção à Revolução Cultural, Deng Xiaoping enfatizou o "perito" ao invés do "vermelho" e forçou ao retorno de exigências de entrada mais exclusivas. Em consequência, estudantes de esquerda estão agora a preencher o fosso entre as elites intelectuais e aqueles que estão a lutar nas fábricas e nos campos — que hoje mais habitualmente seus próprios parentes, ou pelo menos membros das mesmas classes das quais eles provieram. Em alguns aspectos, portanto, a cena actual na China lembra nada menos que os dias primitivos da Revolução Russa, quando Lenin aconselhava estudantes marxistas a irem às fábricas dos distritos para ligá-los aos trabalhadores. A diferença crítica agora, naturalmente, é não só que mkuitos dos estudantes vêm de famílias operárias e camponesas mas que jovens chineses de esquerda, mesmo quando tacteiam o modo de estabelecer um novo relacionamento com as classes
trabalhadoras, têm por trás cinquenta anos de experiência revolucionária socialista sob a liderança de Mao sobre a qual construir. Os conceitos, políticas e relações daquela era não podem — ou não deveriam — ser aplicados sem alterações à situação muito diferente de hoje. Mas eles permanecem um vasto reservatório de ideias e práticas revolucionárias que a esquerda pode aproveitar no confronto das condições das classes trabalhadoras em face das reformas capitalistas no actual cenário de maquetização global. Longe de serem novas, as ideias de esquerda já estão profundamente embebidas entre os operários e os camponeses.
No entanto, seria um sério erro exagerar estas tendências. A esquerda chinesa como força reconhecível é ainda pequena, marginalizada e dividida — como as próprias classes trabalhadoras — em muitos agrupamentos e facções. Tal como os de esquerda em todo o mundo, eles têm de enfrentar a desintegração do mundo que conheceram e estão a tentar descobrir
novos caminhos para avançar sem qualquer conjunto único unificador de conceitos para se organizarem em torno. Em grande medida, são os próprios operários e camponeses que estão em destaque na China de hoje, efectuando por vezes enormes lutas. Embora estas muitas vezes sejam conduzidas por gente de esquerda, até agora há pouco, se algum, movimento organizado da esquerda como um todo. Novas ideologias competidoras — incluindo a liberal reformista e conceitos sociais democratas — também representam um desafio para os de esquerda. Num desenvolvimento que reflecte a situação nos Estados Unidos, mesmo o próprio termo "classe" é menos usado hoje, e ao invés há agora conversas de "grupos sociais fracos" no mercado, enquanto o próprio conceito de exploração é feito menos explícito. Estas tendências são reforçadas pelo estilo de vida de muitos profissionais urbanos, quaisquer que sejam suas políticas. Alguns intelectuais, incluindo aqueles que se consideram de esquerda, estão agora
a ganhar bom dinheiro nas cidades e estão em grande parte isolados de quaisquer ligações práticas com as classes trabalhadoras, cujas condições podem parecer cada vez mais remotas comparadas com a sua própria experiência.
Para aqueles que tentam tomar posições públicas ou traduzir suas ideias em acções, a supressão é frequente, embora não seja necessariamente focada sobre a direita ou a esquerda. Ao invés, se o governo toma alguma medida é mais uma questão de quão distante está do quadro estrutural aceite. Mesmo um organizador migrante que é favorável às reformas e advoga a privatização da terra a fim de tornar os camponeses "cidadãos independentes" foi detido por tentar efectuar uma reunião em Beijing para promover "direitos humanos". Uma linha que não pode ser cruzada são tentativas abertamente organizadas de por fim à regra de um só partido, e qualquer coisa que parece minar o domínio do estado sobre todas as áreas de actividade pública pode rapidamente levar a
perturbações, sem importar o seu conteúdo político específico.
A esquerda, entretanto, é vista como uma ameaça especial pelas autoridades, uma vez que tem o potencial para dar forma mais organizada à luta em rápida expansão da classe trabalhadora. Típico a este respeito é o encerramento do sítio web China Workers e de listas de discussão. Ao contrário de muitos outros fóruns, este foi "o primeiro sítio web na China que permitia a trabalhadores e agricultores conversarem acerca das suas lutas para defender o socialismo na China de hoje". Ali, intelectuais, incluindo aqueles dentro das próprias classes trabalhadoras, podiam "participar em discussões com trabalhadores acerca de questões de trabalhadores" (Stephen Philion, “An Interview with Yan Yuanzhang,” MRZine, http://mrzine.monthlyreview.org/philion130306.html). Esta ligação representa uma ameaça particular para os líderes do partido e do estado porque, como explicou um dos membros do colectivo editorial do
sítio web em Beijing, "o governo não está a fazer socialismo". É sobre esta base que "os trabalhadores distinguem o Partido Comunista do período maoista e o partido de hoje". Do ponto de vista das classes trabalhadoras, é crítico terem as suas vozes ouvidas publicamente. "Isto é a espécie de coisa que uma democracia socialista desejaria, mas os trabalhadores têm a espécie de democracia que o capitalismo pode proporcionar". Mas o sítio web foi encerrado, através da imposição de uma exorbitante taxa de registo que membros das classes trabalhadoras não podiam permitir-se.
Entre os operários e camponeses, as fileiras mais vastas de intelectuais, e dentro da nova classe média também, há uma ampla exigência de maior transparência tanto no sistema económico como político e pelo direito a ter uma acção mais participatória nas decisões que os afectam. Apesar de o estilo eleitoral americano de "democracia" não ter apelo generalizado, muitas pessoas estão a falar acerca de
direitos democráticos bastante abertamente. Para algumas delas a liberdade de discurso é o objectivo principal, para outros são partidos. Muitos trabalhadores agora falam de como o "sistema de um partido não funciona". Fóruns estão a ter lugar, mesmo dentro do partido, à procura de caminhos para ter mais espaço para debate aberto, e as ONGs que brotam da "sociedade civil" cobrem um vasto conjunto de questões, como os direitos das mulheres e o ambiente.
Os sentimentos pró-democracia estão generalizados, portanto, e o governo sabe que não pode apenas reprimi-los. Ele está a tentar, ao invés, atender este desafio pela introdução gradual de mudanças. Mas as políticas oficiais da reforma nesta área — tais como eleições de governos de aldeia — apesar de uma democratização superficial, são muitas vezes encaradas com cinismo pelas classes trabalhadoras, uma vez que elas são amplamente utilizadas para ratificar nomeações do partido de cima para baixo. Aqui, como em muitas
áreas, as memórias da era socialista, e especialmente a participação de trabalhadores e camponeses na direcção das suas fábricas e unidades agrícolas, e mesmo universidades e governos locais, durante a Revolução Cultural, ainda continua a servir como uma referência e ergue-se em agudo contraste com o despojamento hoje de tais direitos políticos. "Reformas democráticas são implementadas até agora pelo governo invertendo a revolução de Mao com a cabeça para baixo, e invertendo as vidas dos trabalhadores de pernas para o ar — elas são uma forma de retaliação e represália sobre a classe trabalhadora".
A chave para uma abordagem aceitável para a reforma política será, portanto, descobrir um meio por juntos outras vez os conceitos de esquerda de controle operário e camponês com a democracia participatória que agora é parte da agenda global progressista. Esta investigação já começou. Na carta de 2004 a Hu Jintao, da esquerda dos veteranos da revolução, uma das exigências
de princípio era revigorar as lutas de massas a partir de baixo como meio de controlar o abuso de poder e dar às próprias classes trabalhadoras um papel directo nas funções do partido e do estado, como parte de um sistema democrático. As barreiras para construir um movimento unido e executar tais mudanças revolucionárias são, entretanto, tão assombrosos na China como em qualquer outra parte nos dias de hoje. Apesar da sua herança do passado, trabalhadores e camponeses estão receosos de que se um novo nível de luta pelo socialismo não for alcançado em breve, a memória da era da revolução morrerá, e aqueles na geração mais jovem não conhecerão e buscarão nada senão o desejo de ficar rico e juntar-se à cultura do consumidor. Neste caso, eles terão de começar tudo outra vez, como se fosse do zero, se e quando eles finalmente enfrentarem a necessidade por mudanças fundamentais.
Mas os chineses têm a vantagem de terem estado ali, de terem feito isso antes. Tão distante
como a perspectiva possa por vezes parecer, a China ainda tem a possibilidade de um caminho rápido para a revolução socialista renovada, um desenvolvimento que mais uma vez sacudiria o mundo. Isto é, naturalmente, apenas um entre os muitos cenários possíveis para o que acontecerá na China no futuro próximo. A complexidade e polarização da sua estrutura de classe estão a empurrar a sociedade chinesa em direcções contraditórias, com potencial de uma vasto leque de desenlaces.
Isto é evidente em desenvolvimentos recentes, tanto nas condições das próprias classes trabalhadoras e na resposta do partido e do estado aos novos desafios. Numa tentativa de deter novas perturbações nas regiões rurais, os dois principais líderes, Hu Jintao e Wen Jiabao, introduziram uma série de mudanças na política rural que tiveram efeitos bastante dramáticos. Isto incluiu a eliminação do imposto agrícola sobre os camponeses, bem como a maior parte das taxas locais — muitas delas ilegais —
que eram uma importante fonte de protestos. Também há planos para investimento acrescido nas áreas rurais, incluindo em fábricas nas cidades mais pequenas e nas aldeias, e especialmente na educação e em cuidados de saúde, e na restauração ambiental. Juntamente com preços mais favoráveis para bens agrícolas, estes ajustamentos aliviaram significativamente a pressão económica sobre muitas famílias camponesas. Há mesmo uma conversa oficial de Novas Aldeias Socialistas, embora o significado dessa expressão até agora não esteja claro, e pode simplesmente ser uma tentativa de dar uma etiqueta com tonalidade de esquerda às políticas rurais já introduzidas. Mesmo a profundidade das reformas dentro das reformas que foram anunciadas está para ser vista, especialmente considerando o registo da não implementação ao nível local — o que um factor endémico na governação chinesa — e a implacável liquidação de terras de aldeia para urbanizações por responsáveis frequentemente corruptos, as
quais continuam sem pausa em muitas áreas. Um impacto já é muito claro, contudo. Numa gritante inversão da situação de apenas três anos atrás, as zonas de exportação das regiões costeiras estão a experimentar uma crescente escassez de trabalhadores, pois os migrantes estão a retornar em grande número às suas aldeias, ou pelo menos a cidades do interior mais próximas dos seus lares, em parte para aproveitarem da melhoria de condições ali, assim como por uma crescente rejeição da dura exploração das fábricas costeiras. Esta migração inversa é um reflexo da consciência elevada, da resistência e da auto-organização dos migrantes, muitos dos quais são agora veteranos temperados, e que não mais aceitarão as condições que os atrairam nos seus anos de juventude. Mesmo o fluxo de jovens trabalhadores migrantes, e especialmente mulheres camponesas pobres, que eram preferidas pela fábricas e enfrentavam as mais extremas condições de exploração, está principiando a secar.
Enquanto isto tem tido o efeito positivo de forçar as indústrias exportadoras a começar a elevar salários e benefícios num esforço para continuar a atrair uma força de trabalho suficientemente grande, também já há sinais de que os empregadores estão a correr para a base, deslocando suas fábricas para países de custo ainda mais baixo como o Vietnam, a Índia e Bangladesh. Não há solução simples para o modo de alterar o actual sistema, portanto, toda acção desencadeia novas contradições, dada a natureza do mercado capitalista global ao qual a China está cada vez mais ligada. Embora o mercado interno esteja a crescer, qualquer queda séria na competitividade global e a resultante redução do crescimento económico — o grande medo que assombra a liderança chinesa — não só minaria rapidamente a capacidade de executar as revisões políticas que Hu e Wen estão a tentar, incluindo a nova ênfase na "equidade social", como também ameaçaria provocar a desordem numa escala maciça.
A incapacidade da marquetização capitalista para resolver tais contradições continua a dar força à nova esquerda. Um exemplo gritante desta influência crescente foi evidente em Março de 2006,
Pela primeira vez em talvez uma década, o Congresso Nacional do Povo, dirigido pelo Partido Comunista, a legislatura foi consumida com um debate ideológico sobre socialismo e capitalismo que muitos assumiram ter sido enterrado há muito pelo longo período de crescimento económico rápido da China. A controvérsia forçou o governo a por de lado um projecto de lei para proteger os direitos de propriedade que fora esperado ser aprovado numa passagem pro forma e destacou a influência renascida de um pequeno mas sonoro grupo de académicos e conselheiros políticos de tendência socialista. Estes pensadores de esquerda do velho estilo utilizaram o crescente fosso de rendimentos na China e a inquietação social acrescida para
levantar dúvidas acerca do que vêm como a busca precipitada da riqueza privada e do crescimento económico orientado pelo mercado... Aqueles que afastaram este ataque como uma reminiscência de uma era anterior subestimaram o apelo contínuo das ideias socialistas num país onde gritantes disparidades entre ricos e pobres, corrupção exuberante, abusos trabalhistas e arrebatamento de terra proporcionam recordações diárias de quão longe a China desviou-se da sua ideologia oficial. (New York Times, March 12, 2006)
Embora a lei da propriedade provavelmente venha a passar de alguma forma no longo prazo, proposta para "permitir um papel expandido para o mercado na educação e nos cuidados de saúde", e mesmo apelos mais radicais para a privatização da terra, foram postos de lado, pelo menos por enquanto.
Mesmo a liderança de topo sentiu-se obrigada a voltar-se, pelo menos superficialmente, mais uma vez na
direcção do socialismo — o qual permanece a base teórica do governo e do Partido Comunista, apesar das suas práticas capitalistas.
Desde a sua chegada ao poder em 2002, o sr. Hu também tentou estabelecer suas credenciais de esquerda, enaltecendo o marxismo, louvando Mao e financiando investigação para tomar frequentemente ignorada ideologia socialista oficial do país mais relevante para a era actual. (New York Times, March 12, 2006)
Os métodos da era Mao foram mesmo ressuscitados num esforço para restaurar a evanescente legitimidade do partido, o qual é agora amplamente encarado como profundamente corrupto.
Tal como uma companhia gigante preocupada com a confusão organizacional e uma imagem pública a afundar-se, o Partido Comunista Chinês está a tentar refazer-se a si próprio como uma máquina
eficiente e moderna. Mas para fazer isso, ele escolheu uma das suas mais antigas ferramentas políticas — uma campanha ideológica estilo maoista, completada com os necessários grupos de estudo.
Durante 14 meses, aos 70 milhões de membros da base foi ordenado que lessem discursos de Mao e Deng Xiaoping, bem como enfastiante tratado da 17 mil palavras que é a constituição do partido. Reuniões obrigatórias incluem sessões onde os quadros devem apresentar auto-críticas e também criticar toda a gente. (New York Times, March 9, 2006).
