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11449966/17 - O futuro da UE está em jogo na Catalunha (Pepe Escobar)

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  • Geografia Económica
    12 oct 11:48

      RGE 966/17

      O futuro da UE está em jogo na Catalunha


      Um dos aspectos menos destacados da situação na Catalunha diz respeito ao comportamento da UE, inteiramente alinhada com Rajoy e aprovando a repressão policial que este desencadeou. Seria fácil imaginar a reacção da UE se o drama na Catalunha estivesse a acontecer em terras eurasiáticas distantes e “bárbaras”. O pacífico referendo na Crimeia foi condenado como “ilegal” e ditatorial, ao passo que um ataque violento contra a liberdade de expressão de milhões de pessoas vivendo na UE é tolerado.
      O fascista Franco pode estar morto há mais de quatro décadas, mas a Espanha ainda se encontra atravancada com o seu cadáver ditatorial.
      Foi cunhado um novo paradigma no próprio interior da arrogante União Europeia, autoproclamada e condescendente distribuidora doméstica de direitos humanos para as regiões inferiores do planeta:
      “Em nome da democracia, abstenham-se de votar.”
      Chamemos-lhe democracia estilo nano-Franco.
      Nano-Franco é o primeiro-ministro espanhol Mariano Rajoy, cujas heróicas tropas de choque foram enviadas por motivo de um sério alerta nacional de terrorismo, para esmagar com bastões e balas de borracha não jihadistas, mas… votantes.
      Pelo menos seis escolas foram terreno daquilo a que acertadamente se denominou como a Batalha de Barcelona.
      Extremistas de direita até fizeram uma manifestação dentro de Barcelona, mas isto não foi mostrado na TV espanhola, pois contradizia a narrativa oficial de Madrid.
      Conforme revela o La Vanguardia, o governo catalão venceu os fascistas com dois códigos muito simples. “Trouxe o Tupperware. Onde nos encontramos?” era o código de telemóvel pré-pago para as pessoas recolherem e protegerem as urnas de votação. “Sou o viajante de papel” era o código para proteger os boletins de voto. Julian Assange/WikiLeaks tinha avisado sobre a primeira guerra mundial da Internet desencadeada por Madrid para esmagar o sistema de votação electrónica. O contra-ataque foi literalmente de papel. A Agência Nacional de Segurança dos Estados Unidos deve ter aprendido qualquer coisa.
      Tivemos assim um tecno-poder combinado com uma cobarde táctica repressiva franquista contra o poder popular, como foi o caso dos pais que organizaram ocupações nas escolas para garantirem que elas estavam a funcionar no dia do referendo. De acordo com os resultados preliminares, cerca de 90% dos 2,26 milhões de catalães que foram às urnas votaram a favor da independência de Espanha. A Catalunha tem 5,3 milhões de eleitores registados.
      Aproximadamente 770 mil votos foram perdidos devido aos raides da polícia espanhola. A participação de cerca de 42% pode não ser elevada, mas não é de certeza baixa. À medida que o dia corria, havia um sentimento crescente em toda a Catalunha e envolvendo todas as classes sociais de que já não se tratava de independência, mas sim do combate contra uma nova forma de fascismo. O que é certo é que vem aí a Tempestade Perfeita.
      Não passarão
      A “declaração institucional” de avassaladora mediocridade por parte do nano-Franco Rajoy logo a seguir à votação não se podia acreditar. O destaque foi uma medíocre referência a Magritte: “Ceci n’est pas un referendum. ” Este referendo nunca aconteceu. E nunca podia acontecer porque “a Espanha é uma democracia amadurecida e avançada, fraternal e tolerante”. Os acontecimentos desse dia mostraram que era mentira.
      Rajoy disse que “a grande maioria do povo catalão não queria participar no roteiro secessionista.” Outra mentira. Ainda antes do “não-existente” referendo, entre 70% e 80% dos catalães disseram que queriam votar, sim ou não, depois de um debate informativo sobre o seu futuro.
      Rajoy exaltou de modo crucial o “incondicional apoio da UE e da comunidade internacional”. Claro: as “elites” não eleitas em Bruxelas e as principais capitais europeias estão absolutamente aterrorizadas que cidadãos da UE se exprimam.
      Contudo, a principal mentira nano-franquista foi a de que ”a democracia prevaleceu porque a Constituição foi respeitada”.
      Rajoy levou semanas a defender a repressão do referendo, invocando “como nosso o império da lei”. A “sua” lei, de facto. O âmago da questão são os artigos 116 e 155 de uma constituição espanhola retrógrada, a primeira a descrever de que forma os estados de alarme, de excepção e de sítio funcionam em Espanha, sendo o ultimo aplicado “de modo a obrigar a [comunidade autónoma] a cumprir forçosamente… obrigações, para a protecção de… interesses gerais.”
      Bom, essas “obrigações” e esses “interesses gerais” são definidos por (quem mais?) Madrid e apenas Madrid. O Tribunal Constitucional de Espanha é uma farsa – não podia desprezar mais o princípio da separação de poderes. O tribunal reúne um grupo de mafioso/otários legalistas ao serviço dos dois partidos da situação, os chamados “socialistas” do PSOE (Partido Socialista Operário Espanhol) e o partido da direita medieval Partido Popular de Rajoy (PP).
      Poucos fora de Espanha recordarão o falhado golpe de 23 de Fevereiro de 1981, quando houve uma tentativa de fazer regressar a Espanha à longa noite de trevas franquista. Bem, eu estava em Barcelona quando isso aconteceu e fez-me lembrar nitidamente os golpes militares sul-americanos dos anos 60 e 70. Desde o golpe, o que passa por “justiça” em Espanha nunca deixou de ser uma simples lacaia destes dois partidos políticos.