Encarada seriamente por alguns como um esforço para a reforma, e recebida com considerável cinismo por outros, a campanha pode ser menos importante pelo seu impacto directo do que pela sua admissão de que o partido extraviou-se demasiado longe do seu papel de "servir o povo", como Mao apelava, e ainda mais dos seus objectivos revolucionários originais. Poucos, se é que alguém,
esperam que Hu e Wen conduzam a um renascimento da revolução socialista, ou mesmo que façam desvios radicais do caminho capitalista em que o partido e o estado tem estado comprometidos durante trinta anos, e com as forças económicas com as quais estão tão firmemente atados. Mas a promoção oficial dos conceitos socialista e o estudo de Mao podem apenas abrir mais espaço para um renascimento da esquerda para cuidar do abcesso da crise. Revertendo uma certa tendência para a insularidade e o isolamento dos fóruns globais recentes, há também conhecimento crescente dos mesmos e laços mais estreitos com as lutas das forças de esquerda por todo mundo — apesar das tentativas do governo para limitar tais ligações — através das novas redes de comunicação global e de organização.
A pioria das condições das classes trabalhadoras estão a empurrá-las rapidamente numa direcção mais radical e militante. Dentro das fileiras não só dos trabalhadores e camponeses, mas entre muitos
intelectuais e pelo menos uma parte da nova classe média, há um profundo e crescente entendimento de que o capitalismo global não tem resposta para as suas situações, e que o socialismo revolucionário que eles construíram sob Mao proporciona pelo menos o esboço de um outro caminho de avanço hoje em dia. Nas fábricas e nos campos, operários e camponeses na China não só resistem às novas formas de exploração capitalista como têm memórias de um outro mundo que eles já sabem ser possível. A partir das suas vidas durante a era socialista antes das reformas, eles estão conscientes de que alternativas viáveis existem para o enlouquecimento descontrolado do capitalismo global.
Apesar desta herança, qualquer terno simplista ao passado não é nem possível nem desejável. Demasiado mudou, e demasiados génios foram deixados escapar da garrafa para simplesmente colocá-los de volta outra vez. Os fracassos e erros do passado, bem como os êxitos e vitórias, terão de ser
reexaminados, e novos caminhos terão de ser descobertos para ultrapassar as limitações da primeira era do socialismo, na China como alhures. Nenhuma previsão fácil é possível quanto à direcção que tomará a luta no período que se avizinha. Mas quando se movem para a frente, as classes trabalhadoras chinesas podem também olhar para trás para descobrir o seu próprio caminho para uma nova sociedade socialista, um caminho que combine as suas lutas históricas e de actuais como os movimentos globais de hoje, e que produza uma transformação revolucionária mais uma vez.
[*] Autor de Red Cat, White Cat: China and the Contradictions of “Market Socialism” (Monthly Review Press, 1996), e de artigos e documentos sobre condições económicas, políticas e do trabalho na China.
La estrategia de los industriales israelíes en la cadena de suministro global
La industria textil en Gaza, la administración en Tel-Aviv y los dueños en Nueva York
Efraim Davidi*
Conferencia Internacional de Investigación sobre "El impacto de los sistemas globales de producción en las estrategias sindicales". La Haya, mayo de
2006 CSCAweb, 5 de julio de 2006 / Traducción: CCOO-Cantabria
"El dueño de Delta-Galil, Lautman, se pronunció en una reunión de empresarios israelíes y palestinos celebrada en Tel-Aviv en junio de 1999 titulada 'Negocios en Paz': 'Jordania y Egipto son un avance estratégico para Delta y los territorios palestinos también pueden serlo. No es fácil abrir una fábrica en Francia o en los EEUU, pero es sencillo hacerlo en Gaza'. En esta reunión Lautman retomó su vieja idea y propuso adoptar el modelo NAFTA para Oriente Medio con Israel en el papel de EEUU y Palestina en el de México. 'Nuestra misión no es conseguir la paz. Nuestra misión es conseguir dinero', afirmó."
El objetivo de esta conferencia es entender la estrategia de los industriales
israelíes en el proceso de globalización en las últimas décadas. La nueva estrategia se desarrolló durante la Primera Intifada a finales de los 80. A la Asociación de Industriales Israelíes, la organización más importante de empresarios israelíes, llegaron propuestas sobre un posible acuerdo con los palestinos que no se opusiera a la creación de un Estado Palestino Independiente, siempre y cuando se mantuviese la dependencia económica de Israel.
El paradigma de la nueva estrategia puede resumirse como sigue: "establecer una fábrica de costura en Gaza (o en Jordania, o en Egipto, o en Turquía) administrada desde Tel-Aviv mientras los dueños residen en Nueva York". Por supuesto, el producto no está dirigido al mercado local árabe o a Israel, sino a los países centro de la globalización EEUU, Canadá y la UE-. Desde la parte árabe hubo quien vió esta estrategia como "una forma de que Israel ejerza el control económico sobre
Oriente Medio". Sin embargo, no era esta la intención. Israel no puede controlar Oriente Medio económicamente, ni siquiera militarmente. Los sucesos de los últimos años evidencian que Israel es incapaz de mantener el control militar en la Franja de Gaza.
Por una parte, Israel había de integrarse en Oriente Medio para servir de lanzadera a las actividades de compañías multinacionales y, por otra parte, para establecer progresivamente industria de alta tecnología conectada a las tres ramas con gran potencial de desarrollo ordenadores, telecomunicaciones e internet-, todas interdependientes y pertenecientes a compañías multinacionales, en su mayor parte norteamericanas.
A primera vista esta estrategia parecía sólida. El acuerdo firmado con los palestinos desde 1993 abrió las puertas a la inversión extranjera, la absorción de compañías locales por multinacionales y la fusión de
empresas locales y extranjeras. El proceso de privatización, la línea económica que siguen los gobiernos israelíes de los últimos 20 años, contribuyó en gran medida a desarrollar esta estrategia.
Tras los Acuerdos de Oslo con la OLP a finales de los 90 se registró un aumento impresionante del Producto Nacional per Cápita en Israel. Se situaba en 5.500 $ en Israel en 1980 (siendo 771$ en Egipto, Jordania y Siria) mientras en la UE ascendía a 9.381 $. En 2003 las cifras en Israel llegan a 16.700 $ per cápita y se prevén 18.000 $ para 2006. Se puede comparar con los 1.260 $ de los mencionados países árabes y los 21.242 $ de la UE. Sin embrago, sucesos como la Segunda Intifada y la caída de Nasdaq (ambos durante el último trimestre de 2000) combinados con la prolongada recesión que comenzó con la decadencia del proceso de paz, dejan tan sólo un mínimo o incluso negativo crecimiento en el Producto Nacional Bruto de los años 2001,
2002, 2003 y 2004.
Sería erróneo asumir que los frutos de este considerable crecimiento en la producción total y la integración en el proceso de globalización se disfrutan por igual entre todos los residentes en Israel. La diferencia socio-económica ha crecido durante las últimas dos décadas, especialmente en los últimos cinco años. La economía israelí destaca por la concentración de capital en manos de muy pocos individuos. Según expertos esta economía la controlan de manera exclusiva entre 20 y 50 familias y compañías multinacionales.
Dov Lautman, ex presidente de la Asociación de Industriales Israelíes y copropietario de Delta-Galil Industries (1) afirmó en una reunión con representantes de la industria de la manufactura palestina en 1993: "Lo importante no es si se crea un Estado Palestino, si se consigue la autonomía o un Estado Palestino-Jordano, lo importante es que la
frontera económica entre Israel y los demás territorios se mantenga abierta" (2). Para Lautman y otros las relaciones económicas entre el Estado de Israel y Palestina deben seguir el modelo "del acuerdo de libre comercio que existe entre México y los EEUU". Para él y sus colegas no hay duda de quién va a desempeñar el papel de México y quién el de EEUU. El antes Primer Ministro y ahora Vicepresidente y Ministro de Cooperación Regional, Simón Peres, se reunió con el presidente de México Carlos Salinas de Gotari en septiembre de 1994 para "aprender del modelo NAFTA". (3)
¿Qué es un tratado de libre comercio?
Un tratado de libre comercio (FTA por sus siglas en inglés) es un acuerdo entre dos o más países que permite el comercio ininterrumpido con materias primas producidas en ambos países, como el Tratado de Libre Comercio de Norte América (NAFTA en inglés)
que firmaron los EEUU, Canadá y México. Esta política comercial se aplica sólo a bienes producidos dentro de los países firmantes, que quedan exentos de aranceles al atravesar las fronteras internas del FTA. Los bienes producidos fuera han de pasar por las fronteras comerciales de las partes firmantes.
Debido a que las fronteras comerciales son diferentes en cada país (las tasas para la misma materia varían) todos los bienes han de ser controlados también en las fronteras internas para determinar su origen: de dentro o de fuera del territorio FTA.
La única política comercial que permite la abolición de fronteras internas entre países firmantes es la unión aduanera. La unión aduanera extiende el libre tráfico de bienes a aquellos producidos por los países firmantes del tratado a los bienes producidos en el "resto del mundo". Esto se consigue mediante un acuerdo entre los
firmantes apara aplicar iguales aranceles a otras partes (terceras partes) lo que obvia la necesidad de comprobar el origen de los bienes una vez que han pasado las fronteras FTA.
NAFTA, Israel y Palestina
Según grupos de economistas israelíes "las diferencias entre las economías israelí y palestina son de la misma magnitud que las existentes entre la estadounidense y la mexicana. El Producto Nacional Bruto es 18-20 veces mayor que el de todos los territorios palestinos; el Producto Nacional Bruto per cápita es seis veces superior en Israel que en los territorios de Palestina. Para comparar, el PNB de EEUU es 25 veces mayor que el mexicano. Otra característica de estos dos países que es similar es la relación que mantienen; al igual que Israel y Palestina, en México el salario es muy bajo y crece el desempleo por lo que los trabajadores mexicanos intentan
conseguir empleo en EEUU". (6)
Durante más de diez años (entre la Primera Intifada y la Segunda) se celebraron numerosas conferencias en Israel con títulos tales como Las futuras relaciones económicas entre Israel y los Territorios, patrocinadas habitualmente por la Asociación de Industriales Israelíes, la Cámara de Comercio o la Universidad. También hubo reuniones entre empresarios de la industria manufacturera israelí y palestina, casi todas a puerta cerrada. Reuniones, estudios, discursos y seminarios muestran la creciente ansiedad acerca de las implicaciones económicas que tendría la independencia de Palestina por parte de la clase dominante israelí.
¿Pero por qué esta ansiedad, esta preocupación? Mantener relaciones económicas es muy importante para Israel. Las relaciones comerciales de la mayoría de los territorios palestinos se mantienen con Israel: entre el 80 y el 90
% de las importaciones hechas a los Territorios Palestinos parten de Israel y el mismo porcentaje de exportaciones se venden en Israel. Israel es de largo el socio más importante para Palestina, que también es a su vez un socio importante para Israel ya que constituye el segundo mercado más grande de exportaciones para los productos israelíes (después de los EEUU). (7) Las exportaciones de Israel a Palestina crecieron un 80 % en diez años, de 961 millones de dólares en 1987 (antes de la Primera Intifada) hasta 1.800 millones la víspera de la Segunda Intifada.
Desde comienzos de los 90 y como resultado de la Primera Intifada, la burguesía israelí reconoce que no hay alternativa a algún grado de dependencia política palestina. Una generación entera manufacturera israelí ha intentado eliminar cualquier oportunidad de desarrollo industrial capitalista en Palestina. Las autoridades israelíes de la Ocupación fueron el brazo de
la burguesía israelí, haciendo imposible para cualquier capitalista palestino obtener los mil y un permisos necesarios para establecer un negocio sin poseer un documento que asegure que ese negocio no sería competencia para una compañía israelí (8). De esta forma las autoridades no permitían el desarrollo de la industria láctea, la cementera, la alimentaria o la textil. Un grupo de economistas israelíes describió la situación de la industria en Palestina con estas palabras: "existen niveles extremadamente bajos de industrialización, probablemente más bajos que en la mayoría de los países del mundo (9). Por otra parte durante décadas las restricciones en forma de aranceles impidieron que la agricultura palestina compitiese en el mercado israelí" (10).
Simultáneamente, la economía israelí ha sido la fuente de ingresos de una buena parte de los Territorios. A finales de los 80 la mitad de los ingresos nacionales de la Franja de
Gaza procedían indirectamente del salario de los trabajadores de Gaza en Israel, y esta situación no ha cambiado desde entonces. Según datos del Departamento de Economía de la Oficina de Coordinación Israelí de Actividades Gubernamentales en los Territorios tras la Segunda Intifada el 42% de los ingresos provenían del empleo en Israel. En Cisjordania el 47 % de los ingresos se obtenía de esta forma (10).
La independencia de Palestina, y por lo tanto la pérdida total e inmediata de los mercados de Gaza y Cisjordania causaría grandes pérdidas a los empresarios israelíes en la construcción, hoteles, importaciones y manufactura.
¿Es viable MEFTA?
¿Puede darse un acuerdo como el NAFTA, el MEFTA (Tratado de Libre Comercio en Oriente Medio, en inglés) en esta región? Si planteamos este interrogante a un miembro de la
administración estadounidense contestará afirmativamente. Según Robert Rubin, ex Secretario de Hacienda de los EEUU, "Israel ha avanzado en la dirección correcta al hacer las reformas necesarias para la apertura de su economía. Las economías abiertas al comercio obtienen mayor rendimiento. Creo que todos los países deberían tener como prioridad la participación activa en el proceso multilateral de libre comercio que fomenta la OMC. Pero, dicho esto, para Israel sería una ventaja llegara un acuerdo de libre comercio regional. Los tratados de libre comercio a nivel regional facilitan el avance hacia un mundo de libre comercio, ya que se aplican sustancialmente a todas las mercancías de los países signatarios y no conllevan aranceles para terceras partes (otros países). Por ejemplo, desde que se firmó el Tratado de Libre Comercio entre Israel y los EEUU hace más de diez años, el comercio entre nuestros dos países se ha triplicado". (11)
Sin embargo, la política comercial que ha existido entre Israel y Palestina desde 1967 puede describirse como involuntaria, unilateral, impura, una unión aduanera. El intercambio entre los comerciantes israelíes y palestino era ostensiblemente libre y el área geográfica que comprende Israel, Gaza y Cisjordania no tiene fronteras internas ni aranceles. El comercio con el resto de países se llevaba a cabo según el Régimen Comercial israelí y siguiendo la (cambiante) política de Israel. Los impuestos del Gobierno israelí y otros aranceles se recaudaban en las fronteras del área de ambos países. Ya que no existía ninguna autoridad palestina de economía y el pueblo palestino no participaba en decisiones políticas, todo esto era obra del gobierno israelí. (12)
MEFTA y las subcontratas
La "relocalización" de la industria israelí, especialmente la textil,
comenzó hace diez años, tras los Acuerdos de Oslo y el Tratado de Paz entre Jordania e Israel firmado en 1995. Una de las compañías textiles más importantes es Delta-Galil que posee plantas industriales en Jordania y Egipto. Recientemente, Delta ha comprado más plantas en Turquía, América Central, Tailandia y Rumanía. El anterior Director General de Delta-Galil, Arnon Tiberg afirmó que "las críticas acerca de que nos hemos ido a otros países y hemos contribuido al aumento del desempleo en Israel no son justas. En Israel damos trabajo a 3.200 obreros. En Jordania y Egipto a otros 3.000. Las plantas de Jordania y Egipto hacen posible que en Israel se trabaje en gestión y en desarrollo, en marketing y diseño." (13) El dueño de Delta-Galil, Lautman, se pronunció en una reunión de empresarios israelíes y palestinos celebrada en Tel-Aviv en junio de 1999 titulada "Negocios en Paz": "Jordania y Egipto son un avance estratégico para Delta y los territorios palestinos también
pueden serlo. No es fácil abrir una fábrica en Francia o en los EEUU, pero es sencillo hacerlo en Gaza". En esta reunión Lautman retomó su vieja idea y propuso adoptar el modelo NAFTA para Oriente Medio con Israel en el papel de EEUU y Palestina en el de México. "Nuestra misión no es conseguir la paz. Nuestra misión es conseguir dinero", afirmó. (14)
Otra compañía del textil importante, Polgat acaba de abrir una nueva planta en Jordania. En Egipto y en Palestina Polgat trabaja con plantas subcontratadas a nivel local (15). Rimon Ben-Shaul, antiguo director general de Clal (la dueña de Polgat) afirmó que Polgat se ha convertido en una compañía multinacional; producimos donde existe mano de obra barata. Durante años Polgat ha empleado a cientos de palestinos en las fábricas de Kyriat Gat, una "ciudad desarrollada" 60 km. al sur de Tel-Aviv. La tercera compañía textil más importante, Kitan, cerró la planta de pantalones
Levi's en Nazaret y ha abierto otra en Jordania. Hoy, el 50 % de la producción textil de Kitan se sitúa en Jordania o en subcontratas de Palestina. (16)
La estrategia de "relocalización" forma parte de la política del gobierno israelí y causa despidos masivos de trabajadores en Galilea y el sur de Israel, especialmente entre las mujeres asalariadas de origen árabe, druso o judío-oriental (Mizrahí). Esta estrategia no es un invento israelí, la subcontrata es muy común en todo el mundo, en las relaciones económicas entre el primer mundo (EEUU, Europa y Japón) y el tercero (Asia, África y Sudamérica). Uno de los modelos más desarrollados de subcontratación es el mexicano. Entre 1980 y 1994 el número de trabajadores mexicanos en la industria maquiladora (fábricas de subcontrata) aumentó de 119.546 a 583.044, es decir, un aumento del 387,72%. El salario por hora en los EEUU era 9,84$ en 1980 y 17,30 en 1994. En México los
trabajadores cobraban 2,16 $ la hora en 1980, 1,64 en 1990 y 2,60 en 1994. La evolución de los salarios en los EEUU y en México es el secreto del éxito de la industria maquiladora. (17)
De hecho, las maquilas se establecieron antes de que se firmase un acuerdo entre Israel y la OLP. Durante 8 o 9 años, las compañías israelíes han subcontratado fábricas palestinas; pero desde hace pocos años, esta situación se extiende a Palestina, Jordania y Egipto. La clase dominante israelí se concibe a sí misma como el poder regional económico y se concentra en la alta tecnología. Desde su punto de vista, la industria de trabajo intensivo han de situarse en la periferia de Israel, y la industria israelí de alta tecnología ha de depender de mercados extranjeros (EEUU y Europa) y operar según los designios de los dueños extranjeros o buscar uniones empresariales entre los industriales israelíes y los inversores extranjeros. En palabras del
secretario y ministro de Cooperación Regional Peres: "El mundo se organiza como una casa de dos pisos: en el primero los acuerdos regionales y en el segundo las multinacionales". (18) O con otras palabras: "No buscamos la paz entre naciones, buscamos la paz entre mercados". (19)
Notas:
(1) Delta-Galil emplea 14.000 trabajadores en 40 fábricas distribuidas en 11 países. Cada mes la compañía produce 10 millones de prendas. Las ventas de Delta-Galil en 2005 fueron de 684 millones de dólares.
(2) Efraim Davidi, "Israel's Economic Strategy for Palestinian Independence", Middle East Report 184 (September-October 1993), p. 24. Efraim Davidi, La estrategia económica israelí ante al independencia e
Palestina, Informe de Oriente Medio nº184, septiembre-octubre de 1993, p. 24.
(3) El anterior embajador israelí en la Naciones Unidas, Gad Yaacobi, describió el encuentro entre Peres y Salinas de Gortari en Nueva York: Nos reunimos con el Presidente de México salinas y con el Ministro de Asuntos Exteriores, antiguo embajador de México en las Naciones Unidas. Salinas es un hombre muy menudo y nervioso, en un mes debe dejar la presidencia y en su país ha ocurrido una serie de asesinatos entre los muertos contamos al candidato oficial a la presidencia y al Secretario General del partido en el Gobierno. Peres colmó de elogios la evolución de la economía mexicana bajo el gobierno de Salinas (supimos después que tal evolución no era muy real). Peres habló del NAFTAcomo uno de los logros económicos y como modelo a seguir en economía regional y como éxito de la teoría de la globalización económica. En
su New York Diary The Story ofthe Israeli Ambassador to the United Nations (Diario de Nueva York la historia del embajador de Israel ante las Naciones Unidas, editorial Miskal Yedioth aharonoth Books and Cherned Book, Tel-Aviv, 1997, p. 254, edición en hebreo). Tras estos hechos, Salinas de Gortari huyó del país al exilio acusado de participar en el asesinato de los líderes del partido en el gobierno, el PRI. El mismo día que entró en vigor el NAFTA comenzó la lucha en el estado mexicano de Chiapas, el Ejército Zapatista de Liberación Nacional se levantó en armas bajo el mando del Subcomandante Marcos.
(6) Arie Arnon (and others), The Palestinian Economy - Between Imposed Integrationand Voluntary Separation (Leiden: Brill, 1997) p. 21. Arie Arnon y otros, La economía palestina Entre la integración impuesta y la separación voluntaria Leidert Brill,
1997, p.21.
(7) Arie Arnon: 1997, p. 18; and Efraim Davidi (ed.), Anti-Globalization: Criticism ofLate Capitalism (Tel-Aviv: Resling Publishing, 2003), pp. 106-110. In Hebrew. Arie Arnon y Efraim Davidi, Antiglobalización: crítica al capitalismo tardío Tel-Aviv, Resling Publishing, 2003, pp. 106 a 110. Edición en hebreo.
(8) Davidi: 1993, p. 25
(9) Arnon: 1997, p. 5
(10) Coordination of Government Activities in the Territories / Economic Branch, "Measures Supporting and Promoting the Palestinian Economy" (Tel-Aviv: Ministry of Defense, 1999) Coordinadora de Actividades Gubernamentales en los Territorios / departamento de Economía, Medidas de apoyo y fomento de la economía palestina, Tel-Aviv,
Ministerio de Defensa, 1999.
(11) Robert Rubin in an interview with Hillel Kuttler in "Israel Fifty Yearsof Finance & Industry", supplement to the Jerusalem Post, May 5, 1998. Robert Rubin en una entrevista con Hillel Kuttler para Israel 50 años de economía e industria, suplemento del Jesuralem Post, 5 de mayo de 1998.
(12) Arnon: 1997, p. 88
(13) Haaretz, 8 de agosto de 1999
(14) Tras la elección del líder del Parido Laborista Ehud Barak como Primer Ministro de Israel en mayo de 1999, tuvieron lugar tres conferencias en el corto intervalo de tiempo entre junio y julio, todas acerca del futuro de las relaciones económicas entre Israel y Palestina. La primera, una reunión entre empresarios
isarelíes y palestinos titulada "Negocios en Paz" en Tel-Aviv en el Hotel Sheraton (fuera políticos, los empresarios sabemos hacerlo mejor la tituló Oren Most, Director General de Cellcom Israel Ltd.). la segunda, una conferencia de economistas organizada por el Tel-Aviv College y el Trimestral económico (Economic Quarterly); y una tercera esta vez en Beit Jala, Territorio Palestino, donde se fundó PRIME (siglas en inglés de Observatorio de la Paz en Oriente Medio), que contó con el apoyo del Banco Mundial y la presencia de su vicepresidente el profesor y economista turco Kernal Dervis. Hubo una clara continuidad entre las tres conferencias. Eran un debate sobre la dependencia de la economía palestina de Israel y sobre si debía continuar tras el fin de la ocupación militar y el éxito de la independencia política. Las dimensiones de la dependencia las describió en el encuentro del Hotel Sheraton el ministro palestino Nabil Sha'ath cada año compramos productos
israelíes y productos de otras nacionalidades importados vía Israel, gastamos en ello entre 2, 5 y 3 billones de dólares. La economía palestina es del tamaño del 7% de la israelí y aún así somos el segundo mercado más grande para los productos israelíes. La mayoría de los participantes israelíes en las tres conferencias, empresarios industriales o economistas, no veían ningún problema en que continuasen las relaciones económicas tras la independencia de Palestina. A los palestinos no les gustó oír al profesor Dervis del Banco Mundial declarase a favor de que Palestina abandonase la parte económica de su soberanía tal y como hicieron Francia y Alemania alegando que Francia y Alemania entraron en la Unión Económica desde un punto de partida más o menos igual que no es el caso de Israel y Palestina. Un punto de vista diferente presentó en la conferencia de economistas en Tel-Aviv el profesor Arnie Arnon de la Universidad Ben-Gurion (un prominente economista y
miembro dirigente de "Paz Ahora") En su investigación, el profesor Arnie Arnon atribuye el estado de deterioro de la economía palestina a su dependencia de Israel y la única solución era poner fin a esta dependencia, ya que la estabilidad de la economía palestina es un requisito indispensable para la paz. Otro economista bien conocido, el profesor Ezra Sadan atacó a Arnon y dijo que "la independencia no funciona, al igual que Nicaragua con los Sandinistas. "
(15) Yediot Aharonot, August 13, 1999; and: Efraim Davidi, "The Israeli Economy and the Challenges of Globalization", Palestine-Israel Journal of Politics, Economics and Culture, Vol. VIII, No. 2, 2001, pp. 104-110. Yediot Aharonot, 13 de agosto de 1999 ; y Efraim Davidi, La economía Israelí y los retos de la globalización, Diario palestino-israelí de política, eonomía y cultura, vol. VIII, nº 2, 2001, pp. 104 a 110.
(16) Haaretz, 16 de agosto de 1999
(17) "La sous-traitance en peripherie, practique economique et rapportsocial d'exploitation", Alternatives Sud Vol. VI ,No. 1 (1999), p. 8.
(18) Shimon Peres, The New Middle East A Framework and Processes Towards an Era of Peace (Tel-Aviv: Steimatzky Publishers, 1997), p. 90. In Hebrew. Simón Peres, El nuevo Oriente Medio marco y proceso hacia una era de la paz, Tel-Aviv, Steimatzky Publishers, 1997, p. 90. Edición en hebreo.
(19) Palabras de Peres en una reunión con los periodistas del diario Davar en 1992. Se trataba de una reunión "off the record". Ver Efraim Davidi, "Globalization and the Economy in the Middle East - A Peace of Markets or a Peace of Flags",
Palestine-Israel Journal of Politics, Economics and Culture, Vol. VII, No.1& 2, 2000, p. 34.
Efraim Davidi, Globalización y economía en Oriente Medio Paz de mercados o paz de banderas, Diario palestino-israelí de política, economía y cultura, vol. VII, nº 1 y 2, 2000, p. 34.
Empresarios y sindicalistas de los EE.UU. pidieron a Washington que devalúe el dólar y criticaron duramente la política de acuerdos comerciales.
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Académicos, empresarios y sindicalistas reclamaron al gobierno de Bush que el dólar baje, como remedio para el enorme déficit comercial del país y sus efectos adversos sobre la industria estadounidense.
"Esos acuerdos de libre comercio, que en la práctica son acuerdos de outsourcing, nos metieron en este problema", dijo Kevin Kearns, presidente del U.S. Business and Industry Council.
El déficit comercial de los EE.UU. en bienes y servicios aumentó más de 100.000 millones de dólares el año pasado, a 725.000 millones de dólares (o sea, unos 2.000 millones de dólares diarios). Las últimas cifras divulgadas por el Departamento de Comercio el miércoles, revelaron un déficit de 63.800 millones de dólares en mayo, una cifra 0,8% superior a
la de abril.
En el mismo foro, una conferencia convocada en Washington para discutir la situación del comercio, Richard Trumka, tesorero de la confederación sindical AFL-CIO, dijo que los estadounidenses deberán producir más de lo que consumen o se verán obligados a consumir menos.
Una devaluación del dólar, en teoría, haría bajar el precio de los productos estadounidenses en el exterior y aumentaría las exportaciones. Quienes están en contra de la devaluación argumentan que acarrearía alzas de tasas de interés e inflación.
"Ya lo hemos hecho antes, y fue un éxito. El dólar se bajó en los 80 cuando era secretario del Tesdoro James Baker. Y las exportaciones subieron muchísimo", dijo Robert Scott, economista senior del Economic Policy Institute.
Los oradores de la conferencia atribuyeron la explosión del déficit comercial a las prácticas comerciales desleales de algunos países como China y a una erosión de la base fabril
de los EE.UU., sumadas a la sobrevaluación del dólar.
Según la AFL-CIO, el sector industrial es por lejos el más afectado por el comercio. Desde la asunción del presidente Bush, se han cerrado más de 40.000 fábricas como resultado del desequilibrio comercial. "Si no exigimos un cambio radical de las políticas estadounidenses ahora, no falta mucho para que un día nos despertemos y nos demos cuenta de que nuestra única ventaja comparativa son las compras y la deuda", dijo Trumka.
La devaluación del dólar tendría un impacto de una sola vez sobre la inflación, aseguró el economista y profesor de la Universidad de Maryland Peter Morici. Calculó que los precios aumentarían entre 0,50% a 1%. "Y valdría la pena para terminar con todo ese endeudamiento".
Morici dijo que lo más significativo para achicar el déficit comercial sería que China revaluara su moneda. El yuan bajo benefició a los consumidores estadounidenses, admitió Morici.
"Tuvimos precios más bajos en Wal-Mart, a costa de los trabajadores chinos, la mayoría de los cuales tiene un estándar de vida muy bajo".
La coalición de sectores, en la que había también representantes del agro, enfatizó que el déficit comercial entre los EE.UU. y China subió a 202.000 millones de dólares en 2005, el mayor déficit bilateral de la historia. Aseguró también que, además de mantener el yuan artificialmente bajo, el gobierno chino es conocido por sus políticas opresivas de trabajo, su desprecio por los derechos de propiedad intelectual y por el dumping y falsificación de productos.
El diputado demócrata de Ohio Sherrod Brown, que cerró el encuentro, llamó a China el "revólver en la sien de cada sindicalista que negocia salarios".
"La buena noticia es que la agenda comercial de la administración Bush está hecha pedazos", dijo el representante Brown en referencia al CAFTA (el tratado de Libre comercio con América Central) y el
Omán Free Trade Agreement, que actualmente analiza el Congreso.
TRADUCCION DE CLAUDIA GILMAN
Fuente: diario Clarín (Económico), de Buenos Aires, Argentina; 16 de julio de 2006.