      Agora, o Tribunal Constitucional suspendeu a lei do referendo catalão, argumentando que viola a medieval constituição espanhola. Para a maioria das pessoas na Catalunha, este desgraçado conluio é transparente. Aquilo que Madrid está a fazer representa igualmente um golpe – contra o governo da Catalunha e, evidentemente, contra a democracia. Por isso, não é de admirar que o mantra da imortal Guerra Civil regresse às ruas da Catalunha: “No pasarán!” Não passarão.
      Bruxelas é demofóbica
      Rajoy, rufia, medíocre e corrupto (essa é uma outra longa história), mentiu ainda mais quando disse que mantém a “porta aberta ao diálogo” . Nunca quis qualquer diálogo com a Catalunha, recusando sempre um referendo seja de que forma fosse ou a transferência de quaisquer poderes para o governo regional da Catalunha. O presidente regional da Catalunha Carles Puigdemont, insiste que tinha de convocar o referendo porque foi o que os partidos separatistas prometeram quando venceram as eleições regionais há dois anos.
      E, claro, ninguém é inocente neste jogo de poder puro e duro. O PDeCaT (Partido Democrático da Catalunha), a principal força por trás do referendo, também se atolou na corrupção.
      A Catalunha sozinha tem tanto poder económico como a Dinamarca; 7 milhões e meio de habitantes, cerca de 16% da população de Espanha, mas responsável por 20% do PIB, atraindo um terço do investimento estrangeiro e produzindo um terço das exportações. Num país em que o desemprego está nuns horríveis 30%, perder a Catalunha seria o desastre final.
      Madrid subscreve com efeito duas prioridades apenas: obedecer fielmente às imposições de austeridade da UE e esmagar por todos os meios qualquer movimento regional pela autonomia.
      O historiador catalão Josep Fontana identificou o nó da questão numa entrevista abrangente e esclarecedora: “Aquilo que para mim é escandaloso é o PP estar a atiçar a opinião pública dizendo que apoiar o referendo significava a secessão da Catalunha logo a seguir, quando ele sabe que a secessão é impossível. É impossível porque significaria que a Generalitat teria que pedir ao governo de Madrid para fazer o favor de retirar da Catalunha o exército, a Guardia Civil e a Polícia Nacional, e renunciar docilmente a um território que proporciona 20% do PIB… por isso, porque estão a usar esta desculpa para agitar um clima reminiscente de uma guerra civil?”
      Para além do espectro da guerra civil, o Grande Cenário é ainda mais incendiário.
      O Partido Nacional Escocês é uma espécie de primo direito dos separatistas catalães na sua rejeição de uma autoridade central que consideram ilegítima, com toda a litania negativa associada. Os membros do PNE queixam-se de serem forçados a lidar com línguas diferentes, imposições políticas vindas de cima, impostos injustos e aquilo que é sentido como uma absoluta exploração económica. Este fenómeno nada tem a ver com a ascensão do nacionalismo, populismo e xenofobia de extrema-direita em toda a União Europeia, conforme Madrid insiste.
      E então, temos o silêncio dos lobos. Seria fácil imaginar a reacção da UE se o drama na Catalunha estivesse a acontecer em terras eurasiáticas distantes e “bárbaras”. O pacífico referendo na Crimeia foi condenado como “ilegal” e ditatorial, ao passo que um ataque violento contra a liberdade de expressão de milhões de pessoas vivendo na UE é tolerado.
      A demofobia das elites de Bruxelas não conhece limites. O registo histórico mostra que os cidadãos da UE não estão autorizados a exprimir-se livremente, especialmente através de práticas democráticas, em questões relacionadas com a autodeterminação. Seja qual for a mudança de corrente que aí vier, o silêncio da UE denuncia o facto de Bruxelas estar a puxar os cordelinhos por trás de Madrid. Ao fim e ao cabo, o projecto da Admirável Europa Nova implica a destruição das nações europeias em proveito de uma eurocracia centralizada de Bruxelas.
      Os referendos são animais indomáveis. O Kosovo foi um subproduto do bombardeamento/amputação da Sérvia pela NATO para ser democracia, um mini-estado de narco-gangsters útil para acolher Camp Bondsteel, a maior base do Pentágono fora dos EUA.
      A Crimeia fez parte de uma acção de reunificação legítima com o objectivo de corrigir a idiotice de Nikita Khruschev ao separá-la da Rússia. Londres não enviou capangas para impedir o referendo na Escócia e está em curso uma negociação amigável. Não há regras pré-estabelecidas. Os neoconservadores clamaram em vão quando a Crimeia e a Rússia se reunificaram, depois de terem vertido lágrimas de alegria quando o Kosovo foi sacado à Sérvia.
      Quanto a Madrid, deveríamos aprender uma lição com a Irlanda de 1916. No início, a maioria da população estava contra a rebelião. Mas a brutal repressão britânica levou à guerra da independência. E o resto é da História.
      Após este histórico e (relativamente) sangrento domingo, haverá cada vez mais catalães a perguntar: se a Eslovénia e a Croácia, a República Checa e a Eslováquia, as minúsculas repúblicas do Báltico, para não mencionar os ainda mais pequenos Luxemburgo, Chipre e Malta, podem ser membros da União Europeia, porque não nós? E pode vir aí uma debandada: a Flandres e a Valónia, o País Basco e a Galiza, Gales e a Irlanda do Norte.
      Através de toda a UE, o sonho centralizador eurocrata desfaz-se. A Catalunha pode estar a apontar para um mundo novo não tão admirável, mas mais realista.
      Tradução: Jorge Vasconcelos