Vivo y trabajo en Nueva Jersey, pero siempre me gustaron la energía y la diversidad de la ciudad ubicada a apenas una hora de distancia en tren. Por eso me alegró leer una excelente noticia sobre Nueva York: el sorprendente
resurgimiento de Manhatttan como lugar elegido para emplazar las casas matrices de las empresas.
Lo interesante del regreso de las compañías a Manhattan es que echa por tierra la creencia generalizada de que la geografía pierde importancia con el avance de la tecnología. Según este lugar común, el trabajo hoy puede hacerse en cualquier parte y por eso los puestos de trabajo se trasladan a donde los salarios y otros costos empresarios son más bajos. Esto debería perjudicar a un lugar de costos y salarios altos como Nueva York.
Pero, al parecer, nadie le informó a Nueva York sobre las nuevas reglas: la economía de la ciudad está prosperando.
Y la noticia sobre las casas centrales sugiere que a Nueva York, paradójicamente, le está yendo bien porque la tecnología hizo posible que muchos puestos de trabajo se alejaran de los lugares de costos altos.
Durante las décadas de 1960 y 1970, Nueva York perdió
gran parte de su papel histórico como meca de las casas matrices, cuando las empresas se trasladaron a centros suburbanos de los alrededores. "Pero en los últimos años, Nueva York recuperó su magnetismo: se instalaron más del doble de casas matrices y subsidiarias de las que había en 1990", señala The New York Times.
¿Por qué las empresas regresan a Nueva York? El atractivo de Manhattan es obvio: la Gran Manzana es el mejor lugar para que los máximos ejecutivos "interactúen cara a cara con sus pares en el centro mundial de las finanzas, los asuntos legales y las comunicaciones", dice el Times. Esa ventaja, Nueva York la ofrece desde que se convirtió en la mayor ciudad de EE.UU. Pero en el pasado, esa comunicación cara a cara tenía un precio muy alto: para poder tener a sus principales ejecutivos en Manhattan, las empresas también debían pagar el alquiler de enormes edificios de oficinas y llenarlos con miles de empleados de menor
jerarquía, a los que debían pagar lo suficiente para compensarlos por el alto costo de vida de Nueva York. Muchas firmas decidieron que semejantes costos no se justificaban.
Muchos empleados que antes trabajaban en las casas centrales hoy pueden trabajar en otra parte y comunicarse con sus jefes en forma electrónica. Y esta situación hace que valga la pena traer de vuelta a los máximos ejecutivos al centro de la acción.
Sector financiero
Lo mismo puede estar pasando en el sector financiero. Al parecer, los empleos de baja remuneración del sector se están yendo de Nueva York, mientras que los mejor pagos migran hacia la ciudad. Un estudio de la Fed revela que la participación de Nueva York en las ganancias del sector financiero de EE.UU., a diferencia de lo que ocurre con el empleo, es mayor ahora
que en 1970. Y no es de extrañar que a las entidades financieras también les esté resultando más fácil ubicar a su personal de alto rango en Nueva York, ahora que el trabajo común de oficina se puede hacer en lugares con menores costos.
La historia de la economía de Nueva York no es del todo feliz. La ciudad perdió prácticamente toda su industria, y hoy terceriza a otras partes del país tanto el trabajo rutinario de oficina como las funciones gerenciales medias.
Lo que queda es una economía urbana que ofrece una mezcla de empleos financieros muy bien pagos y de empleos de baja remuneración en el área de servicios. Una economía urbana con pocos puestos de trabajo en la franja intermedia. Las disparidades económicas de Nueva York, así como las de todo Estados Unidos, son las más grandes desde los años 20.
Pero por una vez, permítanme concentrarme en lo positivo: la ciudad más importante del mundo, una ciudad que parecía destinada a una
declinación irreversible hace una generación, hoy parece transitar un camino de prosperidad.
TRADUCCION DE SUSANA MANGHI
Fuente: diario Clarín, de Buenos Aires, Argentina; 16 de julio de 2006.
Geografía Económica
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“¿Haremos frente a una distopía en la que cantidades ingentes de personas poco cualificadas y escasamente remuneradas deberán hacerse cargo de las necesidades de consumo de los ricos?”
Andrew Glyn, destacado economista de izquierda que lleva más de 35 en la palestra, habla con Rob Hoveman de su último libro, Capitalism Unleashed, publicado por Oxford University Press.
Los anteriores libros de Andrew Glyn trataban de analizar los factores que llevaron a la economía mundial de su “edad de oro”, marcada por un fuerte crecimiento que no cesó hasta 1973, hasta una posterior etapa de desempleo masivo, menor crecimiento y gran inestabilidad.
Cuando me reuní con Glyn en el Corpus Christi College de Oxford, donde ha impartido clases desde 1969, destacó que, en su nuevo libro, “he querido dar una explicación clarificadora del modo en que la economía mundial ha cambiado a lo largo de los últimos 30 años. Entre la década de 1960 y la de 1980, el problema principal de la clase capitalista fue la fuerza del factor trabajo. Ahora esta amenaza se ha desvanecido. Lo que he pretendido en este libro es estudiar por qué ha ocurrido esto y dónde se hallan los problemas
fundamentales a los que se enfrenta hoy la economía mundial”.
Capitalism Unleashed analiza el auge de las privatizaciones y de las desregulaciones, la explosión del sector financiero, el fenómeno de la globalización y el crecimiento económico de China. También aborda la cuestión de las condiciones de trabajo y de las remuneraciones de los trabajadores, así como el declive de la fuerza de las centrales sindicales y, en definitiva, las contradicciones del crecimiento económico durante las últimas tres décadas.
“En libros anteriores, como British Capitalism. Workers and the Profits Squeeze (1972), mi coautor y yo pusimos especial énfasis en las relaciones entre capital y trabajo. Todavía hoy sigo pensando que, durante el largo
boom, los sindicatos lograron negociar salarios más elevados y mayores niveles de gasto público en materia de bienestar social. Aun donde los sindicatos se mostraban menos fuertes, la propia intensidad del boom económico hizo que los salarios subieran significativamente. Asimismo, la creciente competencia a escala internacional impidió que las compañías elevaran sus precios como respuesta a este mayor coste del factor trabajo. Con todo, la fuerza de los trabajadores propició un incremento de los salarios reales a expensas de los beneficios. Creo que ésta fue la causa más importante de la transición de la edad de oro a una era de inestabilidad”.
“De hecho, la necesidad, por parte de la clase capitalista, de debilitar el factor trabajo para recuperar sus niveles de beneficios explica por qué presionaron a favor de las políticas que, en determinados espacios geográficos, se
impusieron durante la década de 1980. Cuando Thatcher fue elegida, mucha gente de izquierdas sostenía que el monetarismo era irracional. Yo no estaba de acuerdo con ellos. El componente racional del monetarismo en tanto que corriente económica amplia capaz de sustituir el keynesianismo, era, primero, su afán por reestablecer el mercado –no el activismo sindical- como instancia encargada de determinar los salarios; y, segundo, su insistencia en que el desempleo masivo era el precio que se tenía que pagar para restaurar la rentabilidad de los capitales y sentar las bases de un capitalismo más sano”.
“De hecho, países que habían mostrado elevados niveles de activismo sindical en la década de 1960 se encontraban, más tarde, con los mayores niveles de desempleo. En otras palabras: a mayor malestar en el ámbito productivo en la década de 1960, mayor necesidad, años después, de recurrir al
desempleo para forzar una bajada de los salarios que pudiera hacer subir la productividad. Por supuesto, hubo muchos apretones de manos ante la subida del desempleo por parte de aquellos para los que el debilitamiento del factor trabajo era una realidad que debía ser bienvenida”.
“Pero los gobiernos distaron de adoptar medidas consistentes con la lógica del monetarismo definido en sentido estricto que decían abrazar. Sin ir más lejos, en los Estados Unidos de la década de 1980 el gobierno incurrió en enormes déficit presupuestarios como consecuencia del incremento del gasto público en el terreno militar, incremento que no se vio acompañado ni por una subida de los impuestos, ni por niveles relevantes de crecimiento económico. Resulta irónico constatar que esta realidad contrastaba con la que, durante las décadas de 1950 y 1960, caracterizó el auge del keynesianismo, cuando los gobiernos
lograban equilibrar sus presupuestos pese al incremento del gasto correspondiente a la puesta en marcha del Estado del Bienestar”.
“Déficit presupuestarios de grandes proporciones no son garantía de que una economía se reanime. Sin ir más lejos, el Japón de los últimos 15 años constituye un ejemplo de cómo los déficit pueden no funcionar como herramienta para reavivar una economía estancada. Lo que ocurrió en Japón fue que tales déficit no se emplearon en el incremento de la inversión de la que el crecimiento económico depende de un modo crucial. En cambio, los déficit presupuestarios de los Estados Unidos, tanto en la década de 1980 como más recientemente, sí lograron espolear la economía de forma clara”.
“Asimismo, observamos en el incremento de la deuda del sector privado, que se ha disparado tras
la liberalización del sistema financiero, una segundo estímulo de la economía estadounidense. Si la década de 1980 vivió un keynesianismo militar de derechas, el nuevo siglo está viviendo un crecimiento económico que descansa en un keynesianismo basado en el consumo del sector privado. No obstante, la filosofía predominante ha sido la que insta a reducir las expectativas con respecto a lo que el Estado puede hacer para favorecer el trabajo y a asumir que el mercado en ningún caso puede verse cuestionado”.
A partir del análisis de los bajos niveles de activismo sindical durante los tres o cuatro últimos lustros, Glyn asegura que las condiciones económicas y políticas imperantes durante estos años han ocasionado un derrumbe del poder del factor trabajo. “En Gran Bretaña, el punto de inflexión decisivo lo constituyó la derrota de los mineros en su gran huelga de 1984 y 1985. En aquel
momento no quise admitirlo, pero creo que este acontecimiento dejó a los sindicatos replegados, aturdidos por la derrota, lo que hizo posible que gobiernos sucesivos prosiguieran con sus políticas de privatización y de desregulación hasta niveles mayores que en otros países como Alemania, en los que no se había producido una derrota tan clara de una de las principales ramas del movimiento obrero”.
“También ciertos cambios estructurales en la economía han generado condiciones adversas que han contribuido a minar la fuerza de los sindicatos. Mientras que los sectores industriales más altamente sindicalizados han perdido peso específico en la economía, el sector de los servicios, mucho menos sindicalizado, ha ido tomando cada vez mayor importancia. Cierto es que la sindicalización ha aumentado en el seno del sector público, lo que, hasta cierto punto, ha permitido compensar la pérdida de
poder de los sindicatos en otros sectores. Pero estos índices de sindicalización en el sector público se explican, bajo mi punto de vista, por la continuada tendencia a privatizarlo. Y esta tendencia es la causa de que hayamos visto presiones para que, también en el sector público, se tienda, precisamente, a disminuir los salarios y a debilitar las organizaciones sindicales”.
“Ciertos aspectos de la globalización han tenido efectos también sobre la militancia en los sindicatos. El capital se ha internacionalizado y presenta ahora mayor movilidad, lo que hace que la posición de los trabajadores sea más insegura. En la actualidad, la inversión de empresas de los países industrializados en nuevas factorías abiertas en economías de bajos salarios del Sur constituye sólo un cuatro por ciento de sus inversiones en los países del Norte. Pero el goteo es imparable. La imagen de los nuevos
propietarios desmantelando la maquinaria en Longbridge y trasladándola a China es realmente impactante. Y la amenaza que supone la globalización no se reduce al fenómeno de la deslocalización de la inversión. Sin ir más lejos, la compra de productos intermedios a través de la subcontratación de productores del Sur tiene el mismo efecto: en ambos casos, las ocupaciones de los trabajadores del Norte se ven amenazadas”.
“El goteo de la inversión del Norte en el Sur puede estar convirtiéndose ya en una auténtica inundación. Y lo que hace de ello una cuestión de alto interés es el hecho de que el mismo proceso esté empujando ya a regiones especialmente pobres del mundo hacia un rápido proceso de desarrollo de tipo capitalista. Así, al mismo tiempo que ha contribuido a debilitar el movimiento obrero, la globalización conlleva profundos y profundamente perjudiciales efectos para el conjunto de
la economía mundial”.
“En este sentido, una de las novedades más importantes que han marcado el capitalismo durante estos últimos años es el acceso, por parte de los propietarios, a ingentes fuentes de trabajo barato en Rusia, en el Este de Europa y, sobre todo, en China. Yo no dejé de insistir en que los cambios reivindicados por los teóricos de la globalización descansaban en grandes exageraciones con respecto tanto al comercio como a la inversión. En efecto, estas reivindicaciones estaban siendo utilizadas por ciertos políticos para sostener, equivocadamente, que las aspiraciones tradicionales de la izquierda ya no iban a ser realizables. Y lo que ocurre es que si las tendencias actuales se consolidan, nos hallaremos ante el reto político de tener que hacer frente a una situación verdaderamente nueva”.
“La novedad realmente significativa es el extraordinario crecimiento de China. Durante los últimos 50 años hemos contemplado el ascenso económico de Japón y, después, de los Tigres del Sureste asiático. El crecimiento de tales países no ha quedado exento de problemas, tanto para Europa como para los Estados Unidos. De hecho, los propios países citados, Japón y los Tigres asiáticos, han tenido que hacer frente a serias tensiones económicas. Por un lado, Japón ha vivido 15 años de estancamiento una vez que, en 1990, su burbuja reventó. Por el otro, los Tigres sufrieron un severo choque a finales de la década de 1990. Sin embargo, puede afirmarse en términos generales que la emergencia de tales países ha sido absorbida por Europa y los Estados Unidos”.
Cambio económico
“El crecimiento chino supone un fenómeno económico de naturaleza completamente distinta. Su fuerza de trabajo equivale a casi diez veces la de Japón y Corea juntos. China goza ya de un importante superávit en su balanza de pagos y, en su área de influencia, el valor del dólar depende de las decisiones de las autoridades monetarias chinas relativas a la compra de dólares. Si se produjera un eventual cambio en la línea de la política monetaria del gobierno chino, el dólar podría desplomarse, con lo que los Estados Unidos se verían obligados a subir las tasas de interés para frenar la caída del dólar y evitar un aumento de la inflación”.
“Se hace difícil prever con claridad el impacto potencial del estelar crecimiento de la economía china. En la actualidad, los salarios están empezando a subir, lo que reducirá la
competitividad de China pero, al mismo tiempo, aminorará también las ventajas de las que, hasta ahora, gozaban los consumidores del Norte como consecuencia de los reducidos precios de los bienes chinos. Realmente se hace difícil entrever cómo Europa y los Estados Unidos tratarán de absorber la competencia proveniente de China. Si el atractivo que suponen los bajos salarios convierte el actual goteo de la inversión de los países ricos en una auténtica inundación, el estancamiento de las economías del Norte se convertirá en un hecho difícil de evitar”.
“Una segunda gran fuente de problemas para la economía mundial es el crecimiento explosivo del sector financiero, que pone en jaque la estabilidad de aquélla. El Banco de Pagos Internacionales (Bank for International Settlements), que se supone que debe regular y gestionar el sistema financiero internacional, ha sacado a la luz un buen
número de informes mostrando su preocupación ante la situación actual. No obstante, quienes justifican la desregulación del sector financiero aseguran que el riesgo se halla tan diversificado a lo largo y ancho del sistema, que dicha desregulación favorece la inversión real en el resto de ámbitos de la economía. La realidad, sin embargo, es que la inversión real ha sufrido un relativo estancamiento en el mundo industrializado, con la transitoria excepción del boom de las empresas de Internet en los Estados Unidos de finales de la década de 1990”.
“La fragilidad del sistema financiero es el factor que, con mayor probabilidad, puede dar pie a una importante crisis económica. Sin ir más lejos, recientemente pudimos observar cómo el sistema financiero se tamaleaba cuando el fondo de garantías “Long Term Capital Management” (LTCM), de cuyo consejo forman parte dos premios Nóbel, se fue
a pique como consecuencia del colapso de las monedas de los Tigres”.
“Algo debe fallar cuando el famoso inversor estadounidense Warren Buffet habla de los derivados financieros como de “armas financieras de destrucción masiva”; o cuando una persona encuestada por el Financial Times califica como “cocaína de primera del sistema financiero” los préstamos que los bancos hacen a los fondos de garantías; o cuando el Banco Central Europeo hace la chocante comparación entre un eventual colapso de tales fondos de garantías y una pandemia de gripe aviar”.
Pregunté a Glyn si creía que los Estados conservaban todavía el poder para intervenir e intentar hacer frente a estos potenciales embates del sistema financiero. “En Capitalism Unleashed –dijo- explico cómo la Reserva Federal estadounidense puso en circulación enormes cantidades de dinero para evitar que la crisis del LTCM tuviera consecuencias catastróficas”. Sin embargo, no tenemos garantías de que tales intervenciones vayan a resultar siempre tan exitosas. Las fluctuaciones financieras se han reducido, lo que puede ayudar a absorber choques de menor importancia, pero la cuerda ya se ha estirado demasiado. ¿Quién puede garantizar que no se romperá?
“Durante los últimos 20 años la fuerza de trabajo se ha batido en retirada de forma muy significativa. Los salarios se han congelado y los niveles de beneficios se han recuperado. Desde el punto de vista de
la ortodoxia económica, el resultado de tal situación debería ser un aumento de la inversión, así como el logro de un crecimiento rápido y de unos niveles de empleo superiores. Pero la realidad para nada ha sido esta. Una causa de todo ello quizás deba imputarse a los temores ante la inestabilidad del sistema financiero que muestran los agentes económicos”.
“Se está dando una auténtica paradoja, pues, en términos de crecimiento económico, la década de 1990 fue, de hecho, la más estable después de 1945, tanto en los países ricos como en lo que respecta a la economía mundial en su conjunto. Sin embargo, las decisiones de las compañías acerca del cuándo, del dónde y del cuánto invertir parecen tener que enfrentarse a grados de incertidumbre cada vez mayores. Los tipos de cambio han fluctuado de modo salvaje y gigantes industriales con una larga historia tras de sí han perdido cuotas de
mercado. En este contexto, invertir para expandir la producción no es una cuestión que tenga que ver solamente con el nivel actual de los beneficios empresariales, sino también con la confianza, por parte de los capitalistas, en las expectativas para con el futuro. Los ‘animal spirits’ de los que hablaba Keynes se encuentran de capa caída”.
Andrew Glyn no cree que los Estados se hallen en condiciones de imponer controles sobre los flujos de capital financiero de forma exitosa, pero sí considera factible que impongan impuestos más elevados para financiar el bienestar de sus ciudadanos. Glyn rechaza el argumento preferido de los políticos del New Labour, según el cual más impuestos en Gran Bretaña desalentarían la inversión y la “empresa”. “De hecho, en Suecia existe ya un régimen impositivo más fuerte que el de Gran Bretaña, lo que no ha sido óbice para que se logren niveles altos de
crecimiento económico, todo ello con el apoyo aparente de buena parte de una población que, además, puede gozar de niveles de gasto en bienestar social mucho mayores que los que se contemplan en Gran Bretaña”.
Glyn se muestra reticente a la hora de hacer predicciones de futuro. “La economía mundial es demasiado complicada y coexisten demasiados factores causales de diversa índole. No creo, como antes, que los conceptos de Marx deban ser aplicados de un modo excesivamente literal para analizar la realidad económica. Prefiero acercarme a los postulados de la Escuela Uno japonesa, según la cual el análisis de Marx debería coadyuvar a definir nuestra propia forma de analizar el mundo y de verter preguntas sobre el mismo.
El primer volumen del Capital, por ejemplo, proporciona un marco conceptual y analítico brillante para entender qué está ocurriendo hoy en China”.
Pese a que el futuro es, en efecto, incierto y las predicciones no pueden más que ser tentativas, Glyn afirma, sin embargo, que ciertos resultados son más probables que otros. En cualquier caso, tal y como plantea en su Capitalism Unleashed, “aun habiendo hecho frente a los retos de la década de 1970, el sistema capitalista, también en el Norte, dista de haber alcanzado un ‘fin de la historia’ en el que el crecimiento y la estabilidad se hallen garantizados”.
Andrew Glyn señala tres problemas fundamentales para el crecimiento económico a escala mundial durante los próximos años. En primer lugar, es probable que el crecimiento de la
productividad se ralentice como consecuencia del auge permanente del sector servicios, en el que la innovación es siempre más difícil. El envejecimiento de la población no hace más que contribuir a que dicha tendencia se consolide. En segundo lugar, es probable también que constricciones de tipo medioambiental se ciernan sobre la economía mundial de un modo cada vez más apremiante. En tercer lugar, los beneficios que suponen para el Norte los bajos salarios de la economía china irán reduciéndose a medida que, inevitablemente, los salarios vayan subiendo en dicho país. De hecho, la historia muestra que, cuando las reservas de trabajo se agotan, dicho fenómeno se manifiesta siempre del mismo modo. Estos tres factores presagian crecimientos muy lentos de los niveles de vida medios. Además, la combinación de un crecimiento económico lento con crecientes desigualdades en el acceso a la renta no puede sino generar mayores dosis de conflicto en lo que respecta a la cuestión de la
distribución del producto social.
“Antaño, trabajadores poco cualificados podían obtener empleos relativamente bien pagados en el sector manufacturero. Hoy, los escasos empleos disponibles se encuentran escasamente remunerados en un sector, el de los servicios, que ha sido dispuesto para satisfacer las necesidades de consumo de los ricos, quienes han visto cómo sus propias rentas han crecido enormemente. Ello obligará a poner de nuevo sobre el tapete los problemas relacionados con la desigualdad y la redistribución. ¿Haremos frente a una distopia en la que cantidades ingentes de personas poco cualificadas y escasamente remuneradas deberán hacerse cargo de las necesidades de consumo de los ricos? ¿O lograremos obtener el apoyo de la mayoría para luchar en favor de niveles mayores de imposición sobre los más favorecidos para redistribuir la renta y
desarrollar programas de bienestar social y, así, mitigar los problemas vinculados a la creciente desigualdad y al lento incremento de los niveles de vida?”
Capitalism Unleashed, de Andrew Glyn, contiene una gran cantidad de argumentos, análisis y datos acerca del funcionamiento de la economía mundial durante los últimos 30 años. Además, es muy accesible para el lector no especializado. Uno puede no estar de acuerdo con todo lo que Glyn sostiene, pero la lectura de este libro y la reflexión acerca de lo que en él se plantea resultará altamente beneficiosa para todos aquellos
que se sientan próximos al ideario socialista.
Dentro de la perspectiva del V° Congreso Europeo CEISAL de latinoamericanistas "Las relaciones intercontinentales entre Europa y las
Américas en el siglo XXI: expectativas y desafíos" (ver www.ulb.ac.be/soco/cercal/accueil.html), en Bruselas del 11 al 14 de abril de 2007, les rogamos tomar conocimiento de la convocatoria a ponencias en el marco del Simposio RUR-2 "Territorios y actores rurales latino-americanos: nuevas prácticas y nuevos modelos de gestión" . En el archivo adjunto se encuentra
la información necesaria sobre la problemática y los objetivos del simposio, y el formulario de propuesta de ponencias. Una vez aceptada la ponencia, se deberá inscribir al Congreso y enviar el texto completo antes del evento.
Esperando tenerlos con nosotros en abril de 2007, les saludamos muy cordialmente.
M.
Guibert, M. Neuburger, M. Sili y E. Karnopp
CERCAL - Centre d'Étude des Relations entre l'Union Européenne et l'Amérique latine
Martine GUIBERT (UTM / Université de Toulouse 2 – Le Mirail, Département de géographie, Equipe « Dynamiques rurales », IPEALT, Francia) y Martina NEUBURGUER (University of Tuebingen, Department of geography, Alemania)
Co-organizadores:
Marcelo SILI (Conicet, Universidad nacional del Sur - UNS, Fundación
Génesis, Argentina) y Erica KARNOPP (Universidade de Santa Cruz do Sul, Brasil)
Problemática:
En el marco de una apertura cada vez más profunda al mundo (globalización) y a los países
vecinos (integración regional), los territorios rurales latino-americanos viven rápidos procesos de modificación de sus funciones sociales, productivas, políticas y ambientales: cambio tecnológico en el sector productivo, valorización de nuevos recursos, aumento en la conectividad y las telecomunicaciones, densificación de los intercambios y lógicas exacerbadas de deslocalización de la producción y de la renta, pérdidad de autonomía alimentaria y transformación de los espacios de vida de los habitantes más tradicionales. Estas dinámicas están afectando al conjunto de la población rural y tienen igualmente un efecto directo sobre las dinámicas urbanas, pues las nuevas relaciones campo ciudad están transformado la economía urbana y el imaginario colectivo en torno al campo.
Frente a estos procesos también cambian los enfoques, las políticas y las metodologías de desarrollo rural, con procesos de decentralización que están impulsando procesos innovadores. Sin embargo, existe un déficit muy grande en la coordinación y organización de las múltiples iniciativas. Se pierde eficacia en las políticas de desarrollo rural, situación que no permite aprovechar algunas ventajas que los procesos de globalización e integración regional están generando.
El simposio propone entonces intercambiar interpretaciones inter-disciplinarias sobre estas dinámicas y sobre la búsqueda de soluciones innovadoras a situaciones de empobrecimiento y de marginalización, búsqueda que involucra también la construcción de un nuevo diálogo entre las iniciativas de desarrollo rural de Europa (programa Leader) y las de los países y regiones de América Latina. Especificamente, se centrará en cinco temas transversales :
Tema 1: producción agro-pecuaria y población local,
Tema 2: nuevas funciones de los territorios rurales y relación campo-ciudad,
Tema 3: patrimonios rurales (naturales y socio-culturales) y su puesta en valor,
Tema 4: intervención pública y modelos de desarrollo rural, y
Tema 5: relación Europa – América Latina en torno al desarrollo rural.
"El 70 % de los trabajadores de las maquilas son mujeres"
Redacción de APM (*) |
Un panorama sobre la situación de las maquilas en América
Latina, y principalmente en México, donde la instalación de estas plantas de ensamblaje se fue acrecentando desde la promulgación del NAFTA.
Robinson Salazar Pérez, está Doctorado en Ciencias Políticas y Sociales y en Antropología Social por el Centro de Investigaciones en Docencia y Humanidades del Estado de Morelos (CIDHEM), en México.
Cuando fue consultado acerca de su nacionalidad, él respondió de una forma muy peculiar, “Bien… soy hijo de cubanos, nací en Cuba, salí de muy niño, antes de la Revolución, me naturalice colombiano, luego lo hice también en Nicaragua y en El Salvador, resido desde hace 20 años en México y tengo la residencia en ese país”.
Actualmente, es el Director Ejecutivo de la Red de Investigadores Latinoamericanos por la Democracia y la Paz (RILDEPAZ). Este proyecto es la manifestación plural de un grupo de docentes e investigadores de América Latina que se propusieron intercambiar opiniones, experiencias y saberes.
Desde la Red, se editaron varios libros desde diversos campos temáticos que denotan el compromiso para con la situación que acontece en Latinoamérica. “Los textos tienen como objetivo principal permitir a los estudiosos de
nuestros pueblos entender lo que está sucediendo, el sentido de los procesos políticos y sociales, la lógicas de comportamiento de los movimientos sociales y el horizonte democrático de la sociedad latinoamericana”, comenta Salazar.
Como sustento político e ideológico, la Red plantea “la participación social amplia, la convocatoria incluyente, los liderazgos compartidos y corresponsabilizados, la participación autoconvocada, las nuevas practicas políticas, la socialización de ideas y la sumatoria de fuerzas en acciones convergentes, sin perder su identidad autonómica, son los nuevos ingredientes que se descubren en los actores emergentes(…) “Así se va confeccionando el traje democrático en América Latina, con la participación de todos los pueblos que habitan en su cuerpo, de ahí la idea de armar una red de investigadores latinoamericanos, para que cada uno, desde su país, con la experiencia y
conocimiento acumulado, pueda participar en el diseño y confección de este traje vistoso, amplio y multicolor, que arrope un cuerpo plural, multiétnico, multicultural y deseoso de encontrar un traje apto para todos y a la altura de las exigencias de los miles de actores que demandan democracia y respeto en América Latina”.
Robinson Salazar se presentó como un hombre netamente latinoamericano; recorrió muchos países, adoptando diferentes ciudadanías, e hizo suyo cada reclamo y cada lucha que supo escuchar, vivir y emprender. Es por tal motivo que este hombre resulta una voz confiable y plena de sabiduría para adentrarnos en la problemática de las maquilas.
La maquila es una industria manufacturera que depende y trabaja para un contratista, (todos extranjeros), quien les proporciona la materia prima o las piezas para
ensamblar un producto que luego será reexportado y largado al mercado consumidor.
La palabra maquila es un término que proviene del árabe que significa, según el diccionario, "porción de grano, harina o aceite que corresponde al molinero por la molienda". En América Central y México, el término está asociado a frases como, precariedad laboral, abusos y acoso contra las mujeres, falta de libertad sindical y de negociación, bajísimos salarios y extensas y agotadoras jornadas de trabajo.
Entre los años ‘60 y ‘70 comenzó el proceso de instalación de algunas industrias de ensamblaje desde Estados Unidos hacia América Latina. Ya en los años ‘90, con el impulso de la liberalización del comercio internacional, la globalización de la economía y el auge del neoliberalismo, este fenómeno se extendió de manera descomunal por todo el mundo, puesto que se sumaron capitales
europeos y asiáticos al negocio.
- ¿Dónde suelen instalarse las Maquilas?
- Se instalan en las “zonas francas” que son zonas industriales que han creado los gobiernos del Sur especialmente para atraer inversiones de las multinacionales. En estas zonas, los gobiernos ofrecen a las empresas privilegios económicos: no pagan impuestos, pueden sacar el dinero del país fácilmente y además el gobierno mantiene una estructura de empresas de servicios para las propias multinacionales.
Las multinacionales aprovechan que no tienen que pagar impuestos y no hay legislación sindical, ni medioambiental. Chicas muy jóvenes y mujeres suben de México a la frontera para trabajar en estas maquilas.
Las empresas confeccionan con materias primas y
maquinaria que provienen del Norte y las vuelven a enviar hacía los centros comerciales en el Norte. Por ello se mantienen las etiquetas made in UK, made in USA o in Spain. Aunque lo hayan cosido en la India, Bangladesh, Marruecos, Guatemala o México.
En las zonas francas generalmente se produce en cadena y trabajan mujeres o niños/as en condiciones de explotación y con sueldos bajos. Aunque a menudo estos sueldos son superiores a los que se perciben en otros trabajos en el mismo país. Por eso, mucha gente quiere buscar trabajo aquí.
En la frontera de México con Estados Unidos hay unos diez, quince kilómetros de zonas francas, donde en 1992 había 900 empresas de Estados Unidos. Las empresas multinacionales norteamericanas que se sitúan allí son conocidas como maquilas.
- Además de las ventajas ya mencionadas
¿Cuáles son las principales causas que las multinacionales tienen para trasladar sus empresas a los países del Sur?
- En el caso particular de México, el país se ha dividido en tres regiones o tres fronteras internas. La primera frontera comercial de los Estados Unidos con México parte de Manzanillo, Colima; pasa por Guadalajara, Jalisco; Monterrey, Nuevo León; y llega hasta Nogales, Tamaulipas.
La segunda se encuentra instalada en la zona que se conoce como el Bajío, contempla los Estados de San Luis Potosí, Zacatecas, Aguascalientes, Guanajuato y Durango.
La tercera es la conocida como Plan Puebla Panamá, o sea, toda la región sureste y donde se encuentran la mayor cantidad de yacimientos de petróleo y riqueza hídrica con biodiversidad combinada.
Ahora bien, la primera frontera tiene perfilada toda su economía para abastecer la zona centro de los Estados Unidos, región donde se concentra el mayor número de empresas grandes que demandan piezas y auto partes. México ha especializado su mano de obra en este rubro y ha construido, con fondos públicos, la infraestructura suficiente para que se instalen las maquilas que surten la demanda norteamericana.
México ofrece algunas ventajas que le llaman compensaciones económicas, donde muchas de estas empresas que se instalan, con capital 100 por ciento foráneo, están exentas de gravamen, no pagan impuestos los primeros dos o tres años, todo en función de la cantidad de empleo que generan, asimismo la mayoría de estas empresas, en contubernio con los gobiernos municipales y estatales, impiden la sindicalización de los trabajadores, se inclinan por contratar mujeres y asignan
salario que están entre los 1.400 hasta los 3.000 pesos mexicanos mensuales.
Entonces, ventajas por las exenciones de impuesto, bajos salarios, sin riesgo de parálisis por huelga o paro, inclinados a contratar mujeres que son menos conflictivas y mas propensas a recibir amenazas y ser atemorizadas, son las piezas claves para analizar el por qué se inclinan en instalar este tipo de empresas en México; aunque hay que subrayar, que en los últimos tres años, más del 35 por ciento de estas empresas se desplazaron a China, dado que las ventajas son mayores en el país asiático.
- ¿Qué productos elaboran?
- Se dedican principalmente a productos textiles, farmacéuticos, electrónica e informática; y en maquilas de mayor rango, auto partes de refrigeración, y electrodomésticos.
Es valido recalcar, que la gran mayoría de las materias primas para la elaboración de estos productos son importadas, lo cual demuestra que la economía de los países receptores de las maquilas tienen muy pocas, casi nulas, posibilidades de obtener ventajas comerciales.
- ¿Cuáles son las condiciones de los trabajadores/as en las maquilas?
- Deplorables, se violan las garantías constitucionales y no cuentan con respaldo sindical. Trabajan más de ocho horas, casi siempre sus jornadas son de pie, como en la confección y ensamblaje de auto partes, calzado, piezas para computadoras, engranaje, troquel y empaque de alimentos agroindustriales. Escasas son las maquilas que cuentan con trabajo en donde permanecen sentados, amen las de confección textil.
Son jornadas de 12 horas donde, a pesar de reconocerles el tiempo trabajado, no compensa con lo largo de las jornadas, las condiciones en que laboran y los alimentos que ingieren.
Las construcciones son galerones con estructura de hierro y laminas, que en tiempo de calor son invisibles y en temporada de frío son extremosas.
Las requisas, la supervisión exigente, el horario restringido para tomar los alimentos, el trato grosero y altisonante, los baños y áreas de alimentos sin condiciones mínimas de higiene, son ingredientes de la explotación y la convivencia al margen de la dignidad humana.
El salario de las mujeres está en un rango de 20 y 30 por ciento más bajo que el asignado a los varones, en las maquilas donde predominan las mujeres como trabajadoras, los hombres asumen los
cargos de supervisión, por lo que propicia maltratos, hostigamiento sexual y hasta violaciones que se denuncian, pero no transitan en la mesa de los ministerios públicos. Tampoco existen contratos, sino subcontratación por temporada y liquidación cada seis o doce meses para evitar que tengan antigüedad en el trabajo.
- ¿Por qué las mujeres son las principales trabajadoras en las maquilas?
- Se calcula que el 70 por ciento de los trabajadores de la industria textil son mujeres. Los trabajos mejor pagados, como la supervisión, el corte, lo hacen los hombres.
Normalmente se paga a las mujeres entre un 20 y un 30 por ciento menos que el sueldo de los hombres. La industria textil se basa en la idea de que ellas están ganando “dinero de más” para la familia.
Las reglas del comercio internacional tienen enormes implicaciones en la vida diaria de las trabajadoras del sur. En todas las partes del mundo las mujeres trabajan y son el soporte fundamental de las familias. Sucede a menudo que parece que lo que las mujeres hacen es considerado menos importante que lo que hacen los hombres. En la industria de la ropa ellas son las que han elaborado “tu ropa”.
Lamentablemente, el problema no se agota aquí, en una entrevista realizada por la Agencia de Noticias Artemisa a Sergia Báez, obrera adherida a la Unión Sindical de Trabajadores de Guatemala (UNSINTRAGUA), se pudo apreciar que en las maquilas la situación es mucho más compleja de lo que parece. “Las jornadas dobles, los despidos en caso de embarazo, los abusos sexuales, la violación sistemática de la intimidad o la exigencia, previa a al ingreso de la fabrica, de un test de embarazo
son circunstancias generalizadas”, afirmó Báez a Artemisa.
En materia de derechos humanos, los acuerdos internacionales como el “Convenio para la Eliminación de cualquier Forma de Discriminación contra la Mujer” (EFDM) o como el “Pacto Internacional de los Derechos Civiles y Políticos”, desafortunadamente no se aplican ni se respetan desde ningún ámbito y los gobiernos implicados en la instalación y gestación de las maquilas carecen de los medios; de la capacidad política y, por sobre todo de la voluntad para luchar contra estas condiciones de explotación.
- ¿Cómo es la situación sindical?
- Está prohibido sindicalizarse, a pesar de que la Organización Internacional del Trabajo (OIT) lo avala como un mecanismo de defensa del trabajador y las leyes mexicanas lo registran como un derecho, en los
últimos ocho años en México se ha venido construyendo un proceso de desestructuración sindical en todos los ámbitos, pero se pronuncia más en las maquilas fronterizas.
Ahora han surgido ONG y nodos (noticiarios o documentales) de contra información en la Internet que denuncian estas prácticas arbitrarias de los patrones, pero no han impactado, solo han logrado que se conozcan las practicas aberrantes de los patrones y de los capataces o supervisores, o los asesinatos en serie de las mujeres de Juárez.
Robinson Salazar, luego de varias investigaciones ha arribado a la conclusión de que hay un entramado de conexiones entre la industria maquilera y los asesinatos en serie de las mujeres de Ciudad Juárez, México.
Las repercusiones de los asesinatos de Ciudad Juárez ya han recorrido todo el
mundo; pero a pesar del conocimiento, el caso de la muerte de aproximadamente 400 mujeres en los últimos doce años en esa ciudad, permanece en el misterio y en la más absoluta impunidad.
Buena parte de esas mujeres fueron violadas y horriblemente mutiladas; muchos cuerpos aparecieron irreconocibles, reducidos sólo a huesos. Las hipótesis que giran en torno a los crímenes van de la droga a policías, pandillas, traficantes de órganos y seguidores de cultos satánicos.
No obstante, es revelador mencionar que el Salazar ha sumado a las hipótesis, que estos casos se generan en medio de la degradación social de la frontera y de la maquila, en donde las alteraciones en las relaciones de género juegan un papel fundamental. Así mismo apunta que, “las mujeres víctimas de Juárez juegan un papel importante en las maquilas, el crimen organizado y las empresas de seguro
médico”.
- ¿Cuáles son los beneficios de la instalación de las maquilas para los diferentes actores implicados?
- Las maquiladoras se han convertido en el medio a partir del cual podemos ver las tendencias de la globalización en el país. Es el campo en el que podemos apreciar con más claridad las transformaciones y ajustes que ha experimentado México conforme se ha hecho presente este proceso de globalización.
Es notable el aumento de confianza en el ambiente de negocios en detrimento de las condiciones laborales de los obreros.
Las maquiladoras, al igual que otros tipos de inversiones en el país, han utilizado el NAFTA y el régimen maquilador como instrumentos jurídicos que proporcionan mayor seguridad y certidumbre a los
inversionistas extranjeros. Por ejemplo, el capítulo XI de este tratado fue desarrollado, en parte, para ofrecer garantías a los inversionistas de los tres países. Este, al igual que otros acuerdos y convenios firmados con otras regiones del mundo, es un mecanismo que obliga a México a proporcionar un trato igual a empresarios nacionales y extranjeros, con lo cual se reducen las posibilidades de que los inversionistas extranjeros vean perjudicados sus negocios en este país.
- ¿Cuál es la formula mas apropiada para combatir las condiciones de esclavitud a la que están sometidos tantos hombres y mujeres?
- A simple vista, nos aparece un mapa conflictuado, las múltiples expresiones confrontativas, los desarreglos institucionales, la perdida de credibilidad orgánica de los sujetos estructurados y el desencuentro actoral para construir pactos y acuerdos
nacionales no dejan un intersticio para alentar el optimismo; no obstante dentro de cada conflictividad hay una esperanza que envuelve la demanda, incentiva la participación y motiva a que el arsenal de prácticas políticas crezca cada día.
Indudablemente que un análisis desde la perspectiva de la teoría crítica nos dice que muchas de las apreciaciones y predicciones del marxismo están más cerca al mundo de hoy que lo descrito por los teóricos neoliberales, basta releer el Manifiesto Comunista y hallamos congruencia del pensar con la realidad; pasajes que tienen que ver con la lucha de clases, la apropiación de las riquezas a través de la explotación y la inevitable confrontación entre desposeídos y expropiadores, son parte del presente latinoamericano.
El neoliberalismo, por su naturaleza social y económica procrea una nueva forma de esclavitud,
dado que su objetivo al igual que la globalización es la de privatizar, liberalizar y desregular la economía, a fin de que no exista un solo enclave que la defienda del apetito voraz de los empresarios.
Ante este escenario, los espacios de lucha se acotan, las maniobras políticas se reducen a la denuncia y las alianzas de clases se rompen por la fragmentación que prohíja el modelo imperante.
Una de las premisas afirmaba que el futuro de la etapa imperialista habría de desatar una guerra inter-imperialista, cosa que no ha sucedido, lo que vemos hoy día es una guerra de países imperialistas contra países periféricos; incluso, ampliación de las fronteras imperialistas, ya no ocurre en el ámbito de la producción, sino que invade el área de los servicios, la educación, la salud, remesas y hasta las jubilaciones, mercantilizando estos ámbitos que eran conquistas
laborales y resituandolas como mercancías que deben ser adquiridas, sin que medie el subsidio estatal y sujetas a sanciones que han inventado los organismos internacionales como OECE (Organisation for Economic Co-Operation and Development), Banco Mundial, Fondo Monetario Internacional entre otras.
No hay formula, hay practicas políticas, nuevas formas asociativas, desplazamientos súbitos, “cortocircuitantes” y explosivos que están dando respuesta a todas las formas de opresión sin que una de ella se quede elegida como opción uno, sino que varían en función de la circunstancia, la coyuntura y la efervescencia política.
Basta exponerse a sitios como en la ciudad de Buenos Aires, para observar esta modificación y cualquier persona que se asome a ese lugar entenderá que hay una sociedad viva, que demanda trabajo, exige el cese de hostilidades, más educación y
seguridad pública, que paren los secuestros, que liberen a los presos políticos, que los desaparecidos los reconozca el gobierno y los militares, en fin, La Plaza frente al Congreso es un buen objetivo para ver la resignificación del espacio público.
Hay que dejar claro que el abanico de prácticas políticas que estamos observando no necesariamente las porta un sujeto emancipador. Esto aun está lejano, o lo vemos a mediano plazo.
Estos segmentos sociales actuantes, por si solo no puede llevar a una situación explosiva al conjunto de la sociedad, requieren necesariamente construir puentes, diálogos y redes con otros grupos de la sociedad latinoamericana, ahí, en este llamado caben intelectuales, empleados medios, cuenta propia, campesinos y otros mas que den cuerpo a un sujeto más contundente, heterogéneo, convergente y de amplio peso en el conjunto de la
sociedad.
- Como consumidores, ¿Se puede hacer algo para que esta situación cambie?
- Se están realizando esfuerzos por sacar adelante un tribunal de los pueblos que sancione por la vía del consumo a estas empresas transnacionales o de alianzas estratégicas que violentan o vulneran los Derechos Humanos; los intentos se han dado en la practica con resultados positivos, aun falta un camino que transitar; lo que se ha descubierto es que solamente atacándolos por la vía del consumo, dejar de adquirir sus productos o lanzar una consigna por la Web de que los textiles o piezas de auto partes o electrodomésticos salen al mercado manchadas de sangre o del dolor de las trabajadoras han sembrado algunas ideas y acciones, falta aún más, pero el objetivo es lo mejor que se ha hecho hasta ahora.
Si no insistimos en apropiarnos de asuntos que tienen que ver con la privatización del agua, la energía, la biodiversidad, las patentes, la militarización, el desempleo, la esclavitud y la necesidad de cambiar lo que no sirve y los situamos en el seno de la casa, la política seguirá siendo vista como algo nocivo y corruptible; pero si ejercitamos la reflexión, el intercambio de opiniones, la búsqueda de opciones sobre lo que acontece afuera del hogar, la política se acuerpa y renace.
También los espacios públicos deben ser llenados de diálogos que le den sentido a la inseguridad pública, a los secuestros, a la escasez de trabajo, los bajos salarios, los servicios públicos insuficientes y caros, al papel de las escuelas y las universidades, la corrupción y la ineficiencia de los gobiernos. Sólo así entenderíamos que hay muchas percepciones que concuerdan en una contundente conclusión, el modelo no sirve, por
eso hay que actuar.
Lo que trato de decir, es que la política cargada de contenido en los espacios privados y públicos es convocante para la actuación, cuándo nos damos cuenta que todo puede cambiar si nos decidimos a intercambiar ideas y a dejar de ser espectadores de la vida cotidiana.
La vida cotidiana se puede convertir en el laboratorio y factoría de las nuevas ideas, de los escenarios propicios para el cambio y cómo insertarse en ella para dejar de ser un espectador y transitar al papel de actor de la historia que se vive a diario.
A modo de conclusión, podemos afirmar que ésta etapa imperial y neo-colonial, que tiene como principal protagonista a Estados Unidos, no sólo provoca desempleo, dependencia, marginalidad, esclavitud, pobreza y hambre, sino que su accionar esta pulsando el “botón” de
insurgencias y protestas de los sectores más golpeados por el modelo en toda Latinoamérica.
Pasó mucho tiempo para despertar, pero el “botón” finalmente fue pulsado. Estas reacciones son parte del comportamiento y la actitud que cualquier ser humano toma cuando se ve despojado de sus recursos y de sus derechos, es por tal motivo que resulta lógico que haya nuevas expresiones políticas que luchen e intenten anular el papel dominante y arrebatador del Imperio Global Privatizado.
(*) Entrevista realizada por Jorgelina Carrizo, Abigail Mazú y Lucía Sbriller, alumnas del Seminario “Periodismo en Escenarios Políticos Latinoamericanos” que actualmente dicta la Agencia Periodística del Mercosur (APM) en la Facultad de Periodismo y comunicción Social de la
UNLP.
Fuente: Agencia Periodística del Mercosur, 19 de abril de 2006.
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La actual etapa capitalista que transita América Latina.
Análisis y perspectiva.
Reinaldo Carcanholo: Doctor en Economía UNAM, México 1982; Master (1975). Profesor de Economía en las Universidades de Brasil, Honduras, Nicaragua, Costa Rica, Chile y México. Autor de libros y numerosos trabajos
en revistas de distintos países. Colaborador el "Moviemto dos Trabalhadores Sem-Terra - MST"; Tutor del "Programa de Ensino Tutorial - Economía / UFES" (SESU / MEC - Brasil). Marcelo Carcanholo: Profesor de Economía en Uberlandia, miembro SEPLA.
26 de julio de 2006
19 horas Centro Cultural de la Cooperación Floreal Gorini, Sala "Solidaridad", Av. Corrientes 1543, Ciudad Autónoma de Buenos Aires ENTRADA LIBRE y GRATUITA - INSCRIPCIÓN PREVIA OnLine INSCRIPCION TELEFONICA 4381-9337/7380/4076 fax 4381-2158 o por e-mail: iade@...
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Nuevo fracaso de una reunión de la OMC golpea al comercio argentino
Fuente: diario Clarín, de Buenos Aires, Argentina; 25 de julio de 2006.
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Estados Unidos eliminó un derecho antidumping que aplicaba a los productos siderúrgicos de la Argentina desde 1990 después de determinar que el ingreso de esos bienes ya no daña a su industria. La medida beneficia al grupo Techint y su empresa controlada Siderar. El derecho, que era de un 56,26%, también afecta a las importaciones siderúrgicas desde Brasil, Corea del Sur, India, Tailandia, México, Taiwan y Turquía, que seguirán siendo afectadas por el arancel.
Fuente: diario La Nación (Economía), 27 de julio de 2006.
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Hace bastante tiempo, venimos trabajando sobre el rol creciente
del llamado Tercer Mundo en la rearticulación de la economía mundial. No encaramos el llamado Tercer Mundo como una expresión de pobreza y atraso. Por el contrario, reafirmamos el sentido original de este término, creado por el importante demógrafo francés, Alfred Sauvy, que hacía un paralelo entre el Tercer Estado en la Francia absolutista - que asumió el liderazgo de la economía moderna capitalista – y el grupo de países que fueron objeto de la dominación colonialista y que se liberaban en la Post Guerra para ocupar un lugar fundamental en una nueva orden económica mundial.
La Conferencia de Bamdung, en 1955, reunió los líderes de China, India, Egipto, Indonesia e Yugoslavia para reivindicar una política de no alineamento, cuyos principios básicos anti guerra fría, se convirtieron progresivamente en los verdaderos ordenadores de la conciencia universal en el final del siglo XX. El crecimiento del Movimiento de los No-alineados, la creación de la OPEP, la
expansión de las propuestas socialistas en las zonas post coloniales llevó a la reacción de los centros hegemónicos mundiales en torno a la Comisión Trilateral que reunió EEUU, Europa y Japón para detener la ofensiva socialista y del llamado Tercer Mundo.
Uno de los productos más elaborados de esta contra-ofensiva ha sido la creación del Grupo de los Siete. Este articulaba lo que en su época eran considerados los mayores PBIs del mundo: EEUU, Alemania, Francia, Japón, Inglaterra, Itália y Canadá. El Grupo de los Siete tuvo un rol esencial en el restablecimiento de la hegemonía mundial centrada en Europa y sus discípulos (entre los cuales se incluya el Japón a partir de la dinastía Meiji y, después de desviaciones antes y durante la Segunda Guerra Mundial, y finalmente bajo la ocupación estadounidense después de la Segunda Guerra. La Tríade asumía su rol central en la economía mundial
El gobierno Reagan modificó muy duramente esta realidad, restableciendo la
hegemonía norte-americana sobre el grupo de los Siete o abandonándolo en varias ocasiones en nombre del poder incontratable de los EEUU. Estratégicamente, la guerra de las estrellas y los programas de investigación de la Gran Ciencia pretendían asegurar el poder absoluto del hegemon. La caída de la URSS abrió el camino para la formación del Grupo de los Ocho, con la integración de Rusia al grupo gestor del mundo, recuperado en buena parte durante el período del gobierno Clinton.
Pero los hechos no confirmaron los planes de los centros hegemónicos mundiales. Durante estos años de fuerte imposición del programa económico neoliberal, los centros hegemónicos mundiales fueron perdiendo posición a cada día. La crisis de largo plazo iniciada en 1967, alcanzó su primero momento de auge en 1973. Después de una recuperación económica altamente comprometedora, entre 1983 y 1987, se profundizaron las inestabilidades del sistema económico mundial y entre 1987 y 1994 la crisis
retornó con enorme violencia generando las condiciones para una retomada del desarrollo en escala mundial. Es decir, ingresamos en un nuevo ciclo largo a la manera que descubrió el economista ruso Kondratiev.
El nuevo ciclo largo de crecimiento, iniciado en 1994, mostró que los centros dinámicos de la acumulación internacional del capital generaban nuevos polos de crecimiento que operaban en una nueva realidad regional. Europa se fortaleció a costa de su unificación y en detrimento de la independencia de sus economías nacionales. Países como Inglaterra y en parte Alemania y más claramente Italia y Francia fueron perdiendo posición en la economía mundial abriendo espacio para la fuerte expansión del sudeste asiático. Ahí, Japón pierde posición para China que gana un enorme poder de articulación de una vasta y poderosa economía regional e inicia una carrera para una fuerte participación en la economía mundial. El refuerzo de India, cambia la inercia del Asia Central
y refuerza un relación aún en marcha con el Oriente Medio, antes llamado el Oriente Próximo (de Europa...).
América Latina, absorbida en los ochenta y principio de los novienta por el pago de una deuda externa colosal y una sumisión extrema al FMI, se libera de gran parte de su deuda y restablece poco a poco las condiciones para una retomada del crecimiento. Brasil asume el rol más activo en este proceso al buscar la confirmación de la experiencia del MERCOSUR, pasando del marco defensivo de una política de liberación de mercados hacia la idea de un bloque regional de toda América del Sur y una retomada del Grupo de los 20+.
En este nuevo contexto el Grupo de los Siete y aún el dos los Ocho pierde totalmente su rol hegemónico. No hay ninguna posibilidad de generar un verdadero centro de decisiones significativas en el plano internacional en el presente momento si no se incluye a China, India, Brasil y también Africa del Sur en este bloque de articulación
mundial Por esto la propuesta de Blair en este sentido, además de otras propuestas que incluyen a México y Congo van se consolidando en el cuadro político internacional. Como fase de transición, en la presente reunión se incluye estos países en un reunión especial del Grupo de los Ocho.
Mucho más cambios vienen por ahí. La creciente eficacia del Grupo de los 20+ que logró la aceptación de Europa de una rebaja de 50% en sus aranceles agrícolas indica que el llamado Tercer Mundo sale de la inercia a que llegó en los años 80s y 90s y vuelve a ejercer su papel en la economía mundial. Se habla de una reforma del FMI para aumentar la participación de sus miembros a partir de sus Productos Brutos Internos. Se dimensiona más seriamente el peso de las potencias demográficas y se siente cada vez más el peso de la articulación de las empresas productoras de energía y de materias primas claves del Tercer Mundo para enfrentar el período de relativa escasez de los mismos durante
la expansión capitalista mundial aún en curso.
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Les envío la 3ª Circular del V Seminario sobre Metodología de la Enseñanza y la Investigación Geográficas, que fue postergado para el mes de setiembre. Les agradezco su divulgación.
Acerca de las exposiciones de Reinaldo y Marcelo Carcanholo
(CCC, Buenos Aires, 26 de julio, 19 horas)
Ayer por la tarde, se realizo la exposicion de Reinaldo
Carcanholo, director por Brasil de la SEPLA (Sociedad de Economia Politica de America Latina) y de Marcelo Carcanholo, vicepresidente de la SEP (Sociedad de Economia Politica) del Brasil, en el Centro Cultural de la Cooperacion. La actividad fue coorganizada por el IADE y el EDI.
Reinaldo se refirio a la actual fase por la que atraviesa el capitalismo, de fuerte predominio del capital financiero. Tales rasgos, explico, determinan condiciones particulares de acumulacion y de intensificacion de la explotacion de la clase obrera, como se verifica en America Latina.
Marcelo se refirio a la situacion de America Latina y a la politica desplegada por Lula en Brasil. Las experiencias neoliberales han conducido a una mayor dependencia y a un menor crecimiento. Frente a esto, afirmo, se plantean en el plano politico diversos proyectos politicos tales como: 1) transitar a un capitalismo mas autocentrado, 2) poner en practica un programa “antineoliberal” de reformas
profundas y, 3) llevar adelante un programa anticapitalista.
Al termino de la exposicion hubo un nutrido intercambio de opiniones. Se abordo, especialmente, el trabajo de la SEPLA conjuntamente con el Movimiento Sin Tierra en el Brasil y la perspectivas de las elecciones de octubre proximo en ese pais, con la aparicion del frente PSOL-PSTU en el escenario politico.
Guillermo Gigliani (EDI)
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Haverá uma relação entre o bombardeamento do Líbano e inauguração do mais estratégico oleoduto do mundo, o qual transportará mais de um milhão de barris de petróleo por dia para mercados ocidentais?
Virtualmente desapercebida, a inauguração do oleoduto Baku-Tblisi-Ceyhan (BTC), que liga o Mar Cáspio ao Mediterrâneo Oriental,
verificou-se a 13 de Julho, exactamente no princípio dos bombardeamentos do Líbano realizados por Israel.
Um dia antes dos ataques israelenses, os principais parceiros e accionistas do projecto do oleoduto BTC, incluindo vários chefes de Estado e executivos de companhias petrolíferas, compareciam ao porto de Ceyhan. Eles foram então despachados para uma cerimónia de inauguração em Istambul, convidados pelo presidente da Turquia, Ahmet Necdet Sezer, nas elegantes vizinhanças do Palácio Çýraðan.
Também presentes estavam o presidente da British Petroleum (BP), Lord Browne, juntamente com altos responsáveis governamentais da Grã-Bretanha, EUA e Israel. A BP dirigiu o consórcio do oleoduto BTC. Outros grandes accionistas ocidentais incluem a Chevron, Conoco-Philips, Total da França e ENI da Itália (ver anexo ).
O ministro da Energia e
Infraestrutura de Israel, Binyamin Ben-Eliezer, estava ali presente, juntamente com uma delegação de altos responsáveis petrolíferos israelenses.
O oleoduto BTC contorna totalmente o território da Federação Russa. Ele transita através das antigas repúblicas soviéticas do Azerbaijão e Geórgia, ambas as quais tornaram-se "protectorados" americanos, firmemente integradas dentro de uma aliança militar com os EUA e a NATO. Além disso, tanto o Azerbaijão como a Geórgia têm acordos de cooperação militar a longo prazo com Israel. Em 2005, companhias georgianas receberam US$ 24 milhões em contratos militares financiados pela assistência militar americana a Israel sob o chamado "Foreign Military Financing (FMF) program". Ver http://www.jewishvirtuallibrary.org/jsource/states/GA.html
Israel tem um interesse nos campos petrolíferos azeris,
dos quais importa uns vinte por cento do seu petróleo. A abertura do oleoduto reforçará substancialmente as importações petrolíferas israelenses da bacia do Mar Cáspio. Mas há uma outra dimensão que se relaciona directamente com a guerra ao Líbano. Enquanto a Rússia foi enfraquecidas, Israel está destinada a desempenhar um importante papel estratégico na "protecção" do transporte no Mediterrâneo Oriental e nos corredores do oleoduto até Ceyhan.
Militarização do Mediterrâneo Oriental
O bombardeamento do Líbano é parte de um roteiro cuidadosamente planeada e militarmente coordenado. A extensão da guerra à Síria e ao Irão já foi contemplada pelos planeadores militares americanos e israelenses. Esta agenda militar mais vasta está intimamente relacionada com o petróleo e os oleodutos estratégicos. É apoiada pelos gigantes petrolíferos ocidentais que controlam os corredores do oleoduto. Em última análise procura controle
territorial sobre a linha costeira do Leste do Mediterrâneo.
Neste contexto, o oleoduto BTC dominado pela British Petroleum, mudou dramaticamente a geopolítica do Mediterrâneo Oriental, a qual agora está ligada, através de um corredor de energia, à bacia do Mar Cáspio:
"[O oleoduto BTC] altera consideravelmente o status dos países da região e cimenta uma nova aliança pro-ocidental. Tendo levado o oleoduto até o Mediterrâneo, Washington praticamente estabeleceu um novo bloco com o Azerbaijão, a Geórgia, a Turquia e Israel" (Komerzant, Moscovo 14/Julho/2006)
Israel agora é parte do eixo militar anglo-americano, o qual serve os interesses dos gigantes petrolíferos ocidentais no Médio Oriente e na Ásia Central.
Enquanto os relatórios oficiais declaram que o oleoduto BTC "transportará petróleo para mercados ocidentais", o que é raramente reconhecido
é que parte do petróleo do Mar Cáspio será directamente dirigido para Israel. Em relação a isto, foi encarado um projecto de oleoduto submarino israelense-turco que ligaria Ceyhan ao porto israelense de Ashkelon e, a partir dali, através do sistema principal de oleodutos de Israel, ao Mar Vermelho.
O objectivo de Israel é não só adquirir o petróleo do Cáspio para as suas próprias necessidades de consumo como desempenhar um papel chave na reexportação do mesmo em retorno para os mercados asiáticos através do porto de Eilat, no Mar Vermelho. As implicações estratégicas desta re-orientação do petróleo do Mar Cáspio são de grande alcance.
Em Abril de 2006, Israel e Turquia anunciaram planos para quatro oleodutos submarinos, os quais passariam ao largo do territórios sírio e libanês.
"A Turquia e Israel estão a negociar a construção de um projecto de energia e água de muitos milhões de dólares que
transportará água, electricidade, gás natural e petróleo por pipelines para Israel, com o petróleo a ser enviado para diante de Israel para o Extremo Oriente.
A nova proposta turco-israelense em discussão encararia a transferência de água, electricidade, gás natural e petróleo para Israel através de quatro pipelines submarinos. www.jpost.com/
"O petróleo de Baku pode ser transportado para Ashkelon através deste novo oleoduto e para a Índia e o Extremo Oriente [através do Mar Vermelho]".
"Ceyhan e o porto mediterrâneo de Ashkelon estão situados a apenas 400 km de distância. O petróleo pode ser transportado para a cidade em petroleiros ou através de pipelines submarinos construídos para isso. A partir de Ashkelon o petróleo pode ser bombeado através do oleoduto já existente para o
porte de Eilat no Mar Vermelho e dali pode ser transportado para a Índia e outros países asiáticos em petroleiros. (REGNUM).
Água para Israel
Também está envolvido neste projecto uma conduta para trazer água a Israel, bombeando água dos recursos a montante dos rios Tigre e Eufrates na bacia da Anatolia. Isto tem sido um objectivo estratégico a longo prazo de Israel em detrimento da Síria e do Iraque. A agenda de Israel em relação à água é apoiada pelo acordo de cooperação militar entre Tel Aviv e Ancara.
O re-direccionamento do petróleo da Ásia Central
Divergir petróleo e gás da Ásia Central para o Mediterrâneo Oriental (sob protecção militar israelense), para reexportá-lo para a Ásia, serve para minar o mercado de energia inter-asiático, o qual está baseado no desenvolvimento de corredores de oleodutos directos
ligando a Ásia Central e a Rússia à Ásia do Sul, a China e o Extremo Oriente.
Em última análise, este desenho é destinado a enfraquecer o papel da Rússia na Ásia Central e desligar a China dos recursos petrolíferos da Ásia Central. Pretende também isolar o Irão.
Nesse ínterim, Israel emergiu como um novo jogador poderoso no mercado global de energia.
Guerra e oleodutos
Antes do bombardeamento do Líbano, Israel e Turquia haviam anunciado as rotas do oleoduto submarino, que passam ao largo da Síria e do Líbano. Estas rotas submarinas não transgridem abertamente a soberania territorial do Líbano e da Síria.
Por outro lado, o desenvolvimento de corredores alternativos por terra (para petróleo e água) através do Líbano e da Síria exigiria o controle territorial israelense-turco sobre a linha costeira mediterrâneo oriental através do Líbano e da Síria.
A implementação deste projecto exige a
militarização da linha costeira do Leste do Mediterrâneo, caminhos marítimos e rotas por terra, estendendo-se desde o porto de Ceyhan através da Síria e do Líbano até a fronteira libanesa-israelense.
Não será isto um dos objectivos ocultos da guerra ao Líbano? Tornar acessível um espaço que permite a Israel controlar um vasto território que se estende desde a fronteira libanesa através da Síria até a Turquia.
"A longa guerra"
O primeiro ministro israelense Ehud Olmert declarou que a ofensiva israelense contra o Líbano "perduraria por muito longo tempo". Enquanto isso, os EUA aceleraram embarques de armas para Israel.
Há objectivos estratégicos subjacentes à "Longa guerra", os quais estão ligados ao petróleo e aos oleodutos.
A campanha aérea contra o Líbano está inextricavelmente relacionada com os objectivos estratégicos americano-israelenses no conjunto do Médio Oriente, incluindo a Síria e o
Irão. Em recentes desenvolvimentos, a secretária de Estado Condoleeza Rice declarou que a principal finalidade da sua missão ao Médio Oriente não era pressionar por um cessar fogo no Líbano, mas ao invés disso isolar a Síria e o Irão. (Daily Telegraph, 22/Julho/2006)
Neste momento crítico, o reabastecimento dos stocks israelenses com armas de destruição em massa produzidas nos EUA aponta para uma escalada da guerra tanto dentro como para além das fronteiras do Líbano.
Anexo Os accionistas do BTC Co. são: BP (30.1%); AzBTC (25.00%); Chevron (8.90%); Statoil (8.71%); TPAO (6.53%); Eni (5.00%); Total (5.00%), Itochu
(3.40%); INPEX (2.50%), ConocoPhillips(2.50%) e Amerada Hess (2.36%). (fonte: BP)
El espectacular crecimiento de China y la India sitúa a Asia en el nuevo centro del mapamundi económico
El espectacular auge de las economías de China y la India, que en el último lustro han registrado tasas de crecimiento anual medio del 9,3% y el 6,2%, respectivamente, está aumentando a pasos agigantados el peso de Asia en el mundo. En el periodo 2000-2005, sólo China ha aportado una cuarta parte del crecimiento de la economía mundial y la India no va a la zaga del
gran dragón pese a que su patrón de crecimiento es diferente.
Las previsiones de los distintos organismos internacionales no dan lugar a dudas: el siglo XXI es cosa de Asia. China, hoy la séptima economía del mundo -partiendo del producto interior bruto con dólares corrientes de 2004-, con el 4,11% del PIB mundial, ocupará la cuarta posición en 2025. La India, que hoy ocupa el décimo puesto (con el 1,73%), escalará dos posiciones, según una simulación de Analistas Financieros Internacionales (AFI). "Dentro de 15 años estas economías serán más importantes que el G-7 [Estados Unidos, Japón, el Reino Unido, Alemania, Francia, Italia y Canadá]", sentencia Carlos Solchaga.
El ex ministro de Economía socialista pronunció esta semana la conferencia inaugural del curso de verano de periodismo económico de la Escuela de Periodismo UAM/EL PAÍS-Fundación BBVA,
que finalizó ayer en Miraflores de la Sierra (Madrid), y que analizó el papel de los BRIC, término acuñado en 2001 por Jim O'Neill, economista jefe de Goldman Sachs, para referirse a las cuatro economías en desarrollo más potentes del planeta: Brasil, Rusia, la India y China.
El paradigma chino
El paradigma es China. Bajo la premisa, cuando menos sorprendente en un país comunista, de que "enriquecerse es glorioso", el vertiginoso desarrollo que ha vivido el país más poblado del planeta -unos 1.300 millones de habitantes- desde que Deng Xiaoping inició las reformas económicas en 1978 no tiene precedente histórico: un crecimiento medio anual del 9,6%. Esta expansión le ha hecho multiplicar por seis su peso en el comercio internacional. La proporción de sus exportaciones de mercancías han pasado del 1,2% en 1983, al 6,7% en 2004, cuando superó a Japón y
se convirtió en el tercer mayor exportador del mundo. En el mismo periodo, el peso relativo de las importaciones ha crecido del 1,1% al 6,1%, según datos del FMI.
En paralelo y frente a economías deficitarias como la norteamericana, el superávit de la balanza china por cuenta corriente y el ahorro interno han convertido a Pekín en el gran financiador del primer mundo. Es el segundo país con más reservas, tras Japón, y el principal tenedor de deuda de EE UU, lo que eleva su papel en el sistema financiero internacional.
Carlos Solchaga considera conveniente "cambios de cierta urgencia" en la composición de las "cuotas de poder y de decisión" en el Fondo Monetario Internacional acorde al nuevo peso relativo de las nuevas economías. Leila Fernández, profesora de Economía China de la UAM, pronostica una "probable revaluación inmediata" del renminbi (o yuan) para hacer frente a las "tensiones"
derivadas del tipo de cambio y reequilibrar la balanza de pagos china.
El fortalecimiento de la divisa china y el aumento de los tipos de interés (ligeramente por debajo del 6%) son las recetas que se adivinan para hacer frente al riesgo de recalentamiento del gigante asiático. Bajo el invento del "comunismo de mercado", ideado por los asesores de Xiaoping a partir de la fábula del "pájaro enjaulado" -donde el pájaro simboliza el mercado, la libertad económica, y la jaula, la planificación- el modelo de crecimiento chino, "no declarado pero inspirado en el de EE UU", según Fernández, se sustenta en dos grandes pilares: las exportaciones y la inversión.
Su tradición industrial de ensamblaje y el bajo coste laboral para una mano de obra cualificada juegan a su favor: el sector industrial explica el 53% del crecimiento del PIB chino. En paralelo, es el primer receptor de inversiones del
mundo. Con tasas de crecimiento superiores al 20% anual en los últimos años, la inversión explica otro 40% del producto interior bruto de China, asegura Pablo Guijarro, de AFI.
La India también viene registrando un crecimiento sobresaliente, con una tasa media superior al 8% desde 2003. Sin embargo, "no repite la pauta china de crecimiento y desarrollo", la del exitoso modelo asiático, asevera el profesor de la Universidad Complutense de Madrid e investigador del Instituto Elcano, Pablo Bustelo, presente también en la escuela de verano junto a Guijarro y Fernández.
La principal diferencia es que, desde el principio, ha dado participación tanto al consumo y a la inversión interna, motivadas por una pirámide de población mucho más joven -más de la mitad de sus 1.100 habitantes tiene 25 años- y la consolidación de una ya numerosa clase media, formada por 300 millones, un 10% de ellos con
unos ingresos anuales de más de 20.000 dólares (en paridad de poder de compra), según la consultora Global Insight.
Bandgalore, el Sillicon Valley indio, la mayor democracia del mundo, de lo que alardean las autoridades indias, está alumbrando al mayor proveedor de tecnología del planeta, sector que emplea a un millón de personas y aporta el 55% del PIB indio. Hay decenas de multinacionales asentadas, como IBM, y también gigantes autóctonos, como Tata, que acaba de sellar un acuerdo con tres competidores chinos para crear una empresa conjunta con sede en China.
Mientras algunos analistas temen que las dos mayores economías de Asia empiecen a tender puentes, otros ven, en el caso de la India, un crecimiento "artificial" impulsado y alentado por EE UU, nervioso ante el tamaño y el empuje que ha adquirido el país que dirige el Partido Comunista Chino.
Frente a una democracia y un sistema judicial independiente y una población joven y anglófona, persisten en la India grandes cuellos de botella que atenazan su crecimiento. Además de tener unas cuentas menos saneadas que las de su gran vecino y una balanza comercial deficitaria, 800 millones de personas no están percibiendo la bonanza que indican sus cifras macroeconómicas, lo que constituye una amenaza social.
Fuente: diario El País, de Madrid, España; 30 de julio de 2006.
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"La estanflación de la década de 1970 debida a las crisis de la oferta está, en cierto modo, levantando
nuevamente su fea cabeza"
Cuando falleció Luis XIV, todos emitieron la oración acostumbrada: "El rey ha muerto. Larga vida al rey". Así fue el 1 de febrero, cuando Alan Greenspan, durante tanto tiempo presidente de la Reserva Federal estadounidense, fue sucedido por Ben Bernanke. Wall Street y los gestores de dinero de todas partes empezaron a cotillear: "¿Dejará Bernanke de subir los tipos de interés oficiales de Estados Unidos? ¿O, como esperamos y rogamos, hará una pausa para así mantener el crédito en Estados Unidos suficientemente fácil como para impulsar el precio de las acciones y crear montones de nuevos puestos de trabajo bien remunerados en Estados Unidos?".
Los inversores especulativos son famosos por ser algo ilusos. Durante toda la primavera estuvieron empujando al alza los precios bursátiles basándose en la esperanza de que los bancos centrales de todo
el mundo promovieran la prosperidad mundial manteniendo una abundante liquidez del crédito. Prefirieron pasar por alto lo que el presidente Bernanke había insinuado repetidamente: mi Reserva Federal se centrará en el control de la inflación. Más del 2% de inflación anual es definitivamente inaceptable. Si el precio del barril de petróleo de la OPEP a 70 dólares empieza a filtrarse y eleva la tasa de inflación subyacente, crean que reaccionaremos, y lo haremos con decisión.
Así que las soñadoras cartas de los intermediarios bursátiles cambiaron de tono: seguramente, cuando la burbuja inmobiliaria empiece a explotar; seguramente, cuando las nuevas estadísticas de empleo se vuelvan tan decepcionantes por su debilidad; seguramente entonces la Reserva Federal, el Banco de Inglaterra, el Banco de Japón y el Banco Central Europeo saldrán a rescatar a los aterrados mercados.
Tengo que tachar esos "seguramente" de ingenuos. Lo que es más seguro es que el
presidente Bernanke hará todo lo posible por establecer su credibilidad como "controlador de la inflación" que no tolera blandamente la excesiva inflación del nivel de precios. Si Bernanke está dispuesto a arriesgarse a cometer un error en su primer año de presidente pensará que es más útil para su causa a largo plazo que dicho error sea el de ser demasiado rígido que no el de ser relajado en exceso. No soy experto en relaciones públicas. Pero en mi opinión de aficionado, los bancos centrales modernos conseguirán controlar mejor las futuras recesiones si en este momento respaldan con acciones la retórica de que la inflación es el objetivo fundamental. Además, aquellos que no nos hemos convertido aún al control estricto de la inflación podemos esperar aprender más de un experimento que intenta controlar la inflación que con las meras charlas retóricas sobre dicho control. Éstas son, pues, mis opiniones sobre las probables consecuencias de la restricción del crédito en todo
el mundo.
Normalmente, siempre que hay un exceso de dinamismo, tanto en el gasto en inversión empresarial como en el gasto en consumo, la subida de los tipos de interés es de hecho la prescripción ordinaria para enfriar la economía. Ésa es la simple normalidad. A lo que el presidente Bernanke se enfrenta esta vez no es tan simplemente normal. Ahora las principales razones que subyacen tras la nueva amenaza de inflación proceden del Oriente Próximo de la OPEP, rico en petróleo, y del voraz apetito de China por los metales escasos. ¿Qué diferencia supone esto? Significa en parte que la restricción crediticia diseñada en general tal vez tenga esta vez que causar una mayor reducción del empleo interior por cada nivel de reducción de la inflación que alcance. En resumen, la estanflación de la década de 1970 debida a las crisis de la oferta está en cierto modo levantando nuevamente su fea cabeza.
Eso es más bien mala suerte para Bernanke. Y puede suponer
mala suerte a corto plazo para las economías mundiales de hoy. Por fortuna, me parece sólo una mala suerte moderada. ¿Por qué? No soy uno de esos economistas modernos que creen que en el futuro nunca se producirán las grandes oscilaciones del ciclo económico. La economía no está tan cerca de convertirse en una ciencia exacta. Sin embargo, el registro documentado de la intensidad y la frecuencia de las recesiones en la sociedad globalizada posterior a la Segunda Guerra Mundial no justifica el pesimismo extremo. Si la economía antes merecía el apelativo dado por Thomas Carlyle de "ciencia deprimente", eso fue en una época muy anterior a Keynes.
Geografía Económica
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